segunda-feira, março 02, 2015

Sem sair do lugar


por Rafael Belo

Nos nós das vielas, ruas e avenidas há sempre o princípio, as origens. Muitos cruzamentos, várias intersecções e a mesma finalidade: nos levar a algum lugar. As pontes, tuneis e viadutos conectam um ponto ao outro e o movimento não para, mesmo se o domingo for estendido além das horas. Não há atalhos e quando aparece algum caminho disfarçado de mais rápido acaba sendo ao contrário, demoramos mais para chegar. Esta é a cidade e nós somos iguais.

Precisamos conhecer a cidade, nos conhecer. Saber os melhores lugares, as qualidades, os piores becos, os defeitos, as esquinas erradas e as curvas mais certas porque não saberemos em hipótese alguma a totalidade de qualquer vida e objeto, mas podemos chegar o mais perto possível sabendo como trafegar por aí e dentro de nós. Não há sequer um sistema de posicionamento geográfico capaz de nos levar onde queremos se no fundo não sabemos onde fica. As origens precisam ser descobertas.

Por mais que o tempo passe novas vias surgem junto com sarjetas ocupadas e ambas estão em toda parte nos olhando como se fôssemos um quadro abstrato obrigando o outro a nos entender, aos sinais funcionarem conforme nossa vontade... É fascinante como pensamos ser ruas de mão única... Como o passado é causa do presente... O deslumbramento adolescente que não nos larga, continua em larga escala nos afetando afetados que somos e negamos. Depois temos raiva, barganhamos e ficamos depressivos, mas nunca aceitamos. E o ciclo reinicia como se vivêssemos de luto.


Luto pela morte do que não chegou, não veio, não reagiu porque nada agiu antes, mas lutamos, sonhamos e de alguma forma não percebemos que nos matamos... De uma forma incompleta nos deparamos com nós mesmos e batemos portas deslumbrados adolescentes rebeldes que ainda estamos, explodindo hormônios, criando faces com todas as fases da lua indo do raso ao profundo nas próprias descobertas. Enquanto o ponto não chega, não há origem e nem destino, parece que só há o ônibus errado para pegar com a estrutura abalada e todas as direções do avesso fazendo o olhar enviesar. Nos deixamos no nosso labirinto sem sair do lugar.

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