segunda-feira, maio 22, 2017

Pátria de Ninguém ou queimada da quimera brasileira



por Rafael Belo

Não adianta cair aos poucos porque a esperança de recuperar é pior. Caia de uma vez. Quando for piorar se jogue e encontre o fundo do poço. A queda trará liberdade e dor, mas não sofrimento se você não se tornar aliado deste. Medidas paliativas não vão resolver. Não tente manter aquilo passado, isto é o óbvio ululante de Nelson Rodrigues da vida como ela é. Isso sim é manter aquecido o sofrimento. É melhor esfriar, começar do zero, aliás, recomeçar porque sempre carregamos uma bagagem conosco. Vá! Avalie o importante e o desimportante. Esvazie. Seja menos. Vale, claro, para nosso país separado pela linha da queimada. Talvez você nem saiba o traste deste assunto, mas na queimada dois times são escolhidos e separados com o objetivo de eliminar o outro o queimando com a bola. Igual à divisão feita no Brasil.

Enquanto o povo debate, se bate e se mata os corruptos celebram nossa divisão. Eles se abraçam e tramam fomentando nossa guerra longe de ser civil ou civilizada. É uma guerrilha desorganizada tramada por um sistema colonizado pelas aparências. Nós somos os bichinhos de estimação da história repetida neste looping infinito. Somos corruptos e corruptíveis também! Este fato provavelmente é o mais irritante. Sermos enganados constantemente vem em segundo lugar, principalmente quando o termo Reservatório de Boa Vontade é deturpado e se transforma em fundos monetários para comprar mandatos e mandados. Ah, claro, e pessoas! Neste bombardeio vamos nos perdendo, afundando nas poças, nos afogando em dívidas do status quo e acabamos sem ar procurando o fôlego no vácuo com a corda no pescoço. Odiamos-nos e nós odiamos e por qual motivo mesmo?

Não dá tempo para conhecer o presente. A maioria está ausente até de ser. Vai nesta manipulação achando, às vezes, manipular querendo a todo custo ter razão e mais: ter Poder e manter o Poder! Não aprendemos mesmo e como cartas marcadas no jogo viciado ganha quem rouba só para dizer a terrível mentira acomodada: sempre foi assim. Ok! Pode não ser mentira... O sistema português foragido do francês napoleônico já veio com um ministro da Justiça (ouvidor- geral na época) corrupto. Pero Borges, nosso primeiro funcionário público, nosso primeiro corrupto em 1549, recebia propina de obras de um aqueduto levada na casa dele seis anos antes em Portugal. O desvio de dinheiro inviabilizou a obra, Borges foi condenado e mandado ao Brasil. Prêmio ou castigo?

A resposta é apenas uma escolha ou a forma de encarar os acontecimentos? Estamos fazendo algo de verdade? A confusão parece toda esta cortina de fumaça lacrimejando nos olhos de um holocausto previsto, mas como um tsunami da natureza: impossível de evitar. Podemos sim prevenir, ou melhor, reduzir os danos. Não estou falando de fantasia, ficção, ilusão ou ilusão. Vá ao dicionário e confirme: falo de uma combinação incongruente de elementos diversos, também conhecido como quimera. Esta quimera brasileira incrivelmente se realiza no cotidiano. São planos e mais planos, fatos e mais fatos sem qualquer obra do acaso porque às vezes gostamos de enfatizar: é óbvio ou, então, não sou obrigado! Este jogo de palavra leva a outras obviedades e ninguém ser obrigado a saber de tudo, a falar sobre este ou aquele assunto tem suas consequências, mas a paz tem seu preço.

Nós somos meros adereços enquanto não tomarmos consciência da nossa história, dos movimentos realmente adiantando para alguma coisa... Não podemos viver só em guerra, por isso, morremos tanto e dolorosamente aos poucos. Fomos divididos para facilitar e repercutimos a divisão. Só a união fortalece. Apenas braços dados e abraços aquecem mandando embora o medo e a dúvida sobre quem nos tornamos. O Brasil é uma Pátria de todos, mas para esta frase de efeito ser realidade nós precisamos procurar nossa paz e hastear a bandeira branca para eliminar os conflitos internos ou continuaremos a ser Pátria de Ninguém!

sexta-feira, maio 19, 2017

O Chefe (miniconto)



por Rafael Belo

Aconteceu a batida. Todo mundo parou. Parecia um tiro de alto calibre. As pessoas ouviram e até se jogaram no chão como se fossem comuns tiroteios na cidade. O Chefe nem imaginava ser com ele. Todos ali sabiam. Mas era somente uma batida na frente da Instituição. Os motoristas egoístas vão a toda velocidade e já era esperado o acidente, aliás, até demorou muito. O Chefe mesmo não se achava responsável nem pelos atropelamentos causados por ele. Utilizava do poder para humilhar ainda mais aqueles lesados por ele. Ninguém parava no emprego. Quando não eram demitidos se demitiam. Muitos até saiam com marcas daquelas humilhações públicas. Mas, como juíza empoderada ela revidava cada sofrimento.

Não era comum. Mas, ela era O Chefe. Não gostava de artigos femininos e não admitia o “A” na frente de seu Chefe. Então, ela começou a se incomodar com uma funcionária nova. Colocava desafios depois de desafios e A Chefe (opa) O Chefe se irritava cada vez mais. Aquel superava um depois de outro. Ignorando totalmente os ataques da Chefe. Até O Chefe perder a razão e começar a gritaria. Toda a Instituição parou e foi até a origem do furdúncio. O Chefe tinha subido na mesa nem se importando com a ausência de calcinha porque ela era sim, belíssima e nem se importava com os olhares, ela os incentivava. Quanto mais poder mais poder, certo?

