segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Autointervenção



por Rafael Belo
Há sempre uma chuva à espreita ou seria o sol espreitando? O tempo vai passando e a gente patinando, esperando, esperando… Esperando uma nova desculpa para esperar. É possível surgir uma intervenção tardia, momentânea e totalmente paliativa, mas e depois? Quanto tempo demorou para a situação insustentável acontecer? Quantos soldados são necessários para sitiar uma cidade? E quase a totalidade das cidades com o mesmíssimo problema? Solucionar de uma hora para outra é só mais uma máscara.

Vamos vestindo várias máscaras ao mesmo tempo e nos deixando levar pelo pior de nós. Somos nossos próprios carrascos. Sabemos torturar como ninguém. Saímos nos punindo e tomando venenos em doses pequenas para nos enganar ao morrermos lentamente. Traficantes silêncios, escondemos informações, atiramos nas partes anatômicas do corpo onde até afetados, mas só para difundir o medo e permitir o controle. Bom, até o descontrole é vigiado, cercado com os limites certos…

Porém, certo e errado ficam vagando em um prisma pessoal tão carregado de dúvidas e paradigmas que a âncora é se agarrar as abaladas certezas inabaláveis. Qualquer coisa é válida para não perder o que se tem. E o que temos, afinal? Nossa saúde mental vai bem? Estamos bem ou vivemos dependentes de tantos gatilhos sociais que acabamos apontando para nossa cabeça, abrindo a boca e espalhando o que resta do nosso cérebro em algum fundo branco decorativo?

Há várias formas de suicídio e somos algoritmos de alcance variado, mudando  nosso impacto diariamente e o que funciona já deixa de funcionar. Precisamos conversar na mesma medida da necessidade de espaço particular. Pense bem nas consequências de esperar porque pouca coisa realmente se espera. Assim, é possível nos despertarem para o que nos tornamos. Mas, a intervenção é um caso extremo, praticamente figurativo simplesmente explicado pela frase: “deixamos acontecer”. É este o motivo de não haver casos isolados, é apenas uma questão de divulgação, mas se aconteceu a intervenção é solução imediata. Soluções definitivas ou de longo prazo não surgem de repente. Comece a ser valente, consigo mesmo e depois me conta.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

de outro jeito agora





por Rafael Belo

Enquanto espero o próximo feriado chegar fico aqui pensando no carnaval e nesta semana desnecessária. Meia semana, né?! Meio semana? Há metade, metade… Cara! Eu só trabalho pra trabalhar porque não sobra nada além de dúvidas e prestações e parcelas e… Eu vou viajar sempre que puder. Eu fico falando falando falando, mas cara… Você já foi em quantos rolês e os boys ficam falando falando falando? Querendo te pegar de qualquer jeito? Mil vezes ouvir uma mina falando merda…

Aí eu vejo o crush e esqueço tudo que prometi pra mim mesma. Mas, tenho força suficiente para alertar minhas amigas no grupo do whats “me salva do crush”. Piada interna que vão ter que presumir… Então, de repente todo mundo vira água. Um mar salgado particular feito de pessoas. Não é possível que dei todo este poder para este crush! Só falta o mar se abrir e … Nossa! Não! Ele também é uma gota neste oceano… isso não lacra de jeito nenhum… Está errado.

Nenhuma pessoa é uma gota d’água apesar de poder ser a gota d'água. É preciso muito mais tempo para sermos líquidos mesmo. Talvez mais alguns fins do mundo e quem sabe já possamos pensar na possível existência desta ideia. Até lá somos sal. Uma partícula salgada em tamanha quantidade que salgando a água e tal vira mar. Mas aí contabilizamos, ao contar nossas façanhas, apenas como nosso árduo suor tirado a chibata para podermos chegar até aqui. Olho como somos exemplo! Olha como somos maravilhosos!

Sério?! Mesmo?!  Vai fazer um favor e me poupe! Não conseguimos nem entender que líquido é todo o resto. Nós conseguimos liquidar o amor… Opa! Não! Desculpe-me! Consigamos fazer o amor ficar líquido. A gente não consegue conter nada. Precisamos nos reinventar, mas nem conseguimos nos desinventar. Nem o princípio básico da desconstrução… Minha mente está fazendo a maior confusão é meu sistema imunológico criando esta ilusão de imortalidade e capacidade de mudar tudo quando eu quiser. Quer saber? Eu vou falar umas coisas para este crush aqui! Você! Você mesmo seu lindo! Homão da p….! Mudei de ideia. Vamos começar de novo, de outro jeito, sem crush desta vez e, ah, toda a humanidade é os dois últimos espécimes raros de Arara Azul tentando evitar contato.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

minhas amarras





do sol absoluto para a tempestade interminável
assim o dia é avesso noite o claro é seu oposto
o raio contrário vira raio cai e caio no fundo do céu
levanto encharcado feito papel amassado em anotações perdidas

cai tanta água ruas rugem rios recém rompidos dos ventres das nuvens
curvem esta reta comigo unanimemente burra urra vento mistura chuva
turva a visão nesta conexão ruidosa do carnaval de fevereiro não há corpos inteiros

marinheiros das probabilidades o medo das tempestades é uma antiga gota d’água

quando mais um fim do mundo termina outro se inicia para nos provocar

saio do ar dessintonizo entre o pensar e o não pensar não me permito mais me irritar
na próxima chuva vou soltar minhas amarras voar com as azuis araras.


