sexta-feira, outubro 20, 2017

Primeiro voo (miniconto)






por Rafael Belo

Só percebi o desaparecimento quando me perguntaram. Senti-me iluminar quando percebi. Eu simplesmente disse “obrigada”. Nem respondi. Meu médico não puxava mais minha orelha... Eu sempre ficava irritada. Beirando os oitenta e levando sermão de criança...! Faça-me o favor. Ele nem tinha 30 anos. Mas, tinha razão. Não conte para ele isso. Você ganharia a minha ira. Sou irada... Ah, não usa mais isso, né?! Ok! Sou “A” Mulher... Oi? Sem aspas? A Mulherão da po$#%! Pronto. Essa sou eu.

Dou meus rolês. Sou enxutona. Pára de me corrigir. Por favor. Aff! Gíria nova? Rolê é dos anos 1970, já cantada pelos Novos Mutantes. O que? Aaa! Hummm. Eu tenho o direito de confundir e esquecer... Aliás, Novos Baianos. Satisfeito? Pode me deixar em paz agora? Você vai embora ou vou eu? Biscoitinho? Vovó? Ah, vem aqui seu moleque! Vou pra minha hidro porque quando me convém sou velha mesmo e daí?! Tenho muito orgulho da minha vivência, desta experiência mal disfarçada na minha cara.

Vergonha? Não mais. Nem desta roubalheira toda... Talvez nossa diferença dos outros países seja a idade e não me venha com mais este ou aquele de primeiro mundo porque pode até não ser escancarado, escrachado, a tal cleptocracia escrachada nossa de cada dia, mas tem... Enfim, eu não reclamo da minha vida. Estou viva, não estou? Todo mundo criado e sadio, não está? Filhos, netos, bisnetos e por aí vai. Um dos meus maridos morreu de uma hora para outra e até hoje os médicos não me disseram a causa...


Nem fico triste pela ausência de visitas e os telefonemas... Escassos? Não! Inexistentes. Tem whats e quando precisam saber de algo, ficam sabendo e o mesmo para mim, então... Tristeza mata e ainda não estou pronta para desistir da vida. A consciência é de cada um. Não vou pagar nada para ninguém nem incluir marmanjos e marmanjas formados, assalariados, com família nas minhas viagens. Também não sou obrigada a ficar disponível... Na minha época... Ah, não! Eu disse isso mesmo!? Preciso adiantar minhas viagens. Deixa a hidro para lá vou pegar o primeiro voo para qualquer lugar.

quinta-feira, outubro 19, 2017

Alvorecer solar




todas as gerações tinham ido adiante a própria poeira se foi
nada de síndrome do ninho vazio nem ditado da boiada pelo boi
estas marcas de expressões se escondem até dos olhos o tempo jo soy
el viejo estoy apenas na idade minhas emoções são uma eternidade

da cidade nada mais quero se pareço velho esqueço a aparência espero
desfaço cleros derrubo tetos queimo o presbitério com a legião de rugas
rusgas desintegro minha religião é a liberdade de viajar com minha felicidade a domar

troco minha experiência por goles de dignidade mordidas de respeito
sou sujeito solto sem ser aquele sentado clichê idoso na praça a jogar

meu ar é rarefeito na gravidade do meu próprio sistema solar para puxar meu querer para o realizar.


+ Rafael Belo, às 10h01, quinta-feira, 19 de outubro de 2017 +

quarta-feira, outubro 18, 2017

Maldita frase (miniconto)




por Rafael Belo

Até então, ela não tinha se dado conta da idade. Já era idosa há tempos, mas tudo o que faziam ao seu redor era exaltar a beleza e juventude ainda nela. Só vinham e iam com os típicos “não parece”, “não acredito”, “é verdade?”, mas ainda não tinham chegado ao fatídico: “Quero chegar assim na tua idade, mas não sei se quero ficar velha”... Isso mudaria em pouco tempo. Naquele dia ela tirou as selfies que aprendera a tirar e postar no status do whats, no snapgram e no snap do face, “chocando” os mais jovens...

