sexta-feira, agosto 18, 2017

Olha só o Amor! (miniconto)






por Rafael Belo

Aguente firme! Aguente firme! Você não está sozinha!” Há controvérsias. Agora estou. Buscando não estar mais, mas estou! Estou aqui na fronteira. Falaram tantos absurdos pra mim e... Não! Não vou fazer comparação de gênero! Sou mulher e sou mais eu sim. O Amor me transformou por completo. Você não vão acreditar, mas é verdade. Só de falar meus olhos lacrimejam de tanta emoção provocada por este Estado de Graça. Eu me Amo tanto e estendi este Amor para ele, meu ser amado. Não direi o nome. Todos sabem quem é, mas sou eu o conheço...

Estávamos bem sozinhos, melhoramos juntos. Mas, a vida nos dá escolhas e oportunidades. Ele pode abrir o negócio dos sonhos dele, da vida dele, todo o sonhado desde garoto e, claro, eu disse vá e ele iria. Nós tínhamos o Amor conosco o alimentando fartamente todos os dias. Ele foi. Eu fiquei. Mas, a tecnologia nos permitia se ver todo dia. Fez um ano ontem. Não estava aberta a me interessar por ninguém. Não estava disposta. Não estava disponível. Sei ser verdade por parte dele também. Eu estava bem no Brasil ultrapassando minha própria fronteira. Só hoje já passei duas. Durante a semana... Nem sei mais.

Ele está logo ali na frente. Meu corpo todo treme, exulta... ALIMENTEI-ME do meu Amor, do nosso Amor... Este tempo todo. Fortaleci. Mentira? Claro que não. Amor assim maíusculo só fortalece a gente. Não dói. Não pesa. Não prende. Não limita. Só cresce. É simples o tamanho incalculável em nós. Sabe? É como uma porta secreta disposta na luz diante de todos sem ninguém ver de verdade. De repente você descobre ter a chavezinha daquela portinha. Precisa só arrumar uma malinha, deixar o passado onde está, despir a roupa e a própria pele ralada no coração mal usado, aliás, bem usado, mal utilizado...

No chão, encaixei bem a chavezinha e me arrastei até o outro lado. Estava...  Nua de tudo. Transcendi de uma forma impossível de narrar... Senti este divino em nos abraçando o humano, se entrelaçando nele e tudo era eu. Eu era tudo. Choro sorrindo só de lembrar ser aquilo o começo desta incondição... Gente, isto é plenitude, completude... Ser ABSOLUTA! Sou tão eu mesma. Tão única. Tão individual... Vesti minha alma pulsante deste meu coração transbordando pelo universo e vim. Aqui estou. Ele está ali. Sinto estar passando as mesmas coisas na mente dele e nunca me senti tão passarinha, tão voadora, tão LIVRE. Olha só aquele sorriso espelhado...  

quinta-feira, agosto 17, 2017

Oração insubordinada do Amor




com meus inteiros à vontade por aí passeio pela pele eriçada inundada de tanto Amor
transbordo das plantas dos pés flores inesmagáveis com toda a nudez necessária naufragada do coração flutuante flameador
não há dor neste desafio declamado diário inapagável chamando chamas contrastadas de iguais
somos tão plurais a somar vogais universais em meios as interjeições suspiradas não havendo nada impossível de realizar

se Amo todo dia a energia propagada aquece a fogueira do olhar
te Amo em sintonia à alforria desvirginada que evanesce cantadeira alma do desjurar
vê Amô a Beleza está em todo lugar balançando bandeiras benquistas do nosso cotidiano conquistar

sopra todo o ar na lareira da boca que a braseira vai se espalhar levando as sobras de roupa queimando apenas aquele mormaço interno onde a gente esquece de capturar as borboletas estomacais nascidas todos os pássaros cantando sob nossa pele

acontece o Amor e eu me mudo para o universo na oração insubordinada do meu avesso verso de se entregar ao não pertencer.


+ às 09h19, Rafael Belo, quinta-feira, 17 de agosto de 2017+

quarta-feira, agosto 16, 2017

Assistam no Youtube (miniconto)




Por Rafael Belo

Ela sabia o porvir bem ali. Arrepiava. Sabia, não faltava nada para acontecer. Ela seria mais ele a Tu, oh Amor! Assim não seria ela. Não seria nada de novo. Uma anulação. Mais uma no meio do povo. Desgastando sentimentos tão profundos e este Estado de Graça, que és Amor. Mas, não. Tu não desgastas. Infelizmente, minhas estatísticas de olhômetro comprovam: 90% do mundo nem próximo de ti passa. Tornando banal cada palavra ligada à afeição. Falada, falada, falada até perder o sentido e os sentidos perder. Por consquistas baratas cheias de filosofias machistas de mosca de bar.

Até ele morrer – morrer pra mim, por favor, gente – eu achava saber algo e não sabia nada como até hoje nada sei. Ei! Pode parar de me interromper?! Por favor? O que? Como é? Pode repetir? Voces só queriam me ver, não é?! A louca por amor... Não façam isso! Merda! Por...! Tive que correr mais uma vez humilhada. Multidão enfurecida... A maioria mulheres com certeza como eu...! Caramba! Que saco, viu! Até quando isso!? Hatters malditos! MALDITOS! Onde está o Amor? Diz-me Renato, por favor? A gente não pode errar, não? Só se vive uma vez repetindo neste looping infernal inapágavel da internet?