Tinha a voz potente de uma sopraníssima. As pessoas nas ruas pararam para descobrir de onde vinha aquela voz irritada e com aquele alcance invejável. Ela chegou a agudos e todo vidro, espelho... Tremiam. Vibravam como se a ansiedade deste holocausto político-financeiro brasileiro estivesse concentrado ali. Claro, aquela Instituição política estava envolvida - de acordo com as citações/delações – vazadas por aí. Além de tudo O Chefe era dona do lugar. Centralizadora, megalomaníaca nunca aceitou concorrência e distribuía dinheiro para os bagaços das licitações até chegar às laranjas, enfim... Voltando... A frequência vocal atingiu o cume e tudo de vidro e reflexo se quebrou.

Não foi o suficiente para ela parar. Mais cedo, antes da gota d’água cair, O Chefe tinha recebido um whats de seu informante bem pago da Polícia Federal. Para ser franco, naquele exato momento a população acumulada nas ruas - já protestando contra a Instituição e O Chefe - abria espaço para os policiais entrarem. Com a gritaria ninguém ouvia dela. Eles ovacionaram quando a Justiça entrou e conseguiram abafar desabafos e desaforos da Chefe escoltada para o camburão. Se estivessem em silêncio teriam ouvido O Chefe se arrepender amargamente de não ter matado Aquel, a agente infiltrada. Aquel tinha vazado todos os vídeos, áudios e documentos já floodando em todas as redes digitais do mundo.

quinta-feira, maio 18, 2017

poder próprio



há rígidos dígitos das colunas expostas à gravidade
a idade nada tem a ver com o tempo na pluralidade singular
apontar o dedo destruir o verbo corromper a palavra
assediar quem depende das horas escravas

sobe o tom mudam as tonalidades as identidades nem existem mais
o som perde a noção entrega a alteração
humilhação tem a escuridão como a cor mais forte da humanidade

perde-se o norte a direção está na moeda da sorte
reboque todo este Ibope em decadência onde a influência morre

torre seu score o status quo corre para destruir seu ser não dê poder a ninguém além de você.


+ às 09h38, Rafael Belo, quinta-feira, 18 de maio de 2017 +

quarta-feira, maio 17, 2017

O assediador (miniconto)





por Rafael Belo

Eu sou cinéfila. Sempre me imagino participando de um filme com a trilha sonora do Paralamas do Sucesso. Sabe aquela música, Ska? “ A vida não é um filme você não entendeu...” Então, Eu, Cineli Film, sou fã das ironias da vida. Adoro um paradoxo e vivo dizendo ser uma contradição ambulante. Aí me questionam: não é metamorfose ambulante? . Véi! De boa mesmo! Não corrige o que você não sabe. Eu gosto do Raulzito, mas estou falando da minha vida. Eu prefiro ser uma contradição ambulante. Aliás, os filmes me levaram a leitura. Sabe? Queria saber de onde vinham as inspirações e tal.

Mergulhei de vez neste mundo e não, eu não espero fidelidade cinematográfica a tudo literário. São universos totalmente diferentes. Tudo isso me ocasionou esta mesclagem linguística. Eu adapto minha língua a qualquer tribo. Gosto, claro, de passear por bocas... Esta ficando muito íntimo isso... Comecei a escrever para dizer não ao Um Dia de Fúria. Sabe? Aquele clássico do cinema? Enfim, assista. Voltando... Eu não vou permitir ninguém interferir na minha paz. Não mesmo! Nem pensar! Pode ser o patrão, o chefe, o dono... O Batman com capa e tudo. Não venha gritar comigo.

Foi meu pensamento imediato quando aquele stalker frustrado começou a dar like e encher de smiles minhas fotos nas redes digitais. Fiquei puta. Aí comecei a pensar melhor. Cara! Não! Sai fora! Me deixa! Fica na sua! Quando ele segurou o meu pulso e me levou para frente do escritório falando absurdos e desaforos eu imediatamente peguei meu celular e liguei a câmera. Olhei para todos os lados em busca de apoio físico ou até uma palavra e nada. Mas eu levantei meu celular junto com a luz do flash para não perder nenhum detalhe. Apontei para meu pulso onde ele segurava e ele hesitou.


Olhou ao redor e todos agora faziam como eu. Ele passou a gritar ensandecidamente: demissão! Estão todos demitidos se não baixarem estes celulares e apagarem este vídeo! Agora! Vocês têm três segundos... 1... 2... 3... Ah, não vão, né?!  Ele não tinha largado meu pulso. Agora tentava tirar meu celular de mim. Começou a me arrastar para tentar tirar o celular do funcionário mais próximo. Eu estava fazendo uma Live no Facebook. A transmissão atingiu muita gente. Nunca tinha visto nada viralizar ao vivo... Quando ele apertou mais meu pulso e eu sentia o latejar das minhas veias... Véi! Não pensei duas vezes! Girei o pulso e com todo meu peso tirei meu braço e acertei... Bem... Digamos... Ele não terá mais filhos. Em instantes a polícia chegou e levou o assediador.  Eu pedi demissão.  Não ia ficar em um lugar capaz de contratar pessoas perturbadas daquele jeito.

terça-feira, maio 16, 2017

domando



os joelhos roçam o chão mas o tempo da humilhação já se foi
cedem em quedas diretas os corpos curvados de tanto peso carregar
no ar dedilha uma música o profundo respirar onde alguém se impôs
suspiram silêncios sussurrados no ambiente o estado impaciente para de gritar

nem oi nem bom dia o olhar desafiador inspira um desprecisar
vacas e bois pastam na avenida ruminando os restos urbanos das capitais
terminais líderes de nada se apoderam da manada para descarregar

choca o choque intermitentemente está ausente quem era para ali está
há cores no verde abaixo da janela onde nenhum cinza vai apagar

flores ao invés de espinhos ajuda a retirar o lixo para a Alma a carne domar.