Não falava de rolês, mas procurava entender. Beirando os 70 anos parecendo 50 ela estava satisfeita com ela mesma, vivia sozinha e lidava bem com a depressão, mas naquele dia não conseguiu acionar o Uber, não conseguiu carona e não teve coragem de ir no carro dela. Queria economizar e, sob o sol do deserto daquela cidade pegando fogo, foi para o ponto. Não queria mexer no celular para não ser assaltada porque ouvira tantos casos... Mas, queria conversar com alguém, então entrou na loja próxima ao ponto, confirmou os horários e quase perdeu o ônibus...

Mas, conseguiu correr com dificuldade atrás do ônibus, fazer aquelas brincadeiras que só quem já viveu de tudo nessa vida não se importa em fazer e sentou (até parece!)... Não! Ela não sentou nem iria sentar. Os olhares no ônibus de focados nela passaram a total ignorância. Ela se tornou invisível instantaneamente. Fingiu não reparar e foi dando indiretas, mas nesta época tecnológica ao extremo, fone de ouvido é item obrigatório como o sono pesado repentino até daqueles sentados em assentos prioritários e poderiam muito bem estar em pé.

De pé e com dores ficou ela. Tentou não ficar com raiva e tagarelava sozinha enquanto centenas de olhos circulavam para todos os lugares onde ela não estava e as bocas se contorciam contrariadas e entediadas. Histórias foram perdidas e resmungos evitados, mas quando o motorista, também de fones, freou bruscamente tarde demais atropelando um gato em fuga que corria de vários cachorros... Todos foram arremessados para a frente do ônibus e o impacto foi dobrado porque quem vinha dirigindo atrás estava tão colado que não viu a luz de freio levantando, assim, a traseira do ônibus. Nem quem estava sentado se segurou...


O ônibus ficou parecendo um pacote de últimas bolachas quebradas e quem ficou – sabe se lá como – por baixo de todos foi a idosa. O remorso foi geral até daqueles tentando não ter nada a ver com a situação. Com a vasta experiência, a idosa sabia fazer um drama, sabia conseguir o que queria e teve sua vingança. Foi mentalmente para a praia semi-selvagem onde gostaria de estar enquanto fingia estar morta e não achou estar pegando pesado até porque - depois de todos questionarem se ela estava morta - acabara de ouvir a maldita frase: “Quero chegar assim na idade dela, mas não sei se quero ficar velha”. 

terça-feira, outubro 17, 2017

Sou gente




quem olha de volta do espelho inteiro enrugado
marcado rosto desta montanha de pele empilhada
a voz está velha a orelha dobrada tudo vai tão devagar
enquanto envelheço sou aquilo que esqueço no tempo passado

já não sou o velho da história irritado nem o avô bonzinho amado
sou indigente parado na fila um encosto para o jovem apressado
uma carga avulsa no ônibus lotado equilibrado nas dores acuado

meu nariz não é meu vive vermelho me sinto o próprio palhaço
espaço desocupado da previdência onde fingem tomar providências

aposento a aparência levo as mãos ao rosto da paciência choro pelo presente inexperiênte tentando gritar... O quanto sou gente.


+ Às 08h42, Rafael Belo, terça-feira, 17 de outubro de 2017 +

segunda-feira, outubro 16, 2017

Envelhecer




por Rafael Belo

Envelhecer é complexo. Não pela idade em si, mas pelo abandono. Você já esteve em um asilo? É triste ver pessoas com uma longa trajetória na vida terminarem ali totalmente carentes e solitárias. Não importa a qualidade do lugar e das pessoas ainda se parece com um depósito de gente. Há lares para idosos com hotéis onde é possível deixar aquele patriarca ou aquela matriarca hospedado enquanto a família vai viajar? Você acredita? Parece não haver dignidade depois da aposentadoria...

Mas, pode ser pior em casa quando se depende de terceiros, quando há maus-tratos, quando o idoso é impossibilitado de fazer qualquer coisa por lesão, deficiência ou limitação da idade. Pode estar tudo na mente, mas qual mente se mantém sã sem incentivos, tratada como um animal de estimação? Abençoados àqueles capazes de serem independentes, àqueles se superando diariamente... Eu convivi com três dos meus avós e pude ouvir e testemunhar a força deles, beber de fonte da experiência, principalmente da minha avó materna um dos principais motivos de eu ter vindo para Campo Grande.