Chuva? Estou na chuva e vou me encharcar! É eu sou de frases feitas sim e daí? Falo sozinha na rua sim e daí? Podem filmar?!! Não, não! Eu vou processar todos vocês! Não preciso de mais um vídeo! Sou sim uma porcaria de subcelebridade youtuber e vocês queriam estar aqui. Não mudo. Não mudo e não mudo! Mudanças me assustam e vocês sabem disso. Então, Russo, o Renato, vem a minha cabeça e só penso: “então, me abraça forte e me diz mais uma vez que já estamos distantes de tudo...” Só eu e você cheirando com um espírito adolescente bem Nirvana... Vamos lá: “With the lights out, it's less dangerous, Here we are now, entertain us,  I feel stupid and contagious, Here we are now, entertain us, A mulatto, an Albino, A mosquito, my libido, yeah

Eu me sinto idiota Heeey, yay... O amor é isso, certo?!. Idiota como todos nós ou somos nós os responsáveis por esvaziar algo capaz de nos tornar melhor o transformando em crimes passionais, em prisões mentais, em dilacerações coronários ou do coração mesmo? Meu! Nem na chuva vocês me deixam! Não! Não me deixem! Ei! Ei! Não gritem assim comigo. Não corram atrás de mim eu só gosto de fingir dramaticidade! Jogar este embuste de nunca fui amada e tal, sabe? Mas, vocês já foram? Amados? Olha isso gente! Estão vendo? As pessoas me amam! Isso não muda tudo? Veja quantos likes? Eu estou amando muito neste momento, vocês não? Olha meu vídeo também viralizou! Amei! AMEI! AMEI! A-M-E-E-I!! A...M... EI! O que vocês estão...


Sem um motivo, como o Amor ao avesso também conhecido como desamor, A multidão avançou sobre ela e... Bem, assistam no Youtube...

terça-feira, agosto 15, 2017

nunca foi



foi conjugado sob pena de não rimar o amor diminuído
servido em um self service à quilo
cheio de juros e correções pesados por bocas vorazes corações partidos
divididos em desacreditados e sofridos
todos envolvidos no crime de matar o libertar

decepcionados amargurados por encontradas desilusões continuam confundindo paixões fulminantes matando em instantes toda uma idealização
cobra-se presença aparência inteligência mesmo na deficiência da contínua possessão
mais uma sessão de exorcismo físico mal sucedida está lá estendida mais uma perdida ilusão

não se muda quem se ama se não quer deixar mudo e paralítico de tudo o suposto amado
é amargo o ditado talhado a sangue bruto ferro enferrujado na ditadura do solitário acompanhado atura qualquer altura quem é amante de si primeiro

só é Feliz por inteiro quem sabe que nunca foi metade


+Rafael Belo, às 19h28, segunda-feira, 14 de agosto de 2017+

segunda-feira, agosto 14, 2017

Mudar por Amor



por Rafael Belo


Quantas vezes você já ouviu dizer mude por amor? Você já o fez? Eu acredito na mudança das pessoas e não venha me dizer: o amor dói, o amor causa dor... Desacredito. Digo não ser amor. Você vai me ouvir dizendo e, com certeza, ler que o Amor só transforma se for verbo conjugado como algo além do sentimento. Maiúsculo assim mesmo. Assim como o respeito próprio e respeitar o próximo porque o Amor é o caminho capaz de mudar o mundo. Quando se faz pelo Amor, não por uma pessoa... Por uma pessoa, acaba caindo no ideal e o ideal é não idealizar porque o Amor liberta e não toma posse de nada.

Aí sim pode se fazer olhos sonhadores e dizer, registrar: O Amor transforma. Ele está em nós. É o nosso divino elevando o humano. Sem o humano as sensações da pele, da boca de cada toque não têm a visão da perfeição no imperfeito. Somos sujeitos só conjugados no tempo verbal correto do universo quando descobrimos termos tudo dentro de nós, por isso, a dor é necessária, mas nada tem a ver com Amor. Tem a ver com a necessidade de crescimento e precisamos conhecer todas as nossas facetas do contrário é o mesmo que fazer sempre a mesma coisa esperando um resultado diferente.

Culpar o outro ou se culpar... Culpas não ajudam ninguém e – olha que surpresa – não fazem parte do Amor. Não há motivo para Amar. A motivação é não ter razão. Amor é um Estado de graça. Tudo passa e o filtro do olhar só colhe coisas boas, mas não é tolo nem idiota, é sábio. É incondicional sim. Não me venha com regras, termos e desejos de orientação de como deve ser... Se houvesse uma regra seria: a motivação da mudança vem do Amor próprio. Utilizar de qualquer outro subterfúgio, outra motivação, expõe até uma insegurança perturbadora criando padrões querendo evitar o sofrimento nos deixando frágeis demais.


Sofrer por amor é uma grande mentira. Desculpe-me se acredita ser este o motivo de tanta sofrência musical por aí e seu, claro. Mas, eu entendo que existe dor e, como consequência da insistência nela, o sofrimento porque damos o poder ao outro de nos possuir. Possessão é o avesso do Amor. O Amor é puro exorcismo... Por isso, digo, escrevo, de novo: se não soma e liberta não é Amor. O Amor nos fortalece, nos torna melhor e mantém nossa individualidade. Não há qualquer tipo de anulação ou cobrança. É uma esperança constante e um caminhar inabalável tirando todo o medo da alma e do coração nos tornando cada vez mais nós mesmos.

sexta-feira, agosto 11, 2017

Estou descendo (miniconto)




por Rafael Belo

Eu nasci independente. Dizem que logo que o parto aconteceu eu tentei tirar as mãos do médico de mim e quando me aconchegaram no colo da minha mãe eu segurei com as duas mãos o seio dela só para ninguém mais encostar em mim. Bom. Não sou mais uma menininha tola para não entender de exageros... Minha mãe me deu um celular que não tem nada, só serve para ligação. Vai entender... Diz ela: “preciso saber onde você está, menina atrevida”. Eu penso que ela fala igualzinho minha avó... “Você só tem dez anos, mas parece 16”, ela repete. Todos dizem isso... Queriam que eu fosse modelo pela altura e beleza, claro... Eu só digo: “Eu não, mãe. Estou bem. Não quero ficar velha...”.