+Às 08h29, Rafael Belo, terça-feira, 16 de maio de 2017 +

segunda-feira, maio 15, 2017

Assédios



por Rafael Belo

Você escuta aquela gritaria desnecessária e olha para o lado. Lá está alguém de cargo superior humilhando o subalterno e todos os empregados em silêncio com medo da sobra. Esta cena já deve ter acontecido com todo mundo em algum momento ou vai acontecer. Aquele erro alheio ou a acusação gratuita para impor o poder te traz inúmeras perguntas, inclusive, por que fiquei quieto? Por que estou neste trabalho? Ter um cargo acima do meu inclui se sentir superior? Isto é ser patrão? Líder com certeza não é! Mas, nossas necessidades e responsabilidades nos confundem para a anulação.

É um dos motivos da depressão ser o mal do século. O assédio no trabalho e a omissão dentro do narcisismo individualismo nos faz sentir mal, claro, nos torna ratinhos ou ogros, acumuladores de raivas ou impacientes enlouquecidos rumo a um abismo com tanta escuridão a ponto da cegueira substituir toda a razão. Não é possível oferecer rosas se só têm espinhos, afinal temos várias camadas de ignorância algumas mais grossas outras mais gentis todas precisando ser retiradas. Uma a uma vamos procurando esta nudez em nós, mas em nossos tropeços mal amamos mal amados parecemos gostar de agir de formas horríveis rotulados rotulamos e descarregamos nossas frustrações em qualquer pessoa ou lugar.

Nesta hora a iniciativa falha, a expectativa aumenta e dificilmente alguém se envolve. O silêncio de todos terem parado e mesmo assim fingirem fazer algo esperando o próximo ato do assédio pesa ainda mais. Quantos conflitos o abuso de poder gera? Uma provável fragmentação de uma comunidade já esquizofrênica entra em mitose e meiose na indefinição de quem é para a divisão celular. Essa multiplicação chega a uma imitação desta biologia na cadeia alimentar e você vai se por no seu lugar? Onde é o seu lugar? Estamos dispostos a perder a dignidade, o emprego pelo considerado certo?


Errado! Tome um banho de água fria, mais gelada ainda... Além da imaginação glacial. Vá em frente. Vai doer mais, ultrapasse a dor da humilhação. Esta, aliás, só acontece pelo poder imenso dado de bandeja ao outro sobre nós. Esse constante encher do ego com o hélio dos elogios. Esqueça isso. Só você tem poder sobre você e ponto. As coisas seguem naturalmente, independentes de nós. A nós sempre cabe o livre-arbítrio. Precisamos evoluir para reagir da melhor forma. Isto vem com o tempo, vem com o observar o erro do outro também. Porém, acima de tudo, vem com a forma de receber aquilo dado pelo momento. No caso da aberração perpétua do assédio quem sabe uma denúncia, a indiferença, a maneira como o assediador vive ou simplesmente exercitar enxergar o positivo em tudo isso. Encarar de outra forma muda toda a perspectiva da evolução espiritual para limpar nosso lixo acumulado. 

sexta-feira, maio 12, 2017

Na praia cinzenta (miniconto)




por Rafael Belo

Estava pinicando. Começava a coçar. Havia algo minúsculo... Aliás, vários “algos” caminhando no meu corpo. Mas, não era ruim... Tinha um cheiro de orvalho e tantas estrelas intensas naquele céu me impactando no instante do abrir dos meus olhos. Era um gramado gracioso. Fiz um anjo de grama. Pode rir. Não sei como é fazer de neve e não sei se teria coragem de congelar minhas costas e todo meu corpo. Brrrrr. Fiquei lá tentando me lembrar da noite épica responsável por me deixar sozinha lá e não consegui. Estava só e assim fiquei. Não conseguia encontrar uma forma de parar de olhar para aquele cosmos magnífico. Sorria por isso.

Eu via tudo cinzento e nebuloso, sabe? Como em certos sonhos de premonição ou de interação com... Com... Sei lá. Com quem já morreu... Sinistro falar assim. Acaba com qualquer rolê dos medrosos de plantão. Ao mesmo tempo eu pensava quem não sonha colorido? Eu, pelo visto...! Se bem... Não era de lembrar dos meus sonhos mesmo. Não posso afirmar nada, no entanto eu me arrepiava conforme ia tomando consciência de tudo ao meu redor, mas ainda assim não tirava os olhos das estrelas e tinha outro motivo além da beleza. Eu precisava sair deste transe.

Com muito pesar na alma e um peso incompreensível no coração, me sentei. Percebi uma praia focando bem perto. Esfreguei meus olhos até as lágrimas escorrerem. Não adiantou as gotículas marítimas estavam suspensas no ar como pequenas pausas entre o som das ondas indo e vindo em contradição. Meu nome estava na areia e pegadas o cercavam. Só havia pegadas ali... Estava tudo estranho de qualquer maneira, então fui até lá e meu nome virou meu apelido e as pegadas seguiram de par em par apagando seus rastros até a maré. Lali Láctea...