+ Rafael Belo, 22h26, quarta-feira, 22 de fevereiro de 2018+

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Está tudo bem






por Rafael Belo

Estou aqui entre o pensar e o não pensar onde chamo do descanso das imagens. Eu saio do ar sem deixar de prestar atenção em tudo. É um estado de consciência absurdo e até os mínimos detalhes convertidos em imagens na minha mente se ausentam. Há uma multidão naquelas águas térmicas comigo. Só prestam atenção na minha existência quando subitamente trombam em mim ou alguém daquela realidade dá um spollier. Às vezes, mesmo assim não se desculpam.

Aquelas águas borbulhantes naturalmente hidromassagem comportam tanta gente e ainda assim não testemunho ninguém interagir fora do seu grupo nem no automático. Famílias, casais, pares, amigos basicamente com os celulares supostamente isolados da água pendurados no pescoço como placas de identificação, o utilizam para registram o momento e com medo de perder o aparelho se limitam a isso. As poucas vezes que interagiram comigo foi para tentar confirmar alguma afirmação sem minha cooperação para tanto. Já eu interagi bastante...

Enfim, a gente relaxa e se diverte conforme nos propomos. Mas, é estranho estar rodeado de desconhecidos barulhentos e mesmo assim em silêncio. Ali, naquela água borbulhando e massageando naturalmente, o mundo parecia um paradoxo habitado e desabitado ao mesmo tempo. É uma experiência de conforto e desconforto não coexistindo, mas colidindo vez ou outra. Você está lá sem compromisso, sem dever nada a ninguém, sem responsabilidades naquele período, sem a necessidade de se preocupar com nada e nem ninguém e aí você trai toda esta liberdade querendo de repente exatamente o oposto.

Mesmo no conflito de qualidade e quantidade, aparentemente, os seres humanos só evoluem quando interagem fisicamente, pessoalmente e se permitem trocar ideias e conhecimento. Ah, também é desta forma que se vive mais e melhor. Então, Não importa o quanto alguém possa ser irritante é possível tirar uma qualidade dali mesmo isso tendo de vir da tua postura e de como nos abrimos para receber a forma do outro. Afinal, também podemos ser muito irritantes... Não é que a grama do vizinho seja mais verde neste nosso planeta abundante, mas tão cinzento e concreto, é que vários mundos acabam cada vez que rejeitamos ou aceitamos algo. Neste fim do mundo constante devemos a nós mesmo experimentar porque em algum momento mudamos de opinião querendo o avesso do que a gente tem, do que estamos vivendo e está tudo bem com isso.

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

No ritmo da liberdade





por Rafael Belo
A noite não havia acabado como eu tinha pensado e sentido. Ao não pensar em mim ele não me atingiu totalmente e não era aquele abuso, aquela total violência capazes de me afastar e me tornar agressiva também. Não. Mais pessoas estavam na pista. Todas elas vieram até mim e pediram permissão para me tocar. Aquela energização me renovou.

Eu de imediato senti o poder que deveria sempre sentir. Abracei-o imediatamente. O olhei nos olhos e o permiti me tocar. Eu o conduzia ele me conduzia a música boa conduzia o som dentro da mente nos conduzia… Aquela magia contagia e todos estavam contagiados. Não era preciso abrir os olhos daquela dança. Era possível respirar o que estava acontecendo, era possível sentir e enxergar o movimento de todos sincronizados e ao mesmo tempo em uma dissincronia enorme, avassaladora, esmagadora de tão intensa e mesmo assim os passos estavam no ritmo da liberdade…

Estávamos dançando. Flutuando na pista. Tecíamos um rastro de estrelas. Fazíamos um novo universo no verso de cada poesia declamada em movimentos. Estrelas que somos, até parecíamos cadentes, mas subíamos e descíamos em um constância viva latente. Quem via prendia a respiração, adentrava em um espetáculo envolvente viajando em um universo expandindo e retraindo como um coração lidando bem com todo sentimento.

Este sentir intenso percorria aquele momento interminável e de repente há uma pausa, um abraço de corpo inteiro e a vida arrepia. Toda a pele eriçada depois da alma pulsar além da existência. Não há aparência. Toda a essência dança em estado de graça. Nada mais passa em vão. Estão todos em catarse. Foi dada a permissão para o toque ser gentil e cada par servil a própria canção.

quinta-feira, fevereiro 08, 2018

catarse corporal






no começo da madrugada
começa a dança cálida da construção da chuva
uma gota sugere um passo e vem do alto cair
delicada outra a poupa de sozinha ir

logo ligam loucas um complexo tô nem aí
são sincero som a surgir em movimento
no meio tenso vão do intenso a suave salvação

vão respirar de um leve chuvisco ao constante tamborilar
a permissão eterna de ser a forma certa de tocar

basta acontecer para a chuva surgir doce suor sem cair sem levantar apenas saindo do lugar do tecer do pôr-do-sol natural a catarse corporal.