Pensa. Eu não sou besta, não. Minha infância está muito bem, obrigada. Inteligente demais? Não sei o significado disso? Alguma associação? Não? Deixa-me correr. As meninas estão me esperando. Oie. Gente. Demorei nada... Não quero ficar presa neste troço aí. Rolê? Tô de boa. Vocês podiam olhar para mim. Cara! Prestenção! Ô menininhas da por..!! Vou embora! Ah, agora vocês me escutam?! Dá pra gente parar de se comportar como adolescentes? Não, nãonãonãonãonão! Pára! A gente é... Não vou usar palavra com C que termina com ÇA. Não me sinto assim mais, mas quero aproveitar este restinho de infância.

Vamos? Vamos jurar não ficarmos esnobes e oi? Esnobe? É não cumprimentar ninguém, nem falar com as outras meninas... Ah, que nem as meninas mais velhas nos tratam... Já viram aquele filme onde as meninas fazer um pacto e tal... Não lembro o nome... Isso! Esse aí! Vamos ao parquinho? Quero soltar pipa também... Ah, meninas! Por mim, vai!? Aeeeee! Viu viu viu! Eu disse que a gente ia se divertir, não disse!? Vamos lá. Tem gangorras para todas nós! Não vamos pagar mico! Oooo! Só tem a gente aqui... Vamos na piscina de bolinhas? Isso! Pelo escorregador aí a gente...


Empolgada demais? Eu! Tô nada! Tô NA-DA!. Não, não! Ninguém é igual a ninguém. Ah, quer saber? Vocês estão muuuuuiitooo chatas!! Tchauuuu! Parem de vir atrás de mim! Não vou parar de correr! Eu disse tchaaaaauu! Que droga!! Não vou chorar, não! Parem com isso! Como eu subi aqui? Quero ficar sozinha!! Não vão deixar?! AimeuDeus! Só me deixem!! Vocês vão cair da árvore! Não pareço menino, não! Humm! Eu não vou cantar essa música horrível... Não! Não é minha favorita! Não canteemmm, por favorr!! Ah, não! Com a dancinha nãooo!! Ei! Por que vocÊs sentaram neste banco esquisito?! O que vocês estão fofocando aí?! Só me contemmm!! Vocês disseram “brincar”. Eu ouvi di-re-i-to? Brincar! Eeee! VIVA! Estou descendo...

quinta-feira, agosto 10, 2017

misturança




vento varre vitorioso chamando lá fora a memória
as luzes dos olhos se acendem vendo um balão mágico
conectado com o trem da alegria sem pagar passagem
ri a mensagem não dita escrita no embaçar da janela do olhar

superfantástica infância chamando para girar sem parar
dando o ar da imaginação voando até outra dimensão divertidamente
presente no plunct plact zuum indo em toda viagem brincar

além do arco-íris escalar o horizonte para pintar de chocolate o criar
vendo de ponta cabeça nuvens beijadas feitas  doce algodão do suspirar

é chata esta terra desencantar a roda gigante parar distante o carrossel deixe a infância despertar o agora eu era qualquer querer do papel vamos correr para a Terra do Nunca voltar e acabar com todo caminho cruel.


+ às 09h54, Rafael Belo, quinta-feira, 10 de agosto de 2017 +

quarta-feira, agosto 09, 2017

Nem percebeu (miniconto)





por Rafael Belo

O carro parou. No mesmo lugar. Minha mãnhê tirou o celular da minha mão e disse o que dizia todo dia: “acabou a brincadeira. Devolve o celular pra mamãe.” Era a primeira vez que o meu plano funcionava. Desde que deixei de ser infantil. Agora com nove anos eu queria minha mãe mais tempo comigo. Entendia melhor as coisas. Não iria chorar mais toda noite para ela ficar mais tempo comigo. Não adiantava. Ela só ficava mais triste e eu também. Hoje ela iria ficar mais tempo comigo, mas ela não saia do celular. Ela não ficava dizendo para eu não ficar o tempo todo nele? “Florzinha já deu. Chega de celular por hoje. Não combinamos?” Eu sempre pensava: “não”.  

Eu sempre passava mais tempo no celular dela do que com ela. Não queria aquela porcaria. Queria minha mãnhê. Mas, ela não tinha tempo e quando tinha estava trabalhando também. Trabalhando naquela porcaria de celular. Eu não posso nem falar nenhuma palavra feia, mas ela não para de dizer... Ela brigou com as mães das minhas amiguinhas, brigou com minhas tias e se não me deixava correr com elas... Ei! Que som é esse? Aaaaa. Olha só! Nunca viemos por este lugar. Ah, é! Estamos indo ao médico. Preferia ficar em casa com minha manhê. Mas, olha lá. Ela nem me olha...