São humanos, óbvio. Nem tudo eram flores. Mas, como se diz ela era uma velhinha porreta que fazia o que bem queria quando queria... Era independente de todas as formas, não precisava pegar ônibus e viajava muito. Animada que era também era turrona. Hoje vejo o desgaste da minha mãe. Tantas coisas ficaram no caminho e querendo ou não ela está sozinha. Não pode ter a mobilidade desejada, mas é muito parecida com minha avó. As preferências já não são suficientes porque não há respeito. O idoso fica horas em pé quando não pode, fica pendurado no ônibus enquanto pessoas mais jovens e mais saudáveis fingem estar tudo bem.


As pessoas sempre tiveram medo de envelhecer e agem como se fosse uma doença ou nem existisse. Não adianta negar. Os idosos são ignorados o máximo possível, os cabelos brancos são arrancados, pintados, as plásticas são divididas no cartão, oferecidas pelo SUS e a indústria cosmética corre contra o tempo para criar antirrugas, antimarcas, colágeno e tudo para retardar o envelhecimento, mas ele chega. A síndrome de Peter Pan pode nunca ser curada, a idade pode ser para sempre negada, a aparência pode ter manutenção diária, mas a velhice vai bater na nossa porta, tocar campainha, interfone, até ter a chave e entrar. Aceite, se respeite, respeite o próximo, curta quem você é e jamais deixe de respeitar os mais velhos. Ah, não esqueça: Todos vamos envelhecer.

sexta-feira, outubro 13, 2017

Amanhã... (miniconto)





por Rafael Belo

Chove lá fora torrencialmente e aqui dentro está tão quente que eu queria reclamar, mas não. Não quero chamar atenção pelos detalhes errados em mim. Não vou desabafar. Não vou fazer textões. Chega disso. Quero mais é deixar para trás. Tudo. Fique tudo lá atrás e não me persiga mais. Quero me livrar deste eu sem encaixe aqui dentro de mim. Precisamos de tão pouco para ser feliz, mas eu gostava dos meus mimimis. Tinham tanto... Tanto reconhecimento sabe?! Era uma repercussão fenomenal. Eu era a rainha dos rolês. Todo mundo colava em mim, mas era tudo falso, né?! Eles só concordavam...

Quero reflexões, puxões de orelha... Pelo Amor! Eu sou dessas!! Demorei pra descobrir? Talvez, mas sou... Ninguém me conhecia de verdade. Mas, a sensação de pseudocelebridade é ótima sem quaisquer responsabilidades. Estes julgamentos constantes me constrangem. Preciso descobrir de qual geração eu sou. Ainda estou perdida, não a geração. Uma geração não se perde, não é?! São os indivíduos que não sabem onde estão, para onde vão e somente existem. Vão existindo, ocupando espaço e, às vezes, nem isso.

Sinto-me uma fuçadora de perfis. Vasculhando, vasculhando... Mas, o que? Tirando pessoas como estou deixando de ser, ninguém fala coisas ruins, nenhum ser fala coisas negativas, posta foto feia se não for tendência, se não for dar audiência, se não for aquilo que quer mostrar. É pra acabar mesmo. Eu bodo com essas coisas. Fico putaça, aí penso: pra quê?! Quero descobrir do que eu fujo, ao invés de bodar. Quero ser meu próprio romance, ao invés de enrolar, joga e jogar e jogar... Ah, vai. Um joguinho dá um UP, dá não? Bem de leve?!