+Rafael Belo, às 02h14, quinta-feira, 08 de fevereiro de 2018+

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Ao não pensar em mim



por Rafael Belo
Sozinha eu dançava e sentia meu próprio toque na pista. Tinha meu ritmo, o ritmo do som e era outra dança. O ar não tinha resistência, me dava assistência e dançávamos juntos também. Minha essência estava solta. Eu não estava louca apenas quem não se soltava ao movimento pedido pelo corpo é que devia estar enlouquecendo. Meus pensamentos só iam e vinham sem ficar com seus próprios passos elétricos. Até tudo ficar pesado. Meus movimentos foram acabados por um toque sem permissão.

Barras me cercaram. Uma gaiola se fechou. Ganhei uma prisão. A violência não era física. Não era psicológica. Era conduzida sem respeito. Eu não podia propor nada, aliás, propunha e era rejeitada. Como podia não ser ouvida?! Estava em um estado de espírito elevado e fui parada, interrompida. Antes eu chorava de alegria, estava em libertação. Agora choro de luto, frustração. Luto pela morte do diálogo que estava sendo minha dança até ser violentada por quem queira impor uma condução unilateral, egoísta.

A pista era minha mas eu queria sim dividir. Compartilhar o sentimento pleno. E aquele que me tocou abruptamente sem permissão, me tirou de mim, de supetão. Eu fiquei perdida e dizia não. Do outro só vinha força, intensidade distorcida… Era sem acordo só imposições seguidas… Aquilo levava minha respiração. Eu sentia angústia e não era minha. Eu sufocava e sabia que outra pessoa vinha em minha direção. Só vi quando chegou. Sentia que era paz e resgate.

“Tudo foi em um instante. Não poderia ter pedido, interagido antes? Há muitas formas de pedir permissão”, eu disse enfurecida. Me sentia violada, mais uma vez invadida. Enquanto eles conversavam eu ainda dizia. Será sempre seco assim? Dançar é uma troca e é aqui que eu me liberto. Sinto tudo melhor, sou a eletricidade se movimentando, o sorriso brotando… Tudo quando danço. Respeita-me! Respeite minha dança. Agora deixa eu me recuperar de você. Do que você fez ao não pensar no outro, ao não pensar em mim!

terça-feira, fevereiro 06, 2018

carne vazia




aquele toque sem jeito
tinha defeito de fabricação
vinha com outra energia
dessintonia outra intenção
agressivo insalubre prepotente
totalmente divergente
da liberdade de expressão
este teu toque tarado
veio aglutinado em sujeito safado
voltado para própria satisfação
tira este olhar do peito do corpo
olha meus olhos meu rosto
aqui habita minha alma onde nasce minha calma
comece pela palma com permissão
porque carne vazia sem respeito é agonia medo prisão.

+às 23h49, Rafael Belo, segunda-feira, 05 de fevereiro de 2018+

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

E isso é respeito




por Rafael Belo

Eu não tinha parado realmente para pensar e sentir sobre a ausência do toque e desvio dos olhares. As consequências estão por toda parte e em cada um de nós. O sofrimento causado fica a flor da pele, rola em lágrimas aperta o peito e cria muitas turbulências no coração. A sociedade nos tornou distantes com o paternalismo e o machismo diário matando, espancando e tentando inferiorizar as pessoas. Nossa liberdade perdida exige uma batalha insana para conquistar a confiança do próximo.

No período em que eu morei em São Paulo, trabalhei em uma Ong e sempre fui de olho no olho e toque. Fiquei extremamente surpreso quando a diretoria me chamou no particular para falar que naquela cidade as pessoas se sentiam incomodadas com o olhar e o tocar. Ri de nervoso. Olhei para todos os lados pensando o quanto aquilo parecia surreal. Como assim?! Acabei dizendo: Ninguém falou nada. Fiz algo inconveniente? Alguém reclamou? Revi mentalmente todas as minhas conversas e tive certeza que nenhuma destas interações resultou em incômodo. Nada no olhar, na expressão, na postura de quem eu conversava indicava qualquer incomodo. Mas, a pessoa que me “alertou”... Esta sim se sentia incomodada.

Infelizmente, o cunho sexual do abraço e do cumprimento com beijo no rosto, incomoda. A intenção sempre fica no ar. A desconfiança se espalha e o medo é quase paranoico. Não é de graça. Pelo contrário, é mais que justificável. Principalmente se tratando das mulheres e de todas as pessoas que se identificam se relacionando de forma íntima com o mesmo gênero ou não se identificam com o próprio corpo ou ainda se transformaram na pessoa que se identificam.