Quando a gente foi pra praia... Foi tão, tão legal... Mas, eu brincava sozinha. Minha mãe ficava tirando fotos... Ela desconfiava de todo mundo, mas pelo menos dormia comigo todos os dias. A gente podia fazer isso mais vezes... Não é, não?! Meu cachorrinho ficou lá na vovó e eu não tenho mais amiguinhos. A gente mudou e eu chorei tanto, mas tanto, tanto, tanto... Não teve jeito. Fiquei sem minha vovó e sem meu amiguinho! Hum!! O Auzinho eu levava pra dormir comigo mesmo ela dizendo que não ia deixar mais eu mexer no celular se eu levasse ele pro quarto. Era proibido dormir porque tinha um monte de doenças, mas não me explicou nada. Até parece que o Auzinho tinha alguma coisa...

Olha aquelas meninas têm a minha altura. Estão correndo só-zin-has, só-zin-has, só-zin-haaaas... Vou lá rapidinho. Mãnhê, mãnhê, mãnhê, mãnhêmãnhêmãnhê eu já volto tá? Não vem carro... Vou correndo... Vou ficar virada pro carro pra não perder e... Ei! Espera eu! Oi? Nãooooo! Hummmmmm.... “O que houve menininha? Por que você está chorando? Heim? Conta pra titia? Conta.” Você não é minha tia? Eu não sou menininha, não!! Sou mocinha já, viu!! Quem é você? Quero minha mãnhê!!! Sai! Me larga! Me larga! Me larga! “Ei!! Florzinha?” Tia Porteira!! Salva eu! Liga pra mãnhê, liga? Ela me esqueceu de novo... Tiaaa? Você conhece aquelas meninas?

terça-feira, agosto 08, 2017

apgando




aquela pequena idade ficava em casa travada nas telas
dedicada a infinitas janelas esquecida nos velozes dedos
nenhum anseio do desconhecido de pegar brinquedos
seu segredo saia de trocas entre o que queria e as birras

manhas mastigadas todo dia filhos do tempo e das iras
perdidas em responsabilidades cedia a tardia idade
séria inocência egoísta seria esquecida sem nem se lembrar

na ânsia de educar deseducou desamou etapas queimou
infância colorida perdeu a cor não havia ruas nem desenhos pulou

não era amarelinha era toda uma linha do tempo agora inexistente acabou.


+Às 09h52, Rafael Belo, terça-feira, 08 de agosto de 2017+

segunda-feira, agosto 07, 2017

Onde está a infância?



por Rafael Belo

A infância acaba. É óbvio dizê-lo e até piegas, mas parece um fim definitivo. Hoje a infância é cheia de regras, cuidados excessivos, medos extremos, distrações com desenhos, animações, joguinhos e smartphones. Parece mais uma etapa de preparação apenas. Na idade para o lúdico, para se machucar, correr, brincar, experimentar já se é preparado para o “futuro promissor”. Adultos precoces sexualizados e tal. Claro. Sempre existiu, mas a inocência não permitia ver desta forma escancarada. A repetição e imitação seguem da mesma forma e não há como proteger contra o mundo. Ele vem e arromba a porta, mas é preciso proteger o direito à imaginação. Infância é liberdade, é sinceridade, formação de identidade e carregamos para a vida toda.

Há exceções existentes para confirmar as regras e os filhos do tempo. Estes são de pais abandonados pelos legisladores da Constituição se virando como podem para dar educação aos filhos... Há também aqueles só acumulando filhos por outros motivos. O fato é: os pais não têm mais tempo e trabalham tanto a ponto de quando podem querem descansar. Sim. De novo. Há exceções. Todos temos histórias de infância, amizades carregadas para sempre, da imensidão do mundo... Tão pequeno desde a inserção digital. Eu gostava de games, de quadrinhos, de livros, mas gostava de correr por aí, subir em árvores...

Lá vem a nostalgia diriam, porém não. É apenas um fato pessoal. Não tenho saudades e não me entendam mal. Minha infância foi maravilhosa. Uni o tecnológico com ao analógico e testava meus limites sempre. Tinha liberdade e nenhuma obrigação. Minhas festinhas de aniversário eram cheias de parentes e amiguinhos. Dançávamos A Turma do Chaves, Trem da Alegria, Balão Mágico, Xuxa... Pronto já sabem minha idade. Chega de rir disso. Tinha minhas namoradinhas... Mas, era livre para ler, ir às casas dos amigos, dos primos e brincar com todos os jogos lúdicos feitos nas ruas... Não tinha preguiça para brincar. Tudo era motivo para “era uma vez”, “sua vez”, “te peguei” e “agora eu era”...


Quem somos hoje tem base aí na nossa infância. São os exemplos, a explicação dos porquês os verdadeiros formadores, e qual é o programa infantil de canal aberto hoje? Sem a presença dos pais ou de alguém capaz de educar restam os aplicativos de celular, a internet, a televisão... Qual incentivo tem nossa infância? Qual a motivação nas creches, nas escolas? Minha infância tem sabor de aprendizagem, de amizade, de deslumbramento, de quedas de árvores, de carinho e amor. Tive sorte, sei disso. Trago minha infância comigo. Olhos e ouvidos atentos e curiosos absorvendo tudo. Ainda sou muita parte infância, esponja do mundo por onde me educo e a educação está tanto nas ruas, nas escolas quanto em casa. Ela está em todo lugar porque somos este mar avançando sobre as pedras e as lapidamos para no nosso amanhã podemos relembrar e sorrir.

sexta-feira, agosto 04, 2017

um medo particular(miniconto)





por Rafael Belo

Sinto-me uma cidade turística com seus picos de altas temporadas e suas ausências no restante do ano. Andando pela Rua do Comércio há silêncio, mas é como se cada pedra deste lugar falasse e eu não escuto. Não sinto nada. Estou bloqueada como as cantadas insolentes, invasivas e baratas me alcançando diretamente das redes sociais. Falta vontade e disposição para sentir de verdade. Minha empatia era extrema e eu a condenei a inatividade. Ela me esgotava. Mal conseguia me ser quem dirá ser muitas outras... É como se eu fosse uma praia inexplorada e de repente alguém me divulgasse com patrocínio no Facebook e Instagram. Nunca mais soube se eram meus sentimentos ou das outras...