Estava meio-dia e meia-noite, mas pôr do sol e todas as estrelas dividiam o espaço. O céu era uma raridade. Quando um estalo na minha cabeça clareou minha visão e a névoa toda se dissipou carregando o som agudo da minha mente com ela. Estrelas e gotas eram meus sonhos. Lembrei-me astronauta. Eu fui a primeira. Um sonho recorrente sempre me impulsionando a novos planetas. Este é meu mundo... Quando sonhei, despertei para este sonho adormecido. Fechei os olhos e voltei a dormir. Precisava me encontrar novamente naquela praia cinzenta.

quinta-feira, maio 11, 2017

temporalizar



selam seus sorrisos meus lábios com olhares sonhados em ondas
vão e vêm me carregar nas brumas do distante mar da minha lua cheia
recheia o invisível com confiança na esperança da tua revelação nas sombras
tombas o sonho de infância da satisfação da plenitude de ser atitude para levantar

salga as rondas dos descalços pés nas nuvens perguntando onde não caminhar
sem saber passa por toda parte e contas os sonhos a saltitar a me espreitar
quero dormir para te ver selar meu sorriso solidificado imaginando sonhar

sem atropelo só no descanso manso do gauchês despacito
pacito em pequenos pasitos no slow motion do conectar


neste temporalizar as línguas se misturam no meu sonhar sei me Amar Amo quem chegar.

+ às 09h36, Rafael Belo, quinta-feira, 11 de maio de 2017 +

quarta-feira, maio 10, 2017

Não se contenha (miniconto)



por Rafael Belo

Ela acordou sorrindo com uma vibração no corpo, a sensação de ter deixado ele ali e ter vivido toda a intensidade da alma durante inenarráveis vidas, mas foi só uma noite. O corpo de Soli Dazi dançava. Uma alegria matutina capaz de sorrir até as mais oxidadas carrancas e os mais deteriorados maus humores irradiava suavemente dela invadindo casas e vidas aos arredores. Havia um contraste de doçura habitando ali com uma brutalidade incapaz de gentileza. Toda essa energia metia o pé e arrombava portas e quaisquer tipos de defesas tentadas pelos isolados.

Foi um sonho interrompido. Sonho sonhava com Soli. Ele havia tirado ela para dançar quando o estágio do sono já beirava o profundo. Ele a esperava na beira do abismo sem fim da liberação espiritual do físico sorrindo. Demorou para ele despertar do próprio sono. Sonho havia sido deixado ali quando uma adolescente Soli foi desiludida. Ela não estava preparada para deixar seus sonhos de lado e Sonho foi escolhido para representar todos os outros.  Não conseguiu despertar Soli para a grandeza dela ao criá-lo tanto tempo antes...

Quando Soli foi tocada por antigos amigos com as possibilidades a reatando com aqueles não mortos, aqueles capazes de a levitarem, a fazerem voar tão alto quanto o impossível... Ela chorou. Um pranto de alegria se misturando ao sorriso e absorvido pela pele até ser bombeado pelo coração para a substância profunda da alma... Essa mistura, sorriso com lágrimas felizes, é ingrediente principal para os milagres cotidianos. Uma questão de fé. Ela havia esquecido qual era seu sonho e, assim, quem era ela.


Foi uma noite de libertação. Soli caiu de amores por ela mesma e de um vagalume nas sombras virou um eterno sol. Quando seu corpo exausto do dia não aguentava mais as comemorações da recuperação dos sonhos e de si, a redescoberta, Soli foi dormir. Sonho voltou a incorporar em Soli. Soli era Sonho. Sonho era Soli. Agora ela despertava sonhos perdidos, mas ainda vivos aos arredores. Onde ela chegava começavam as pessoas a irem também. O corpo incapaz de conter tanta completude só podia dançar. Para onde se olhava agora, todos dançavam sem mais se conterem. 

terça-feira, maio 09, 2017

pequenas pausas



sonhos são seguidos com o sonhar conosco
enrosco a divagar pelo tempo devagar disposto
aberto calabouço das fantasias da magia irradiando rostos
posto toda a chama criança cantando alegrias abrindo espirituais vias

fia nossa linha contínua chama criança conosco aos poucos a concentrar

sonhadores não se escondem sonhos não morrem movem sombras
abertas conchas  da esperança para nos refrescar em pequenas pausas
causas sem pressa sequer de chegar preferem o querer do caminho criado

aliado ao brilho do nosso olhar sem qualquer tamanho a identificar
sintonizar ser eu espalhado lado a lado no conglomerado sonhado

não estamos atados somos o sonho dos sonhos realizados.


+ Às 10h23, Rafael Belo, terça-feira, 09 de maio de 2017 +

segunda-feira, maio 08, 2017

Os sonhos não morrem



por Rafael Belo

Devagar as coisas acontecem. Não tenha pressa. Dias desses eu estava em um lugar totalmente diferente e nem pensava mais nas coisas pessoais, em publicar as inspirações internas em mim. Então, você volta a acreditar quando em reviravoltas a gente levanta a cabeça, sorri e continua... As coisas mais incríveis acontecem. É fácil desacreditar. Difícil é continuar acreditando e ser seu melhor, apesar de tudo a tentar impedir. Há um crescer e um evoluir, mas não queremos cair. Nossa canção só melhora quando ouvimos, caímos , ressurgimos. Não permito a morte dos meus sonhos e nem o assassinato por encomenda deles. Não mais.

Descobri. Os sonhos não morrem de verdade. Eles adormecem e nos aquecem quando pensamos terem chegado ao fim. Não é assim. Nós podemos abandoná-los, mas eles não nos abandonam. Podemos fingir não ligar e até acreditar nisso, mas ligamos, principalmente quando realmente descobrimos quantas pessoas acreditam e torcem por nós também. No entanto, imprescindível mesmo é acreditarmos no nosso eu. Se assim for, só há interferência na nossa caminhada se permitirmos. Assim perguntamos a nós mesmos: qual é o nosso querer?