Mas, enfim... Se eu quero mesmo porque não faço? PQP! Por que a gente é assim?! Ah, “Mais uma dose” de Cazuza... “Mais uma dose é claro que eu tô afim. A noite nunca tem fim por que a gente é assim?” Sábio Cazuza viveu e morreu intensamente... Tem gente que o detesta e quem o endeusa. Quer saber?! EU sou minha própria deusa e quero ser a causa da minha morte, não outra pessoa, por isso, vou viver. Não vai resolver eu sair de todas as redes sociais porque só fortalece minha fraqueza. Vou continuar só vou mudar minha atitude. Minha mente é forte e eu vou começar já... Ei! Olha só... Posso começar amanhã?! 

quinta-feira, outubro 12, 2017

pensando músculo





arrepia o metal arranhado na pele fria esburacada
foi só o susto das balas não atiradas dos vermes ainda em gestação
sem saber sobre quem virão qual ser serão ao nascer
a saliva cessa morrem as palavras ao ficarem no passado do tecer

fiam-se fios fabulosos de onde nem linha havia
o tecido da realidade se rasga na maior euforia
bicho-da-seda se renova quando percebe o dia

no chão tudo está misturado até as tecidas asas levarem a língua
lavada à mingua tirando do ar respiro junto com o invísivel deitado neste pulmão
movimento de pulsação expulsa repulsa a afirmação de sermos espasmos dos músculos da imaginação.


+ Às 14h37, Rafael Belo, terça-feira, 10 de outubro de 2017 +

quarta-feira, outubro 11, 2017

Só eu o tenho (miniconto)





por Rafael Belo

Línguas irmãs não se falam preferem o metal ao doce. Diálogos são baladares das ovelhas. Os rebanhos estão soltos nos posts e ao invés de banhos de saliva é sangue escorrendo. Estou morrendo pela boca ou estou muito louca nesta hora do rolê. Será que vou lembrar-me de tudo que eu escrever. Talvez se eu continuar a rimar algo dê... Chegou a tempestade sem umidade, sem água, sem chuva, nem nuvens e eu preciso publicar este sentimento só meu.

Já editei tantas vezes, publiquei outras tantas, ocultei inúmeras vezes e ainda assim hesito - sem êxito - quando quero excluir. Pessoas achando que vou me matar ou matar alguém, pedindo calma, se reconhecendo, tenho piedade, dando pena, me xingando e os haters. Não é nada diferente. Já li coisas parecidas e já postei coisas iguais. Eu sei o que estou fazendo. Não é nada inconsciente. No meu caso, eu preciso de atenção. Planejo tudo do meu jeito. Passo horas nesta imersão. Só peço seu sacrifício e de alguém que queira sacrificar. Não importa! É só dedicar a mim.

Entenda, é minha diversão. Não é por mal. Gosto de ir aos rolês (todos) e causar, mas é difícil chamar a mesma atenção... Entende? Parece que já vivi coisas melhores e nada de bom virá. Por que só eu não posso reclamar? Todo mundo reclama como se fosse um mural da fama twitter e face... Aliás, qual a palavra mesmo? Ah, lástimas. Mural de lástimas. E daí se sou drástica, dramática, performática, não estou roubando ninguém. Só quero parar o tempo para pensar... Não! Péra! Não quero pensar, pois aí sou obrigada a perceber...


Curtidas, comentários, reações... Sou uma deusa e esta é a devoção que me mantém viva. Curtam, curtam, curtam, reajam, reajam, reajam, comentem, comentem, comentem, espalhem, espalhem, espalhem... Ainda me chamam Afrodite e este é o amor para mim hoje. Amo mobiles e a capacidade de distração e imersão das pessoas nestas tecnologias. Esvaziem suas vidas e preencham a minha. Eu tenho todo o tempo do mundo, mas só eu o tenho.

terça-feira, outubro 10, 2017

(re)pulso





desfia-se desfiles de fios solares na dó não sentida nem entoada
a pena apenas paira não se sente mais vai devagar subindo na rede
postada jaz deitada reluzindo alguma coisa qualquer no mal-me-quer
balança entre sopro e outro talvez no jogo ou realmente consolo da dor

há sangue na tela nos dedos na língua sem nenhum homicídio cometido
é ferida aberta voluntariada na atração voltada para o um dia vivido
repetido em detalhes omitidos pelo erro do outro pela perseguição

tocada visão embaçada forçadas lágrimas idolatradas pela invocação
faca cega na mão solitária coletiva emotiva no suicídio da resignação

se não for agora é perdição eterna pululando na tela em acelerada pulsação.