Esta questão de identidade é fundamental para se permitir, se libertar, se sentir e sentir o outro. Aquela energia feita de desgaste, renovação, alma, pele e coração têm momentos e vivências tão específicos moldando o que agora é, que é preciso pedir permissão para se aproximar e isso é respeito. Neste fim de semana, a desobjetificação do outro foi mais intensa, clara e completa para mim durante a Oficina do Sentir. Acredite é transcendental você participar, ouvir e coexistir com a existência do outro ao invés de impor, invadir e conduzir. Que tal aprendermos a realmente sentir?

sexta-feira, fevereiro 02, 2018

Quanto tempo eu estive ausente? (Miniconto)






por Rafael Belo

Realmente não é só coisa de cinema. Quando a gente está presa ou enlouquece ou fortalece. Estava furiosa e agredi os policiais. Achei que não ia saber como vim parar aqui… Olhe bem: atrás das grades. Não foi o desacato nem a quantidade de macacos que arranquei a cabeça, mas pelo furor social iniciado nas redes sociais. Eu realmente virei um monstro e viralizei. Naquelas imagens não parecia sim fiquei chocada e até gritei barbaridades antes de perceber ser eu. Gritando como no filme ou na série 12 Macacos? Twelve Monkeys…

Caraca. Ainda bem que tenho nível superior me disseram. Isso deve explicar eu estar só, não esmagada… Não em superlotação… Espera. O número 12 representa renúncia pessoal, ação… É harmonia e tantas coisas bíblicas e astrológica e da numerologia… Que conflito é esse? Não vou me justificar. Cometi um crime ambiental e estou presa… Estão gritando repetidamente “as-sas-si-na”? Sim. Eu vou morrer? Meus Deus! Estou segura aqui dentro? É por isso que me prenderam…

Não consigo lembrar a quantidade de febre amarela que impedi de proliferar. Só consigo pensar no número 12 e nada mais. Ei! Fiquei sabendo só agora da insanidade que cometi… Por que eu não acreditei ser o mosquito o culpado? Alguém me diz alguma coisa, por favor? Aqui não parece uma prisão… Está tão frio... Que dor de cabeça... Preciso de um cobertor… Onde é aqui? Olá? Estou isolada. Gente! Meus cabelos estão encharcados e eu estou com um cheiro desagradável. Meu corpo dói. Estou tremendo… Como estes macacos vieram parar aqui?! Espera um pouco…


Eu tentei falar com um macaco já? Só estou eu neste lugar.. Ninguém me responde... Preciso me hidratar. Isso não é uma prisão… É uma sala de emergência médica para quarentena. Meu Deus! Como pude matar animais que confiavam em mim?! Eu os estava estudando… Por quanto tempo eu delirei? Afetou minha mente... Foi um delírio ou eu fiz tudo isso mesmo? Isto já estava aqui? Minha mente está pregando peças em mim... Tem uma pasta aqui com escrito “pe” zero… Onde estão os mosquitos?! Eu sou responsável por isso. Criar a doença. Criar a demanda. Criar a vacina… Isto aqui é a sala de contenção do meu laboratório. Não estou presa. Eu criei uma variação mais mortal da febre amarela e testei em mim mesma… Eu sou um monstro. Sou a versão feminina do Médico e o Monstro. A versão capitalista quem sabe. Sou Miss Hyde e Doutora Jekyll. Preciso de um nome melhor e invocar minha parte que está arrependida. Ela existe? Preciso encont?rar alguém ou pelo menos respostas...Quanto tempo eu estive ausente… Será que alguém está vivo lá fora?

quinta-feira, fevereiro 01, 2018

dramacídio





amanhã chega na manhã como um sono não terminado
limbo modificado coçando os olhos amanhecidos
não estou mais adormecido até um eu antigo despertou
os bocejos repetitivos querem espantar o tédio o dramacídio do que não passou

olhando o quanto somos repetitivos e aprisionados ao medo de ser perdedor
pensando na sabedoria popular na febre que voltou
os ditados vão costurados na boca como um lábio opressor

o outro lado se arremessou e finalmente soltou
a morte está viva na gente e ao perceber ela já passou

a gente não manipula o tempo não muda os eventos
é o acontecimento capaz de fazer pensar o pensador.

+Rafael Belo, às 09h30, quinta-feira, Primeiro de fevereiro de 2018+

quarta-feira, janeiro 31, 2018

Qual o seu nome (miniconto)






por Rafael Belo

Não sei quantos macacos eu matei. Eu fiquei descontrolada quando toda minha família caiu. Era febre amarela. Morreram todos.  Nós vivíamos escondidos nos parques e um medo revestido de desespero e loucura tomou a frente da minha mente. Eu parecia uma passageira do meu corpo, uma hospedeira de um lar de raiva, mas não me dava conta disso. Eu… Eu… Eu estava gostando daquela violência, daquele poder afrodisíaco, era sexual sim e mexia com cada parte do meu corpo. Então, como eu poderia parar?!

É assim o sentimento dos assassinos? Mesmo quando fiquei horrorizada com aquelas cabeças que eu tinha cortado… Fiquei mais surpresa com a força para arrancá-las. Eu era tão forte assim? O que eu sou afinal? Eu despertei um pouco daquele torpor homicida quando encarei os olhos mortos daquelas cabeças nas minhas mãos. Foi assustador, mas só por um momento. Não havia vida ali. Não tinha volta. Eu precisava terminar com o que eu tinha começado. Mas comecei a em questionar se aquilo tinha algo a ver com consciência…

Há algo a ver? Com ética? Com moral? Há defesa para isso ou só um ponto de vista divergente? A gente pensa na hora da violência… Mas, não fica raciocinando sobre o momento, só quer acabar como aquilo tudo sem culpa. É possível viver sem culpa. Isso é ser psicopata? Nós temos o direito de tirar uma vida se for para poupar a nossa? É preciso esperar ter certeza para agir ou agir sem esperar com no mínimo 50% de chance de estar comentando o maior erro da vida? Às vezes eu queria simplesmente a impunidade dividida igualmente...