Queremos acontecer, mas distorcermos este querer no atropelo do não entender do tempo porque nossa vontade é de já. Não temos tempo a perder, porém, nossa visão do tempo também destoa à passagem do mesmo. É peculiar a cada um de nós os momentos e só ao percebermos tal fato vemos a importância de não correr, da descontribuição do depressa, da desconstrução da amizade e de relações amorosas levando ao patamar romântico já de um beijo ou/e da prática do sexo em si sem sequer permitir conhecer o outro. Como os sonhos, as relações se constroem com confiança, presença e fé.


Como sonhar, se relacionar acontece em um constante encontro antigo. Você não precisa pegar na mão no primeiro encontro. Não precisa beijar rapidamente. Deixe o coração falar, o sorriso vibrar os dias virem. Nascem as mais belas coisas desta maneira. Não tenha pressa. Se apaixone por si mesmo, caia de amores por si e depois se deixe em queda por outra pessoa. Não deixe de ser assim. Se não for capaz de desejar o bem, apenas ignore o outro, não deixe portas abertas para lhe desejarem mal. Sonhar é Amar a si mesmo em primeiro lugar e, desta forma, aberto a quem é somos capazes de Amar o outro, de nos libertar e realizar.

sexta-feira, maio 05, 2017

Quantos? (miniconto)




por Rafael Belo

Todos se foram. Deixaram-me aqui no fim do jogo. Eles pararam de jogar. Eu não queria ter começado, mas me viciei neste lance de experimentar. Não ficar presa a uma relação e poder entrar em todas as paranoias destes homens no fundo sempre querendo controlar, se dar bem... Em algum momento há a queda, não há quem fique para sempre em pé. O jogo sempre foi assim, mas bem na minha vez mudaram as regras... Nunca aceitaram mulheres jogarem também, porém fomos nós as criadoras do jogo e enquanto os homens se achavam artilheiros pegadores, nós colecionávamos os troféus. Quantos aqui sairão reabilitados? Quantos vão se acostumar à monogamia de verdade?

Queria minha liberdade e acabei em mais uma prisão. Certo! Eu tenho a percepção deste jogo também ser um ciclo de correntes. Digo isso alto e entre dentes... Acabo com raiva de mim. Claro! Seria mais fácil pegar um carinha qualquer e sair do foco das fotos, dos boatos, das fofocas, mas só o começo vai bem depois desanda a mesmice, aos mesmos comportamentos com variação e personalidades criativas para desculpas... Eu quero ser o sol, principalmente quando nasce e se põe, mas assim me sinto escondida e agora... Abilie Ariete na clínica Seja Sincero? Não, não, não, nãonãonão... Sempre fui sincera e honesta. Só não dizia nada além do necessário... Falando assim... É... Admitir é um dos passos!

Faço meu querer meu foco. Toco os matches querendo se apegar quando diziam não. Os testes só provam o contrário: eles querem exibir um mulherão. Depois se enciumam dos olhares, das invasivas cantadas, das abusadas investidas... Inventam absurdos quando os rejeitamos. Ok, vamos! Não somos santinhas, também inventamos. Também queremos ter aquele coringa para voltar quando nos sentimos mais sozinhas, mais vulneráveis, quando choramos... Somos instáveis, bom digo por mim, no entanto eles são ainda mais... Estátuas de sais, mas nem nós nem eles somos vitais. Nenhum de nós, não mais...


Se for admitir, só somos essenciais quando nos damos importância e damos importância para alguém. Exagerei muitas vezes, normal... Não é? Admita também...! Vai! Quem não quer ter o poder de escolher? Se há problema com rejeição... Trabalho para não ser rejeitada, mas às vezes falha e dói... Como dói! Quantas pessoas estão aqui nesta clínica? Meu Deus! Vão embora! Não podem me obrigar a sair do meu quarto. Não vou interagir com mais ninguém. Só tem homens aqui! Onde estão as mulheres? Onde?! Só me digam!! Ei! Ei! Ei! Mas, não me deixem só! Não precisa disso! Quantos dias terei de ficar aqui? Quantos? Quantos? Alguém me responda, por favor... QUANTOS!??

quinta-feira, maio 04, 2017

Matches



quanto mais caminho menos canso desfaço o ranço
desmancho meu Sancho vou só de Dom Quixote
no meu próprio rock sonhado dia-a-dia sento na trilha
meu olhar se esvazia nos moinhos de vento soprando meu coração

são como um manicômio desativado inteiro solidão é companhia em fragmentação
sou todos os meus pedaços compartilhados de imediato no contato do momento
movimento sem intenção espontânea ligação sem orgulho agora é o futuro todo

não há jogo na vontade com o volume da intensidade nos agitados corações
emoções onipresentes incondicionais vitais na flexibilidade do vento

sento no cavalo branco lança em punho sem testes luto ao lado da imaginária amazona em franca zona de matches.


+ às 09h37, Rafael Belo, quinta-feira, 04 de abril de 2017 +

quarta-feira, maio 03, 2017

Ajuda-me! (miniconto)




por Rafael Belo

O jogo foi formando elos e elos formaram novos elos e tudo chegou a uma proporção sem controle... Precisei fugir. Não queria, mas a aposta foi tão alta... Presa eu não serviria de nada. Preciso voltar ao início para saber o motivo do jogo não ter dado certo. Nossa coleção de crushs era compartilhada e todos aqueles babacas se achando por nos pegarem quando nós os pegávamos. Trouxas. Nossa lista era muito boa, mas ninguém imaginava ainda haver algum homem decente por aqui. Preciso refletir e lembrar quando a primeira pedra foi atirada.

Também quem vive de calmaria? Aquela paz sem graça, aquele silêncio devastador, aquele nada constante, aquela normalidade entediante, tanta mesmice engasgando na garganta... Eu precisava tossir, agitar, se fosse em uma cidade grande nada disso teria sido... Enfim, não nasci para ficar ruminando a vida mansa de herança dos meus pais. Tudo bem... Aqui não é cidade pequena. É uma Capital, mas há muitas mentalidades refletidas nas águas paradas dos buracos destas ruas descuidadas. Isto aqui era um grande lago onde nem vento soprava.