Consideraram-me louca e realmente eu enlouqueci. Se já é difícil lidar com os próprios sentimentos imagine com uma enxurrada sentimental mundial? Quem pode me entender? Em nenhum momento da minha vida eu me tive para mim. Era obrigada a ter uma concentração impossível para descobrir se me pertencia o que sentia ou a outrem. Não descobri antes e ainda nada sei. Mas, eu não aguentava mais, sabe? Desconhecia a sensação de sentir sono. Eu sentia angústia, ira, fúria, ódio, dor, sofrimento, alegria, tristeza, decepção... Esta Era da decepção, da depressão me fez um abismo tão profundo a ponto de no outro lado ter um buraco negro esperando em looping...

Talvez eu seja uma mulher vazia hoje, mas já fui A Recebedora. Talvez quando era assim fosse também cheia de tudo e isso significava ser cheia de nada... Sai vagando e vi alguém como eu fui. Teria sido eu? Quase cedi a um impulso desconhecido de acolhê-la e dizer que tudo ficaria bem. Ah, ta! Até parece! Ficaria pior na medida em que... Ela se contorcia de dor... Eu cheguei a começar a sentí-la, mas rejeitei de imediato e corri. Sim. Eu corri para longe. Eu estou no fundo de mim, sei disso, repleta de toda a empatia bloqueada inata em todos nós. Rá! Eu digo bloquei, mas não é bem assim, sabe? Eu ainda tento não dormir porque não tenho controle...

Assim, descontrolada, sinto tudo aquilo guardado no meu eu no fundo de mim... Sonho com cada pessoa deste meu mundo. Todas têm uma cor diferente referente ao sentimento delas e, no caso, meu sentimento. Eventualmente eu durmo e irei dormir de novo. Tenho medo. Pode até ser esta minha missão neste mundo: ajudar quem não consegue lidar consigo mesma sozinha, mas não achei não poder ser obrigada. Mas, parece ser a única forma de passar, de entender, de continuar... Quero só andar sem sentir nada além da brisa marítima e meus pés descalços nestas pedras deslocadas. Porém, eu temo o logo mais e tenho um medo em particular... Tenho medo de sonhar.

quinta-feira, agosto 03, 2017

imperativo bicho-grilo




essa tal de sanidade sorria a adorável timidez
na vez de olhar se encolhia vestindo toda simpatia da lucidez
insensatez era sair da rotina uma tina cheia de água gelada no corpo nu do inverno
só solidariedade sensibilizava algo fraterno era moderno com um quê de solidez

estupidez este êxtase absoluto em um país de luto pela mortalha da seletiva surdez
a palidez mostra a insuficiência de provas palavras pronunciada pelo povo vivendo em morbidez
hibridez de ideais e valores dando ideias deturpadas do sentimento de invalidez

fez toda a vontade vinda veloz sem nem passar pela mente e de repente dói o coração
em uma rapidez presente pela visão imponente de tudo aquilo possível de ser

verdes vós mesmos este infinitivo pessoal infinito engolido pela sordidez do eu imperativo motivo que  vê a empatia como um distante bicho- grilo.


+ Rafael Belo, 09H, quinta-feira, 09 de agosto de 2017 +

quarta-feira, agosto 02, 2017

Muitas outras (miniconto)





por Rafael Belo

Acordei com aquela dor na rua. Olhava para as pedras desconjuntadas não diferenciando a calçada e não entendia. Nunca tive dores de cólica, gástrite ou quaisquer desconfortos estomacais. Mesmo assim meu estômago imanava um sofrimento a parte e realmente eu gostaria de estar aparteada dele. Esta intervenção interior não me pertencia. Tinha certeza. Neste momento me recordo de vir de outra ou outras – este sentimento - me atingindo como se fosse meu e era. Aí pensei se aquelas vias feitas daquele jeito sem nunca pensar em calçadas, quando havia desnível, provavelmente era pensando em alagamentos e inundações...

Eu preciso achar meu desnível. Emanar-me de mim. Nãonãonão. Eu preciso lidar com isso. Eu vim até aqui fora para respirar, mas este fora não existe – eu insisto – é furto do meu olhar, fruto do desviar. Talvez até esta brisa do mar seja minha imaginação me distraindo. Desacredito eu querer me enganar. Há sim esta brisa marítima. Mas aqui, respirando com dificuldade, é o comércio o comandante de tudo. Todo este planejamento universal é minha sincronicidade com esta cidade. Não se engane! Estamos sitiados. Manipulados há um nível difícil de definir. Há uma subvoz usando um subtom bloqueando a empatia... Continuo em dúvida se é dádiva ou maldição. Quero acreditar ser um dom...