Tenho que analisar se vou ser presa ou morta? Será que os bandidos temem isso? Espera! Não sou bandida, sou?! Eu sou uma justiceira! Sou uma defensora! Sou uma heroína! Quem não percebe isso só pode errado, certo!? Quer dizer… É claro que eu estou certa! Não é a vontade de todos?! Eliminar o que faz mal?! Sou só representante daquilo que ninguém quer admitir. Talvez eu esteja louca mesma, mas aí eu não diria isso, né?! Loucos são os outros!!! Loucos são vocês! Com certeza é bem normal conversar com as vítimas antes de decapitá-las. Pelo menos não estou conversando com as cabeças que arranco. Não é? Ei! Macaquinha, qual o seu nome?  Fala comigo!! AGORA!!!

terça-feira, janeiro 30, 2018

mais nova






na estrada a calçada não existe
as lágrimas são alpiste para alimentar os pensamentos
bagunçados pela massa misturada
assada pelo extremo calor descontrolado lá fora

manobra elaborada que ninguém quer entender
passam vidas como as horas
o vento de tão quente chora

pelo povo ser mera anedota de mais um dia na tevê
onde a violência brota feito chacota e terapia gourmet

febre célebre intérprete da mais nova onda manipulada real histeria divulgada a nos cometer.


+às 20h25, Rafael Belo, segunda-feira, 29 de janeiro de 2018+

segunda-feira, janeiro 29, 2018

massa de manobra






por Rafael Belo
As notícias podem nem ser tão novas assim e certamente não são boas. A abordagem é a mesma e a forma de desenvolver o conteúdo também. O medo se espalha e nos torna pessoas irracionais, delirantes e capazes de qualquer coisa. Os bons selvagens sempre retornam. Aprendemos a nos dar tanta importância que qualquer comportamento diferente do nosso não só nos desagrada, mas nos torna violentos e queremos eliminar o acontecido, a pessoa… Imagina?! Ainda nos dizemos seres racionais.

Não sabemos a real gravidade da febre amarela transmitida apenas pelo mosquito e não pelos macacos sendo dizimados. Este ano eleitoral vem com novas teorias da conspiração e é certo que quanto mais informações consideradas pelos poderes negativas forem dissimuladas, melhor. Esta é uma teoria da conspiração? Enfim, a violência se espalha gratuitamente e o medo é quem comanda. A desculpa perfeita para não ajudar o próximo porque ele pode estar mal intencionado.

Qual o resultado disso tudo? Ficamos extremamente feridos, ressentidos, encolhidos em nós mesmos, carentes e desaprendemos a Amar. Vivemos pra esquecer. Sobrevivemos mecanicamente insatisfeitos e ingratos. Vamos feito montanha russa em uma alteração de humor de minuto a minuto, diária… Só reconhecemos aquilo que queremos e desconhecemos o restante. Nós sabemos bem ser vítimas e negar… A febre amarela pode matar tanto mas não mais que nossa ignorância, nossa falta de afeto, de ter a capacidade de aceitar o outro e não falar da boca para fora o entender.


Somos violentos de tantas formas diferentes e sempre achamos uma desculpa para ser. Somos sensíveis e também delirantes. Imaginamos coisas mirabolantes quando tudo pode ser tão simples como o silêncio ou o início de uma conversa. Não sabemos o efeito que causamos, mas somos donos de apontar o efeito que os outros causam em nós. Aí volto a pensar na loucura instalada em São Paulo, nas consequências dos acontecimentos e o quanto é fácil fazer o foco das coisas mudarem para moldar a massa de manobra que somos. O pior disso tudo é quando achamos estarmos pensando e agindo livremente nos tornando ainda mais perigosos.

sexta-feira, janeiro 26, 2018

Só fico pensando (miniconto)






por Rafael Belo

Não sei quantos dias durou a última batalha, mas se estou aqui é porque venci. Não há isso de não haver vencedores em guerras... Já faz algum tempo que vejo os corpos dos meus sentimentos espalhados e vê-los solitários e isolados me deixam em dúvida: foi legítima defesa mesmo, apenas auto-preservação ou prevenção? Mas, além deles não poderem mais aparecer – mesmo em outras formas – a Solidão já não vive mais comigo. Eu entendi o alerta e ingrata que sou a expulsei de casa. Sei quem acordo agora.

Sou todas. Não há separação nem motivo para isso. Já nem me dou o trabalho de responder algumas coisas e outras nem tenho vontade. Quando estou nos rolês... Sim, eu voltei! Tenho mais vida quando vivo e se sinto alguém querendo sugá-la de mim eu rio. Gargalho e a sensação passa. Ainda tenho muita raiva aqui e estou trabalhando minha impaciência, mas não quero ser boazinha nem desinteressada. Dá trabalho, sabe?! Não quero outra temporada com a solidão e não vou pedir perdão por quem eu sou...