Como eu iria imaginar tantas tempestades repentinas? Este mar aberto nervoso arrastando todo mundo para a morte? Não era meu desejo descobrir tantos segredos enterrados na família de cada um daqueles matches... Não tinha nenhuma intenção de revelá-los também, mas era a única forma de eu permanecer viva. Chafurdar só leva ao mais obscuro das pessoas. Eu devia ter deixado o passado bem morto... Agora tudo fede. Eu só sinto este cheiro distinto de morte impregnando minhas narinas... Há quanto tempo eu não durmo? Esta fonte de desejos não vai fazer o tempo voltar... Mas, se voltasse eu não faria diferente. Bem, eu tentaria evitar o desaparecimento das minhas amigas? Será... Não! Elas não morreram!


Está tudo vibrando... Eles vão chegar a qualquer momento. Mas, como vou provar... Preciso saber se as câmeras das casas e das ruas estavam funcionando... Ah, onde foram parar as meninas? Está morto mesmo o último homem ainda valioso? Não estão apenas tentando queimar um arquivo vivo tão inconsequente e inconstante como eu? Pensando bem... Eu caí na minha própria armadilha... Será... Hummm! Ele era amigo dos outros, todos eram amigos... Eu não podia ter deixado esta passar... Tenho e vou confirmar esta história. Espera! Seria só eu quem queria agitar as coisas na cidade? Ah, Deus! Ajude-me a respirar!!!

terça-feira, maio 02, 2017

Onde estar?



Aqueles olhos piscam fecham abrem repiscam
os dentes mordem os lábios um sorriso sensual de canto de boca invoca
provoca lança a flecha flerta naquele jogo torto
mostra mas não entrega o ouro dos corações cansados


espera a sorte nos dados sem sequer os lançar
estamos escondidos sem lugar para chamar de lar
para onde vamos quando nos deitar? antecipados profetas do desplugar

navegando em águas escura no eclipse da noite perdemos a direção na imensidão
céu parece chão solo é mar e ainda há a profundidade a nos afastar

existe muita superfície nesta solidão orgulhosa cheia de pedaços de nós e não sabemos onde é estar.


+às 10h569, Rafael Belo, terça-feira, 02 de maio de 2017+

segunda-feira, maio 01, 2017

Profetas da antecipação



por Rafael Belo

Há um jogo diário sem vencedores onde obviamente todos saem perdedores de cada partida. Colecionadores de corpos e vazios olhando sem foco para frente, esperando uma mensagem, esperando chegar um whatsapp... Há muita verdade em fazer as coisas com liberdade, sem compromisso e se apaixonar por quem faz estas coisas contigo. As comédias românticas nos mostram este óbvio e não vejo erro nisso. Errados somos nós nos omitindo, mentindo, manipulando a verdade sendo evasivos, evitando dizer a própria vontade e os reais pensamentos.  Este jogo de paciência é pura aparência sem graça focado na tal da experimentação. É impossível experimentar de tudo e todos.

Podemos tentar, mas por quanto tempo? Vamos elaborando vários planos caso o principal não dê certo e, às vezes, torcemos para dar errado porque aparentemente estamos mais interessados em um dos outros planos. Mas, esta coleção de crushs é desgastante e também se desgasta. São pessoas aptas a arriscar, mas nem sempre prolongar os riscos. Parece ser o risco maior se apegar, se apaixonar... Mas sem se apegar e se apaixonar nos resta... Nada! Nada além de uma falsa sensação de controle. Os relacionamentos começam e terminam com os controladores descontrolados, com arrogantes humildes humilhados, com herois vitimas bandidos, com quem não se machuca ferido, egos estourados e um monte de trapo fingindo força. É isso?

Assim é fácil acabar descrente, radical... Esvaziar, desconstruir o Amor e o transformar e moeda de barganha... Uma hora ou outra, precisamos sim de uma pessoa muito próxima para nos mantermos inteiros como nascemos. Sem isso vamos despedaçando o coração e espalhando ele para o primeiro carinho, a primeira atenção, o primeiro elogio, àquelas máscaras de ceras de Gepeto... Somos feitos de poeira e infelizes como jogar o peso da felicidade no outro? Qual tipo de louco nós somos?  Não dos melhores. Parecemos bonzinhos, mas somos sadomasoquistas, ativistas de socar pontas de facas, bater a cara no muro e cutucar cada ferida até virar infecção.


Exaltamos nossa solidão, mas temos medo de ficar sozinhos e vamos sugando uns aos outros esvaziando a alma soltando os pedaços costurados do coração porque também temos medo de nos machucar, de dar errado... Como somos medrosos e profetas da antecipação. Vampiros da expectativa... Para onde vamos com tanto medo e desconfiança? Para o lugar onde não queremos: a dor e abandono. Ainda assim falamos com orgulho de nossa independência, das vantagens de não ter ninguém a quem responder. Mas quando surge alguém arrebatando quem somos, realmente abandonamos todas estas nossas defesas e desculpas ou seguimos lutando e fingindo ser muito bom acordar sem ninguém sequer para desejar bom dia?

sexta-feira, abril 28, 2017

Um novo eu (miniconto)




por Rafael Belo

Vejo as coisas pela metade não tenho idade para sair pela cidade. Minha sanidade não tem lugar. Minha mentalidade ninguém pode alcançar. Há uma insanidade apontada nas ruas e eu vejo da lua o quanto as pessoas estão nuas. Da lua também vejo as ruas... Estou em mais de um lugar. Não são minhas ideias ou suas. São duas ao mesmo tempo. São do livramento. Um conflito sem entendimento. Personalidades opostas na dualidade interna de mim mesmo. Sinto-me um nevoeiro cobrindo o mundo. Não há superfície nem fundo e vou a um mergulho em um submundo tão particular a ponto de me faltar ar.