Então, assumo esta dor. Ei! De supetão ela mudou. O sentimento não é mais o mesmo. O meu sentimento de libertação se sobressai agora. Ou a dor desta pessoa passou ou a minha libertação a afetou... Vamos lá! Você também tem empatia. Comece com a simpatia... Não somos obrigados, mas ser antipático é bem pior. Não é, não? Lembro como era ensandecidamente intensa quando permitia minha empatia me explorar por completo. Usei o medo disso tudo de forma errada. Fiquei lacrada por muito tempo como o suprimento intacto de um navio afundado em um lugar inexplorado do fundo do oceano.


Não serei menos intensa, menos sorridente, menos presente... Só tentarei ser menos egoísta. Ter tantos mundos sentimentais completos dentro de mim me faz tantas mulheres. É como ser única e especial sem contrastar com ser comum. Pode sentir isso? Somos elo sim. Precisamos nos libertar. Sem esteriótipos, sem protótipos, sem empoderamento porque nós somos o próprio Poder. A empatia se aconchega melhor nos nosso deixar ser. Vou identificar a origem deste meu sentir você e chegarei aí onde esta fisicamente. Não só conectada a sua mente e aos seus sentimentos. Também habitaremos a pele uma da outra e ainda sim seremos nós mesmas, individuais e cheias de personalidades. 

terça-feira, agosto 01, 2017

esta tal de sanidade



 cada um de nós tem parte de toda a verdade
mas inteira se tratando de quem somos nós
não nos falta pedaços muito menos metades
a humanidade só é completa quando vive o outro sem deixar de se viver em nós

somos desatados quando empatia e ela nos veste de dentro pra fora
não há nada fora encontre a sintonia os ruídos fazem parte do caminho
entre ilhas e ruínas somos a construção itinerante do desalinho

andorinho querendo andorinhar um instante vivendo a mesma dor amor intensidade
não há como estar sozinho a solidão é uma forte ilusão para se perder a sincronicidade

sinto cada parte de ser você porque você sou eu quando entrega esta tal de sanidade.


+às 21h20, Rafael Belo, segunda-feira, 31 de julho de 2017+

segunda-feira, julho 31, 2017

Demasiadamente poder ser




por  Rafael Belo

Amanhece mais um dia e ele vem cheio de empatia para a gente conquistar a liberdade. Esta conexão de um sentimento total dentro de nós transpassando a solidariedade instantaneamente é como tirar férias das coisas materiais e, finalmente, ser humano. Sentir não só o próximo, mas o sentimento dele. Não apenas curtir, compartilhar, fazer um novo post e textão, mas pertencer também a uma dor, a uma preocupação e a uma alegria. Um coletivo movimento verdadeiro como a natureza. Veja o mar. Ele beija em ondas pelo impulso dos ventos toda a praia, molda as pedras, se arrebenta e todo este entorno vai com ele...

Não percebeu? Se o mar está agitado tudo ao redor também está. Nunca sentiu isso? Aquela mudança no ar indicando chuva, perigo, alguém se aproximando ou alguma coisa prestes a acontecer chamados por nós de intuição? Com certeza em algum momento da tua vida já. Então, isto é empatia. Intuição é uma simplificação desta nossa sinergia e sincronização, mas aos poucos vamos avançando em direção da idade e ela vem nos encarando até o inevitável encontro. Ao nos misturarmos nos afastamos deste nosso sentimento original capaz de sacramentar o pertencimento e culpamos o tempo ou alguma faixa etária a qual passamos.

Pertencemos a tudo sem ser propriedade de nada. Feche os olhos e respire bem devagar e saberá sobre isso de imediato. Nós multiplicamos, dividimos, somamos, mas aprendemos menos a diminuir de forma grossa, pejorativa e de afastamento. Estamos enganando quem? Este corpo acaba a cada novo dia e se não estamos em sintonia com nossa divisão... Caímos na repetição. O telefone toca e sem ver o identificador ou qualquer razão plausível você sabe quem está ligando... Bem, já sabe. Mas temos medo de dividir e de somar e ficamos só olhando sem sequer ter argumentos ou saber de onde vem este discurso usado ou pior, sem sequer pensar no significado real dele.


Está em nossas mãos este elo inquebrável nos igualando diferentemente uns aos outros de não estar e se colocar ali naquele sentimento e situação, mas viver aquilo. Estamos psicologicamente, emocionalmente e espiritualmente sentindo porque somos espíritos perdidos em uma competição por vazios, por belezas, por troféus, por relacionamentos falidos, por dinheiro e poder. Você sentir algo pertencente a outrem não é um fardo é realmente entendê-lo tornando tudo mais leve, célebre e divino em um pulsar tão humano quanto demasiadamente se pode ser como as ondas, raízes e conexões em nossas palmas, só olhe e deixe. 

sexta-feira, julho 28, 2017

Terei uma chance de tentar? (miniconto)





por Rafael Belo

Violência era meu canto. Havia êxtase, alegria… Talvez um filosofia de mosca sem asas de bar deturpada. Batia embevecida pelo meu pranto. Não eram minhas as lágrimas. Eram páginas não escritas do livro do agora de outrem. Quem sabe estímulo de Whey Protein ou alguma fórmula exaltada da forma do corpo vazio. Ok! Há algo preenchendo, mas me esvazia quando arrebento quem considero mal. Meu julgamento anormal destilação muita movimentação.

De antemão lanço meu braço. Todos dão um passo para trás. Antes um impulso por um espaço aberto para saltar com impacto o estardalhaço desta falência social. Está tudo tão desigual que a única forma de extravasar é a extravagância de matar. Lutar uma reforma em forma militar. Quando a contenção inclui ruins e bons pelo único motivo de um não excluir o outro. A dualidade é uma rivalidade inexistente persistente para facilitar marcar, sacramentar e demonizar. Militalizar é a força e organização estratégica de retomada. É função. Nada de democracia. São eles ou nós.