Só de ver a interação acontecer, eu interajo. Mas... Conversar de verdade com alguém é quase emocionante. Porém, não ouse pensar que deixei de ser uma serial killer profissional de sentimentos. Isso não aconteceu. Eu só fiquei melhor. E apenas não ligo. Não há frieza e silêncios matadores mais.  Ao contrário de há um tempo, eu me sinto eterna. Talvez eu seja mesmo imortal, mas não estou a fim de testar não. Há sim um sentimento de invencibilidade, apesar da imbecilidade do mundo e de muita gente nele...


Estou contente e me vejo brilhar. Acima de tudo tenho um brilho no olhar. Não perco mais tempo surtando, explodindo com alguém... Simplesmente me desligo e, quando não, deixo tal alguém falando sozinho. O que mais mudou... Eu presto atenção em todo mundo e consigo ver e sentir se a Solidão foi morar por ali levando junto o isolamento. Quando meu sensor dispara eu fico encarando discretamente para garantir ser isso mesmo. Aí me aproximo e, normalmente, a gente se conhece... Mesmo se somente das redes sociais. Já pensou?! Depois eu só fico pensando: “que tiro foi esse?”

quinta-feira, janeiro 25, 2018

O quanto eu quiser




a solidão me deixou levou o isolamento
entre os tempos sinto falta mesmo em alta
ainda me vejo enfermo mas basta lavar o rosto olhar o espelho
e alcanço minhas multidões e dos outros em rota

notas cantam meu silêncio
sorrio todo sou rio um pouco em cada parte
de repente já não me calo

saio a procura de envolvimento sem sequer saber sobre solidão e isolamento
descosturo toda apatia sou noite e dia

tudo é prolongado pela sensação na sinestesia das lembranças e nestes odores tátil degustativo auditivo visual o infinito dura o quanto eu quiser.

+Rafael Belo, às 10h36, quinta-feira, 26 de janeiro de 2018+

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Agora desconfio (miniconto)



por Rafael Belo

Há tantas outras dentro de mim que é normal eu me perder. Acordar sem saber quem acordou… Não me reconhecer quando o espelho me acusa me remedando e os reflexos me mostra por aí destacada no meio de tanta mistura. Eu nunca tive censura e nem minhas outras em mim. Filtro pra mim é o silêncio. Da mesma forma que me aproximo, me afasto e aí se quiser procurar por mim: faça, procure. Não vou tratar ninguém mal nesta vida, desgasta. E até aquilo que não passa não permanece no mesmo lugar. Mas, não venha com a gente se acostuma, eu não vou me acostumar com o que não quero.

Eu fico aqui olhando as outras pessoas e meu potencial, meu eu total parecem definhar. Sinto-me atrofiada… Olho para o mundo em que estou e só consigo pensar em agir. Mas, acabo só me mudando.  Até quando faço algo bom, me recriminando e eu tenho que revisar. Isso me atordoa por um tempo depois, sim, passa. A cada dia eu perco um dia de vida. Ando com a insônia, mas é o isolamento meu assassino particular. Eu nem contratei nem nada. Ele.faz questão de me matar, mas quando a solidão bate e me bate… Bem, eu fico inconsciente,inconsistente e indiferente...

A indiferença só mata  os outros. Aí a assassina sou eu. Atualmente, me considero uma serial killer profissional. Mas, veja bem, eu nem escolho o alvo. Acontece. Depois algo morre, mas não pense que algo não morre em mim também. Porém, não passam três dias e até isso ressuscita. Muita coisa em mim grita e quando vejo estou explodindo de impaciência com alguém. Sou orgulhosa demais para errar, então não se engane, eu não erro. Se você está morto, mereceu.

Eu isolei por não conseguir ser plena, ser todas, ser uma… Eu vivo com a Solidão e nunca sei interpretar direito os silêncios e a frieza dela. Isolei cada parte de mim e depois, enfim, me isolei. Não há delicadeza em mim. Fico contando quantos dias faltam para eu fisicamente morrer porque desconfio do falecimento precoce do meu coração e do abandono da minha alma em algum momento recente. Li em algum lugar que a solidão mata, depois assisti uma reportagem sobre o assunto… Agora desconfio realmente… Ela resolveu morar comigo para me alertar. Ei! Vem cá! Mudei de ideia. Você quer ficar sozinho?
… Continua...

terça-feira, janeiro 23, 2018

e é só





a solidão e o isolamento de mãos dadas
se vêem por um momento confinados na desolação
olham para as pessoas deslocadas jogadas por aí
há uma imensidão infinita da sacada onde estão

Ilusão social de temporária conexão
com sensação de abandono sozinha nas veias
correndo pálida sem qualquer cálida circulação

acumulando substituição por todas partes plásticas tudo chateia
nada mais é durável na nossa liquidez

quando o looping do momento acaba toda sensação começa outra vez e é só.