Tenho água por todas as partes, não vejo como chegar a minha superfície. Sou estandartes dos seres do mar. Sou imensa uma baleia azul encalhada em mim mesma. Não tenho nome, não tenho fome, mas há um sobrenome insistindo em me levar pelas ondas deste meu mar. Talvez eu seja a anaconda da lenda engolindo tudo, mas me sinto mesmo uma serpente qualquer querendo trocar de pele, trocar quem me adere, mas quem me fere mais sou eu... Preciso me trocar somente e qual a melhor forma de ser diferente, adstringente, inconsequente, resiliente, independente?

Renascer. Querer ser novo. Sentir outra dor e ser outro eu... Não! Um novo eu! Não preciso sair do meu corpo, arrancar meu cérebro, me matar... Quero saber lidar... Com esta dor de ser! Não vou deixar me manipular. Está ouvindo? Não vou!!! Minha vida pode não ser nada, mas não vou me suicidar... Não vou por esta saída inacabada. Preciso focar, encontrar outra estrada e construir minha própria jornada. Preciso desabafar! Ouça-me! Dê-me atenção por um minuto. Saia desta sua bolha de ilusão acústica, se livre desta tua mentalidade rústica da facilidade da vida. Nestas idas e vindas já deveria saber sobre a diversidade dos ângulos desta tal verdade...


Mas será vaidade achar: vai me escutar? Quero viver! Entrosar e desentrosar quando quiser. Não venha me questionar, mas pode conversar, perguntar, quem sabe acredite se importar? Genuinidade pode parecer ingenuidade, mas as aparências ainda seguem sem ser realidade. É tudo tua mentalidade distorcida pela singularidade da sua vida, pelas suas escolhas oferecidas, às vezes a frieza é bem-vinda, necessária, porém, prefiro coisas aquecidas ou entretidas para se aquecer. Lá vem o amanhecer destes dias frios. Deixe- me enlouquecer mais uma vez. Vou nua nestas geladas águas para despertar esta minha vontade de não fazer nada, de ser mais uma escrava da fonte desativada... Vou ativar o céu avistado em mim mesmo estando nublado.

quinta-feira, abril 27, 2017

desativada fonte



minha única necessidade é o teu silêncio
eu falo eu penso eu desafio você
mando a morte companheira retirar a caveira para te ver
uma luz vermelha no fim do túnel para confundir o amanhecer

prendo seus pulsos amarro suas pernas te ato em meu mundo
o seu é meu submundo comandado para eu exercer o poder
manter meus dedos em movimento atento aos estímulos no ser

ceder ao mergulho sem ar no fundo do mar ficar na rede sem se soltar
encalhar na areia azul baleia envenenar tuas veias levar tua aparência a se matar

 você vai jogar suicídio na fonte desativada do litígio com minha água da ilusão.


+ às 11h40, Rafael Belo, quinta-feira, 27 de abril de 2017 +

quarta-feira, abril 26, 2017

Suicídio diário (miniconto)




por Rafael Belo

Todo dia me mato aos poucos. Em você me suicido quando te permito me matar para eu sentir esta falsa aceitação, este falso carinho, esta falsa segurança, este falso amor... Tua atenção tendenciosa muda me cala. Tudo está claro e, claro, eu só podia ser Clara. Tenho medo de perder este tão pouco de você, então meu suicídio é também minha permissão de você cometer homicídio em mim. Morro de qualquer jeito e ainda assim você não estende a mão. Só se aproveita para depois me ocultar, excluir, bloquear, julgar... A vida me chateia e estou alheia a todo acontecimento. Tento entender aqui dentro, sabe? Esta angústia, esta dor, este peso sem fim de não sei o motivo, então me fragmento.

Não sei se aguento morrer aos poucos. Cometer suicídio é um jogo, um desafio me cortando, me fazendo matar outros, envenenando o mundo com a dúvida, a divergência, o poder sobre si mesmo... Suicídio deveria ser rápido. Uma dor só e pronto. Tchau! Mas carrego uma cruz de alguma parte de mim se matando por outro alguém. Este outrem nem sabe e, por isso, me mata de volta. Há tanta reviravolta e, finalmente, participo de algo. Faço parte de um grupo. Alguém me obriga a fazer alguma coisa, alguém me obriga a sentir na pele, alguém me castiga, alguém realmente manda em mim, este é o meu fim. Às vezes tudo me faz sentir magra demais, bonita demais, integrada demais, outras gorda demais, feia demais, excluída demais... Não me encaixo em nada. Clara: 16 anos e esquisita.

Talvez eu seja esta baleia azul e de alguma forma me desafie a finalmente chegar ao suicídio final. Olho no espelho e vejo um borrão. Escuto alucinações, vejo sons estranhos... Será possível alguém querer me escutar? Enxergar-me? Dedicar um tempo para saber quem sou? Meus pais só me cobram coisas e eu? Eu não sou uma pessoa? Não sou igual a eles? Será verdade: eles tiveram minha idade? Por que agem como se tivessem nascido adultos? O mundo mudou muito, mas o comportamento das pessoas ainda segue cruel, querendo impor, precisando expor a raiva acumulada, a humilhação passada, revidar de alguma forma... É possível aguentar sozinha? Não somos todos sós? Daqui vejo tudo. Sinto um poder antes nunca sentido. Sempre me senti diminuída, exposta, pequena e as curiosidade das pessoas é mórbida, além de vaidosa. Todas estão como eu: em uma gaiola sendo observadas, bebendo água suja e hipnotizadas pela correria de ter sempre de entregar produção. Temos noção?