Sós seguindo o efeito manada. Subindo e descendo escadas da maneira mais popular. Não falta ar até chegar ao mar e ver o primeiro albatroz pousar. Vítimas e algozes de uma guerra civil. Esta também faliu antes mesmo de estrear. Sou Estrela tentando brilhar como meu nome, mas já inexisto há mil anos-luz. De imediato sou um sentimento afogado, um suicídio da evolução que eu preciso. Há exatos tempos incontáveis tudo era o mesmo e eu era um beijo a cada tacape. Hoje o homem continua sem nada de sapiens e muito de das pedras ainda pensando em ser neandertal.

Estou aqui quebrando tudo achando absurdo ter que ouvir estas pedras atiradas como pétalas. São pérolas raivosas as quais a gente não releva. Por isso, o quebra-quebra é pouco. Mas, quem me vê de fora acha que por dentro sou lago, não este mar agitado predicado do pretérito-mais-que-perfeito estereótipo do próprio defeito. Rótulo de etiquetas equivocadas sujeito mineiro catalogado por Drummond. Sou o som contrário deste articulado “tenha calma”. Sou sujeita, sujeita à irritação. Quem sabe não seja esta a purificação...

Não há como apaziguar uma multidão tentando encontrar a paz libertando mais de cinco mil anos de escravidão. Sei, de antemão, a necessidade de guerra pela minha paz. A antecipação é apenas estratégia. Sou palco e plateia vendo e atuando ao mesmo tempo a interpretação desta paz, mas quais materiais derivam do capaz para a conjugação do faz para a gente despertar? Esta sensação deve arrepiar só quando a gente começar a cansar. Aí vem a pergunta: terei uma chance de tentar?

quinta-feira, julho 27, 2017

deixar paz



todo o mundo molha os meus pés no caos das ondas tentando me puxar para o profundo
sou do tamanho do infinito violento me atingindo quando estou ainda mais fundo
seco ao vento caminhando na praia de ninguém
o som das águas chama um frenesi em vai e vem

a luminosidade foi engolida pelas brumas do horizonte
amanhã hoje neste momento cada movimento se comporta como ontem
não há desatar neste nós a nos atar no confinamento de um diferente mar minguante

falam da lua cheia do feito agora pouco pelas sereias
tudo conto destas mulheres-anfíbio em seu canto para nos carregar em uma iludida deixar paz

vultos passam correndo iluminam meu silêncio com seus incômodos trazem as brumas para dentro de mim e já não me deixam mais em paz.

+Rafael Belo, às 11h30, quinta-feira, 27 de julho de 2017+

quarta-feira, julho 26, 2017

A desperte comigo (miniconto)




por Rafael Belo

Eu sabia. Tinha certeza da perturbação. O racismo, o machismo e a quantidade de ismos vindo tentar me abalar. Não. Não importa eu ter 17 anos. Eu já sei o que eu não quero. Nunca é possível ter certeza da idade de ninguém nem a mentalidade. Podemos sim saber da falta de paz em qualquer um. É impossível esconder. Sou jovem em aparência e idade, mas minha alma é o lago mais antigo deste planeta. Quero dizer: sou calma. Estou em paz. Não diria finalmente. Afinal, eu sou jovem. Mas, emana daqui das minhas entranhas esta sensação leve e clara.

Sou Líria. Branca como um lírio alvo. É… Meus pais costumavam dizer isso com uma felicidade. Eles diziam: “Esta é nossa paz, Líria.” E eu me apresentava:  “Sou Líria.” Eu sentia dar paz a eles. Talvez seja esta minha missão. Eu me emocionou fácil, mas faz um ano hoje já. Um ano sem perder a calma, sem me descontrolar. São dois anos sem meus pais. Fui obrigada a me virar, a amadurecer. Posso quase dizer: amadurecer é despertar a paz. Vou invisível neste mundo anonimamente chegando até vocês. Imperceptivelmente pronta para te fazer sentir a paz e está habita em você.

Nunca me questionam ou proíbem minha entrada em algum lugar. Eu pareço familiar para todos e consigo fazê-los sorrir de volta para mim. Não tem a ver com branco, nada disso há no silêncio, no mar, na natureza em geral, só na crença, fé ou no Deus de cada um. Temos muito de divino. A alma habita a mente e liga tudo ao coração. O corpo sente a partir desta conexão e, muitas vezes, precisamos de formatação. Sabe, eu estava com meus pais durante o acidente e no momento deles deixarem esta realidade. Eles me olharam além da dor ali se intensificando e eu vi incentivo, alegria e paz.

Foi o meu clique. A minha pedra fundamental. Um explosão vibrou em mim. Eu me liberei, chorei e logo sorri. Foi tragicamente lindo. Beijei cada um nos olhos naqueles corpos pela última vez e logo a explosão física aconteceu. Acordei distante quando os socorristas chegavam. Não havia mais corpos me disseram mais tarde. Agradeci silenciosamente por isso e eles interpretam como trauma. Não haveria lápides para levar flores, cuidar e lamentar. Não! Minha memória deles era de paz e eles estavam assim porque eu estava bem e viva. Eu compreendia. Viveria em paz. Busco tocar agora com minha paz saudando a paz em você. A desperte comigo.

