quarta-feira, maio 03, 2017

Ajuda-me! (miniconto)




por Rafael Belo

O jogo foi formando elos e elos formaram novos elos e tudo chegou a uma proporção sem controle... Precisei fugir. Não queria, mas a aposta foi tão alta... Presa eu não serviria de nada. Preciso voltar ao início para saber o motivo do jogo não ter dado certo. Nossa coleção de crushs era compartilhada e todos aqueles babacas se achando por nos pegarem quando nós os pegávamos. Trouxas. Nossa lista era muito boa, mas ninguém imaginava ainda haver algum homem decente por aqui. Preciso refletir e lembrar quando a primeira pedra foi atirada.

Também quem vive de calmaria? Aquela paz sem graça, aquele silêncio devastador, aquele nada constante, aquela normalidade entediante, tanta mesmice engasgando na garganta... Eu precisava tossir, agitar, se fosse em uma cidade grande nada disso teria sido... Enfim, não nasci para ficar ruminando a vida mansa de herança dos meus pais. Tudo bem... Aqui não é cidade pequena. É uma Capital, mas há muitas mentalidades refletidas nas águas paradas dos buracos destas ruas descuidadas. Isto aqui era um grande lago onde nem vento soprava.

Como eu iria imaginar tantas tempestades repentinas? Este mar aberto nervoso arrastando todo mundo para a morte? Não era meu desejo descobrir tantos segredos enterrados na família de cada um daqueles matches... Não tinha nenhuma intenção de revelá-los também, mas era a única forma de eu permanecer viva. Chafurdar só leva ao mais obscuro das pessoas. Eu devia ter deixado o passado bem morto... Agora tudo fede. Eu só sinto este cheiro distinto de morte impregnando minhas narinas... Há quanto tempo eu não durmo? Esta fonte de desejos não vai fazer o tempo voltar... Mas, se voltasse eu não faria diferente. Bem, eu tentaria evitar o desaparecimento das minhas amigas? Será... Não! Elas não morreram!


Está tudo vibrando... Eles vão chegar a qualquer momento. Mas, como vou provar... Preciso saber se as câmeras das casas e das ruas estavam funcionando... Ah, onde foram parar as meninas? Está morto mesmo o último homem ainda valioso? Não estão apenas tentando queimar um arquivo vivo tão inconsequente e inconstante como eu? Pensando bem... Eu caí na minha própria armadilha... Será... Hummm! Ele era amigo dos outros, todos eram amigos... Eu não podia ter deixado esta passar... Tenho e vou confirmar esta história. Espera! Seria só eu quem queria agitar as coisas na cidade? Ah, Deus! Ajude-me a respirar!!!

Um comentário:

Maria Belo disse...

....não nasci pra ficar ruminando a vida mansa....!!!!