Esta multidão lá embaixo se divide entre o coro de joga, joga, joga, àqueles me xingando tanto por demorar como àqueles por pensar em me matar e, finalmente, os desejosos de salvarem uma vida, de serem heróis ou simplesmente fazendo o trabalho a lhes caber... Não importa nada. Nenhum deles. Não os ouço, não me atingem e não estou enrolando, só estou esperando o sol se pôr e a lua cheia chegar. Veja está quase lá! O Sol se foi... Vem lua cheia, vem... Dia, noite e eu. Eles não vão chegar a tempo e já me matei há muitos dias... Sou sombra da sombra da desatenção. Agora vou correr para o outro lado. Nossa! Não achei ser tão rápida! Clara vai se apagar neste momento. Um breve rodapé fora do sistema.  

terça-feira, abril 25, 2017

Desmergulho



ironiza a baleia azul o comando do jato d’água na superfície respiração
no meio do oceano tudo tem o mesmo tom é um espaço de contenção do som
ninguém escuta a tentativa de atenção onde os cortes no mundo ficam mudos
há muita desproporção para lidar com a transição dos adultos eles nunca estão lá

nosso lar é uma casa engraçada bagunçada por sentimentos desordem danada
nada dá nas conversas desorientadas é uma constante primeira jornada distante
diante das estantes vazias a depressão submersa nos afoga no expressivo silêncio

tensos espaços exagerados gerados da confusão generalizada liberdade é prisão
dimensão paralela na própria realidade acesa na tela manipulando a substituição

a mesma janela nos pula de uma altura pedindo ajuda para conversar ignorar é saltar junto quem sabe empurrar não ver os sinais necessários para respirar.


+ às 23h50, Rafael Belo, segunda-feira, 24 de abril de 2017 +

segunda-feira, abril 24, 2017

Desencalhe a língua preta



por Rafael Belo

O mundo é tão vasto e vivemos presos por uma cerca fraca em um local minúsculo. Talvez até andássemos oferecendo o nosso melhor, mas sabemos qual é ele? Podemos até ter as melhores intenções, mas sabemos qual é o efeito delas? Vivemos jogando vários jogos de azar e nos desafiando em um jogo sem vencedor. Lá fora estão as possibilidades, mas estamos desconectados aqui dentro, por isso estamos agrilhoados com uma corrente inexistente a um local invisível. Gostamos do humor, mas não queremos limites até tudo nos atingir. Nas redes virtuais há um animal real. Uma baleia. Baleia azul. A esta altura você já deve saber sobre o assunto e o vê de qual maneira. Vejo não bastar à incitação ao suicídio vir agradável como desafio da baleia azul. Precisamos ironizar, encalhar a ideia sem nem ter contato com os envolvidos. O mundo está frio. Este calor aparente é isto: aparência. As pessoas estão sim distantes e se alguém pensa em tirar a própria vida: está só sim. É uma epidemia dos nossos tempos. Ao mesmo tempo estamos conectados com tanta gente, somos populares nas redes sociais e estamos em um isolamento social.

O sentimento do outro não vem estampado no rosto, não está nas ironias, indiretas, no cotidiano é um desencadear sorumbático de um banzo moderno feito do que não se teve, do que não se viveu. A minha geração já tinha pouca atenção dos pais. Eles queriam um mundo melhor para os filhos, filhos melhores para o mundo... Foi-lhes pregada uma nova forma de melhor ligada à necessidade inconstante de enriquecer, de dar comodidade, do bom e do melhor, de não querer que os filhos passem privações… Aí ao invés da infância surgiam os cursos intermináveis… Pressões antecipadas da constante capacitação para a sobrevivência dos adultos.

Hoje o acesso ao mundo virtual irrefreável fez os pais libertarem os filhos de quase tudo. Se antes sempre havia alguém para cuidar, ameaças veladas para obediência, até palmadas... Agora não há tempo de estar presente, só compensações. Mas quando se escolhe estar presente, quando não sufoca a cria, deixa ela livre para se fechar, fazer o que bem entender. Cada um oferece aquilo em do próprio conhecimento, do próprio poder...  Não vamos julgar. Vamos cuidar do próximo. Ouvir. A baleia é um ser gigante submerso cheio da necessidade de emergir às vezes para respirar. Azul pode ser confundido com o deslocamento das águas marítimas. Seu sangue quente e vive em águas frias. Ela consegue ficar de 20 minutos a 1 hora sem respirar, mas morre encalhada na praia.


Ela não sua. É o mesmo que sairmos de preto no deserto do Saara ao meio dia. Além disso, o peso extremo dela pressiona seus órgãos e, às vezes, mesmo resgatada pode ser que morra pelos danos. Estes antes aumentaram ainda mais a própria dor. Pré-adolescentes e adolescentes vivem o mesmo como um distúrbio direta ou indiretamente sofrem pressão em casa e do mundo. Quando não tem atenção necessária então… Nós já passamos pela fase ou nunca saímos dela? Tanto faz. Todos temos nossas responsabilidades maiores, menores só sabe medir quem as carrega. Precisamos de privacidade? Claro. Mas, não somos oniscientes, onipresentes e nem aprendemos a ser incondicionais. Precisamos conversar! Vamos conversar! Respeitamos todos, podemos dar espaços para todos, mas precisamos estar atentos e dar atenção para as pessoas. Não temos controle de nada, quem dirá dos outros. Seja parente próximo, distante ou amigos se não for dito nenhum sinal do mundo é o suficiente para termos quaisquer conhecimentos. É preciso de senha para entrar, ou seja, da autorização. Então, vamos nos conectar a vida.