terça-feira, julho 25, 2017

a cada desatar



um silêncio de pássaros amanhecidos nos amanhecendo
do vento no lago nenhuma marolinha fazendo
nossas peças alvorecendo refazendo nossa alma original
uma curva meia lua para cima nos flutuando elevando todo peso ao um nada igual
é a paz inominável para não ser perturbada

gravidade zero no elo da alma com o corpo
estamos soltos de quaisquer amarras sociais
há necessidade de ser um tanto louco no meio desta quantidade de seres normais

de perto já sabemos mas por dentro vamos morrendo
desconhecendo a calma necessária para gritar

há tantos infinitos entrelaçados no nosso interior que vamos nos aquecendo libertando a paz a cada desatar

+às 09h17, Rafael Belo, terça-feira, 25 de julho de 2017+

segunda-feira, julho 24, 2017

cair em si





por Rafael Belo

Vivemos em busca de algo. Queremos nos sentir bem e, às vezes, reviver aquele momento onde tivemos paz. Só de lembrar os olhos brilham e lacrimejam de alegria, quando não escorre uma lágrima abusada, não é? Mas, por melhor ser recordar, importante mesmo é viver neste agora. Infelizmente, queremos acreditar nas propagandas, no capitalismo selvagem e saímos comprando coisas, vendendo imagens, querendo possuir pessoas e katabum: eis a felicidade. Opa! Não! É o avesso disso.

Tudo isso, consequentemente, cria um ciclo de vícios de erros e infelicidade. Violentamos nossa mente, nosso coração, nossa alma e nos afastamos do lugar onde mais deveríamos estar. Chegamos e partimos achando estarmos vivendo com tudo culpando os outros e o mundo. Geramos violência e nos machucamos, mas não há culpa nisso. Culpa só causa mais violência. E agredindo a nós mesmos deixamos de assumir quaisquer coisas e só queremos dormir. Temos de assumir nossos atos e acordar. Ah, e a felicidade? Só podemos ser felizes se despertamos a paz.

Então, pedimos, rezamos,  oramos, nos anestesiamos de todas as formas e, claro, mentimos. Não agimos e queremos barganhar com a natureza, com o tempo, com nossa religião… E nos religamos por acaso? Embriagamos-nos das ilusões mais perdidas nesta nossa inabilidade  compartilhando responsabilidade e fraudes acabando por desistir ficando com uma falsa estabilidade e paz. Pedimos paz, exigimos paz, berramos por paz, ordenamos paz sem saber o significado, mas onde está a paz?


 Deus, na sua fé, na sua crença, em um lugar, em uma pessoa, em um animal, em um livro, em uma canção, no seu trabalho, na sua família, na sua habilidade, mas não está só nisso nem apenas Nele. A paz não nos invade ou está acessível fisicamente, virtualmente… Ela é uma busca dentro de nós. Não paramos de procurar a paz, mas ela está em nosso coração, na quietude da mente, no sossego da alma… É preciso calma para alcançá-los. Respirar fundo e sorrir para fechar os olhos e mergulhar no tal cair em si. Aí nasce a paz.

sexta-feira, julho 21, 2017

Naturalmente (miniconto)





por Rafael Belo

Aparentemente ela não se movia. Mas era difícil perceber à distância. Fui me aproximando e agradeci pelo frio não a ter matado. Era para ela ter congelado. Envolta daquelas flores... Bem! Pensando bem... Não deveria ter nenhuma flor aberta, mas aquela ali no rosto dela... Estranho. Está brilhando, vibrando enquanto todas as outras fechadinhas... Não entendo.  Sempre me disseram para não sair: “O inverno mata”. Eu queria saber como e o motivo. Diziam sermos descendentes do inverno original e nossa frieza vir daí, da mesma maneira este jeito seco de tratar o outro... Quero saber o motivo e esta sobrevivente vai me contar.

Mal dei um passo e os olhos dela se abriram. Havia pouco branco neles. Era de um azul gelo de uma tonalidade indefinida como se houvesse um vento soprando para sempre naquele espaço cintilante. Ao invés de medo, senti uma familiaridade e uma conexão apertando meu coração instantaneamente. Todas as flores se abriram quando a olhei nos olhos. Ela me chamou de irmã, mas não disse nada. Ainda permitindo um aquecer na minha frieza, da mesma forma silenciosa disse seu nome: Nivis Cristal e me chamou de uma forma ainda nova para mim: Flori Petali.

Tudo, até então disperdiçado e disperso, se concentrou e valorizou a ponto de eu me sentir um campo florido com um aroma inebriante e incentivador. Muda, ela me explicou preferir não falar. Se o fizesse as temperaturas voltariam ao negativo como estavam enquanto ela dormia... Tentei juntar estes pensamentos na minha mente, mas pareciam pétalas em um vendaval. Fiz mais força e ela simplesmente balançou a cabeça reforçando não ter motivo para pressa desde que já havia um entendimento no coração. Haveria o tempo de entender totalmente, mas por enquanto precisávamos juntar toda A Família, afinal nos separaram pensando ser possível controlar alguma coisa.


Nivis explicou, então, o significado de todas aquelas folhas e flores estarem no chão há tanto tempo e todos os animais hibernando. Todos precisavam aprender a mais antiga lição: tudo tem seu tempo e é preciso passar por todas as estações. Mas, não só passar. É preciso viver, sentir, estar lá inteiro, pois, só dessa maneira é possível ir adiante e entender algumas coisas. Eu percebi nunca ter sido seca ou fria de verdade. O desconhecido é frio e seco até o conhecermos sem julgar. O inverno tinha tinah sua porção em tudo da natureza, naturalmente e juntas íamos contar a boa nova.