+às 09h13, Rafael Belo, terça-feira, 10 de outubro de 2017+

segunda-feira, outubro 09, 2017

Daqui para frente




por Rafael Belo


Eu vivo me lembrando de Toni Garrido e daquela música da Cidade Negra que diz “você não sabe o quanto caminhei pra chegar até aqui"... Sei que continua aí na sua mente se já a ouviu. Minha lembrança é simplesmente pela necessidade vital das pessoas de contarem o quanto é difícil ser elas, tudo que passaram para chegar até onde chegaram e desta forma exaltam as próprias mazelas, dificuldades e etecétera. Comparam com fulano e ciclano e beltrano, falam da máquina, da sorte e esquecem-se do principal: que chegaram até aqui.

Chegaram e, portanto, tem uma nova oportunidade para não repetir e acabar exaltando as mazelas... A dor, o sofrimento, as marcas, as angústias, os “fracassos” se tornam mais importantes a vitória em si, a conquista adquirida e como está tua vida? Todo mundo passa por coisas ruins. Não é exclusividade de ninguém um coração partido várias vezes, decepções, desilusões, dívidas, mortes, tristezas, erros... São degraus de uma escada que enquanto não aprendermos a subir – e descer - ficaremos parados e passando novamente pelo caminho das pedras.

É um reviver constante do que foi. Há uma espera de compaixão, reconhecimento, curtidas, pedido de ajuda, mimimis, holofotes? Não sei. Qualquer coisa dita é especulação. Cada um tem sua motivação e se a exposição lhe cai bem... Ou se a intenção é uma Indireta direta de direita para nocautear no momento desabafo e dizer exatamente “você não sabe o quanto eu caminhei pra chegar até aqui”... Esta música, “A Estrada”, fala de esforço, de amor, de companheirismo, de fé, de sacrifício, de solução e de mudança sem nenhum lamento.


Então, fico pensando como você age se algo te incomoda... Você é um ditado popular? É uma interpretação? Vamos juntar os dois. Há diversos tipos de ditados populares, falas motivacionais e coisas parecidas apontando a necessidade de não esquecermos nossas origens, mas não entendo isso de forma literal. Vejo mais como um existencialismo. Viemos ao mundo sem nada não importa em qual família nem lugar. Há humildade neste nascer, neste aprendizado constante e curiosidade necessária para não ficarmos acomodados, reclamando, falando mal e julgando até alguém nos ouvir. A gente quer ter razão, mas é só emoção e um monte de desculpas que temos. Vamos seguir nossa própria estrada, de preferência, a construindo daqui para frente.

sexta-feira, outubro 06, 2017

A tempestade não parou (miniconto)





por Rafael Belo

Ninguém conseguia falar nada. Ou era a comprovação visual e audível de um milagre ou só as mídias digitais sabiam quais eram as opiniões. Quais seriam as novas velhas divisões a se formarem de um novo Marco Zero nem se formulou como pergunta. Não havia inquietação nem burburinho. Só o silêncio. Nenhum questionamento surgiu. A polícia não a prendeu por atentado ao pudor. Sei ser incrível, mas ninguém se horrorizou acredite. Este foi o dia profetizado por Raul Seixas, mas ninguém tocou Raul. Só a Terra parou mesmo.

Foi neste dia. O dia em a que a Terra parou. Só eu lembro até agora... Acordei com o ímpeto de acabar com toda essa palhaçada e sei lá... Só comecei a juntar roupas, peças íntimas, calçados e carreguei aos poucos até a praça central. Não sabia ser possível ter tantas roupas e insistir não ter... Nova nunca tem. Repetida sempre... O dia começou a silenciar. Era uma sexta-feira. Outras pessoas simplesmente começaram a me imitar... a pilha cresceu... Parecia com nossa expressão para os poderes: uma trouxa imensa...