+Às 09h18, Rafael Belo, terça-feira, 23 de Janeiro de 2018+

segunda-feira, janeiro 22, 2018

A epidemia oculta






por Rafael Belo
Você já ouviram falar da Ministra da solidão? Não, Não é mais uma readequação da base, uma acomodação para os aliados ou uma campanha governamental para angariar votos para aprovação de alguma medida impopular. Nem sequer é no Brasil. Bem que podia ser outra piada pronta para rirmos ao invés de chorar. É bem real. O Reino Unido acaba de criar este cargo político. Lá reina o cinza e um comportamento completamente diferente daqui, mas quantas solidões também colecionamos?

Tudo indica que as conexões atuais não vêm com atualizações de abraços, presença e atenção real, mas com uma memória assombrosa ocupada por uma carência extrema. Esse Black Mirror da vida real reforça o que a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, apontou como “a triste realidade da vida moderna”. Esta tristeza afeta por lá mais de nove milhões de pessoas. A imaginação corre diante das possibilidades da nomeada na pasta, Tracey Crouch, têm. Como resolver a solidão? A presença de outra pessoa não é o bastante nem de uma multidão.

Esta situação está marcada como “epidemia oculta” e vai gerar uma estatística britânica de isolamento social. Dá pra imaginar muitas formas destas medidas abrirem precedentes pelo mundo. Há alguém que não se sentiu solitário e isolado? Se formos verificar os adolescentes e jovens abrangemos uma faixa-etária de 12 a 30 anos… Como estamos entre os países em estado de envelhecimento a situação piora se contarmos os detalhes e responsabilidades de adultos e idosos…

A epidemia do isolamento e da solidão está publicada a todo instante nas redes sociais pelo mundo adentro como um alerta, mas vem com a explicação de ser “indireta”, “brincadeira” ou “nem tudo que eu publico é o que penso e sinto”. Oi?! Enfim, estamos conectados o tempo todo e até isso deturpamos. A conexão acaba sendo sinônimo de isolamento e basta levantar a cabeça para vermos o quanto as pessoas não estão lá. Quando a chamamos de volta, toda vez, fica algo perdido neste retorno. Parece uma experiência fora do corpo mal sucedida aonde aos poucos vamos nos perdendo no caminho. Já pensou o que é e quem seria a Ministra da Solidão brasileira?

sexta-feira, janeiro 19, 2018

Sombras por toda parte II - Eu sou presente (miniconto)





por Rafael Belo
O desespero não vai tomar conta nunca mais! Quero alívios na minha vida e vou conquistar um a um. Não sou mulher de silêncios, constrangimento e cabeça baixa… Não mais! Não vou ser escrava dos meus medos. Ajo do meu jeito e haja tempo para me permitir ser eu mesma. Se não houver permissão serei eu mesmo assim. Chega de tensões me dando dores de cabeça, lapsos de memória, dores nas costas e tremedeiras.

Sou a mais nova versão turbo plus 18K de mim. Eu sinto a verdade, a vejo, a cheiro, a toco, o gosto dela surge na boca e nem sempre é diferente do gosto de chumbo ou morte… mas veneno e o fim são reversíveis pela dosagem, pelo tom. Sou meu recomeço. Só desconheço como vou parar com o orgulho, com esta queimadura na língua… Esta manipulação, esta imposição dos meus quereres… Quando vamos aprender a não julgar e a não nos sentir superiores quando achamos o outro estar errado?

É da minha natureza muita coisa, mas se isso não for bom eu preciso saber. Se eu posso mudar para melhor, mudarei. É muito carma acumulado naquele vazio misturado pairando sobre mim feito nuvens carregadas… Isso já foi! Meus olhos doem e eu estou chorando agora sem controle. Não é desespero nem descontrole. Minhas vistas estão cansadas… Além disso, meu corpo tomba precisando descansar…

É importante dormir bem, comer bem, viver bem… Não preciso de mais pressão… Só não entendo como me fiz tão mal, espera! Nada de me deixar culpar. Por que os cachorros estão latindo tanto hoje… Cães ladram, né?! Há ladrões por aqui…?! Paranoia. Caraca. Cara! Este monte de silêncios enfeitando meu pescoço como um colar, estes adornos chiques de outrora… Pronto! Rompi! Eles que se espalhem… Há luz por todas parte. Até quando se apagam… Estaria eu amaldiçoada bem agora?! Estou muito no futuro para viver no passado! Meus olhos brilham… ?!?! O quê!?!? Tudo se apagou menos eu… Então, porquê não há mais escuridão ou pesadelos? Estou no ataque sem defensiva, sem desculpas e sem esconderijos. Reparo na maioria das coisas e das pessoas e faço reparos no que precisa de reparos. Não falta sons em mim. Nada mais aqui é ausente.

quinta-feira, janeiro 18, 2018

até quem não vem



Eu moro em mim e aonde quer que eu vá
sou um Estado um lugar cheio de silêncios repletos de nadas com um pouco de tudo e um outro tipo de som
estou em muitos quereres e covarde sou comigo às vezes

pouso distante de mim para observar azul
onde poderia estar no meu tempo preenchido de movimentos
não há incompletude por aqui só desconstruções
entrega lúcida às sensações em um fechar de olhos

sigo direto sem me importar com as paradas
descubro outros eus em próprias jornadas

não há desculpas nem esconderijos sou o que digo e faço não tenho embaraços só sigo meu ritmo e passo levando até quem não vem.

+Rafael Belo, às 11h53, quarta-feira, 17 de janeiro de 2018+

quarta-feira, janeiro 17, 2018

Sombras por toda parte (miniconto)





por Rafael Belo
Estou cercada de sombras. Elas parecem vivas. Sinto um mal me espreitando. Que angústia. Dói até respirar... Pareço possuída e ainda com uma legião pulando no meu peito... Estou sozinha no meu quarto. Era um pesadelo e mesmo assim vejo movimento nas sombras. Esta voz na minha cabeça fica repetindo para eu não tirar os pés da cama. Qual o sentido disso? Este medo? Esta solidão? Não poderia ser mais direto Sr. Universo? Eu preciso tanto dormir e agora minha preocupação é que algo aconteça se meus pés não couberem na cama.

É tanto tempo acumulado sem calendário, sem horas para marcar... Estou perdida. Sei... Estava me escondendo... Estou me escondendo. Minha memória falha. Não consigo confiar em ninguém. Há uma sensação estranha. Já não sei mais diferenciar realidade de delírio. Não consigo confiar em ninguém. Serei solipsista? Não. Eu nego. Não existe além de mim só experiências. Ainda existem seres humanos, certo? Este não é mais um fim do mundo prestes a acabar de novo, ou é?

Nem sei mais se tenho dormido. Só tenho tido pesadelos e delírios. Será reflexo de me esconder, de tentar me manter acordada, de não me permitir quaisquer relacionamentos porque sinto que tudo é invasivo, manipulador e violento? Este silêncio me mata aos poucos. Estou confundindo tudo, por isso falta ar. É como se eu fosse uma super-heroína largada no espaço sideral e de repente perdesse os poderes e todo tipo de racionalidade...

Eu preciso da verdade. Esta vontade de impor o meu querer como se fosse único precisa mudar. Este não era meu mundo e agora... Agora eu sinto uma tristeza profunda querendo entrar. Minha cama é fria. Minha casa está congelando e lá fora está 40 graus na sombra... Sombra... Sombras por toda parte. Estou enlouquecendo. Preciso acordar ou preciso dormir? É possível pegar insolação sem sol ou agora sou uma assombração? Que o desespero não venha tomar conta de mim! QUE O DESESPERO NÃO TOME CONTA! ... Continua...

terça-feira, janeiro 16, 2018

Indigestos





o silêncio não foi suficiente na ausência de palavras
todo o imensurável deixou de ser imenso apequenou
séries sistemáticas sorrisos tensos comportamentos de liquidificador

faltou som e esta quantidade de ausências não preencheu o vazio
nem um arrepio causou só viralizou a coleira da solidão
institucionalizou o medo e a acomodação
trouxe de volta o fantasma de nós mesmos que nunca nos abandonou

o desespero parou pensou por momentos nos reparou
e cada reparo necessitava de atenção pelo mal feito

às pressas apenas o nosso querer sonhou diretas estava nocauteado pelos esconderijos dos disfarces das desculpas indiretas.


+às 11h20, Rafael Belo, terça-feira, 16 de janeiro de 2018+

segunda-feira, janeiro 15, 2018

A ausência de som





por Rafael Belo

Vocês já repararam? Ou melhor, já se reconheceram fazendo? Temos a cotidiana prática hipócrita de dizer estarmos bem sozinhos, mas estamos sempre pensando em alguém, avaliando as possibilidades e com o estúpido medo de nós machucarmos… Olhamos ao nosso redor, para nós mesmos e temos aquela leve crise existencial: o que eu estou fazendo?! Sabemos a resposta independente da quantidade de desculpas.

Se parássemos de comparar, analisar, encher um saco infinito de expectativas, imaginarmos coisas ao invés de conversar e ir direto ao assunto sem nos preocuparmos com tantos porquês estaríamos bem melhor, mas não! Não somos masoquistas, sadomasoquistas ou qualquer coisa assim - a não ser egoístas - mas vamos levando como está (ou não está)... Eu confesso o quanto é sensacional encontrar alguém surpreendente para mim e mesmo assim as coisas não serem sim ou não.

Nada é apenas o nosso querer. Há muitos fatores, muitas histórias, diversos caminhos… seria muito mais agradável ouvir um não sincero, um sim espontâneo a se deixar sofrer com os silêncios. Estamos perdidos lutando contra o vazio cultivado e bem nutrido por nós. Somos todos estranhos com este animal de estimação tão coletivo e solitário passeando com a gente sem saber quem está na coleira… Disfarçar e focar em outras demandas, outras necessidades, outras vontades não faz desaparecer nenhuma das anteriores.


Sério. O que estamos fazendo de nós?! Precisamos nos libertar. Eu confesso viver nesta tentativa diária começando por esvaziar minha mente ao conversar com alguém. Só escuto e estou presente. Dialogar é uma arte explicada pelo próprio nome dado: é preciso de mais uma pessoa e é fatal confundir o espaço que damos, o espaço que precisamos e o espaço sideral… A vida são séries sequenciais de tentativas e dar atenção demasiada para dúvidas e para os vácuos da vida é realmente chegar ao espaço onde é congelante e há um silêncio totalmente desesperador: a ausência de som.