Nem fui eu a responsável pelo álcool. Juro! Procure... Deixa quieto. Não vai achar. Esqueça. Só pode acreditar em mim ou não. Enfim, o rolê ficou mais tenso sem tensão nenhuma porque o fogo também não fui eu quem iniciei. Sou responsável apenas por começar a levar roupas e de subitamente me despir com tanta naturalidade a ponto de todos fazerem o mesmo. Procurei não me assustar com esta força tamanha... Este movimento nudista sem razão. Nudista da emoção? Bem, tudo realmente estava parado quando a multidão se aproximou daquilo a representando: uma imensa trouxa.


Será impossível... Aliás, seria impossível dizer quem jogou o isqueiro aceso... Mas, naquele momento parecíamos estar no meio de uma escuridão densa e, metamorfoseados em insetos, corrêssemos em direção a uma lâmpada. O calor começou a chamuscar pelos e peles. Aquele odor de humano queimado aliado ao suor fez as pessoas se afastarem, porém só até um ponto onde o calor não as abrasava. Todos nus sem perceber. Então, houve um clarão e um temporal começou. A tempestade não parou até agora.

quinta-feira, outubro 05, 2017

estoque




correndo no asfalto salto despido buracos fabricados instantaneamente
esfolo meu corpo ralando meu peito profundamente visto a mente
meu apelido é explícito nesta pornográfica corrupção indecente

tudo é aparente raso nos olhares sem profundo
afundo na superfície como um abuso absoluto
luto para desafogar de tanta gente no altar
exaltar sou insano profano manto rasgado sob o zelo sagrado

há um estralo estalo no cheiro do ralo do banheiro
tomo banho de roupas trouxas estou nu por inteiro

sacode meu corpo explode o torto toque tocado nesta nudez vestida de olhar.


+ às 10h37, Rafael Belo, quinta-feira, 05 de outubro de 2017 +

quarta-feira, outubro 04, 2017

Paro de pensar (miniconto)






Por Rafael Belo

Eu viajei. Estou longe para ver se me livro de tantos eus me expondo na exposição diária. Ontem, até ri da piada do idoso mostrando seu genital para crianças na praça e disseram que, se fosse em um museu, a arte valeria milhões... Hoje não rio mais. Estou transbordando posicionamentos favoráveis, contra e o que eu quero é não pensar. Mas, isso tanto me incomoda. Arte não é só coisa bonitinha é transgressão, choque, fomento, reflexão e incômodo. Ah, mas criança com o tal do nu artístico lá no museu... Sei lá...

Pedofilia? Incentivo? Arte? Quanto à criança entende? Prefiro não pensar. Estou soterrada de mim aqui, mas há uma paisagem refletindo do meu ser. Você também vê? Mas essa sou eu ou é você? Quem sabe seja eu te saudando e você me saudando de volta... Não sou hipócrita já choquei bastante, me libertei desta vida vulgar há muito tempo... Mas, tudo cansa e vim aqui descansar... De mim.  Deixar-me aqui um pouco. Absorvo muitos socos agora, mais do que desferí-los ensandecida.

Neste lugar virgem eu me pertenço mais. Não tenho que me preocupar com pudores, atentados ao pudor, com convenções sociais... Sou bem mais eu em qualquer parte. A naturalização dos corpos não combina com nossa sociedade pseudo-livre porque ninguém é ensinado a nada a não ser conquistar postos, cargos, carros, casas, esposas, maridos... E a se descobrir? Nada. Será que só eu penso assim? Não quero ninguém pensando igual, gosto de estar perto do diferente... No entanto, a linha é tão tênue tensa como a mais aguda das cordas da execução clássica de um violino.


Ao som da natureza neste lugar onde só eu estou, tenho tanto calor e despudor que não consigo enxergar a fragilidade ou a tal vulgaridade da nudez. Nada é permanente. Alguém entende isso? Provocar é obrigar a pensar, a enxergar...? Eu me obrigo sempre e este é meu abrigo. Chego aqui e me adentro na mata selvagem. Escalo, nado, abro espaço para chegar... Vejo a graça só quando é difícil chegar e o valor vem em cada passo. Agora danço com o vento me desfazendo, refazendo... Escoteira faço fogueira com pedras e galhos. Queimo roupas íntimas, agasalhos e sem querer a pele... Ou melhor, só o cheiro de pelo queimado, quase um susto com a fumacinha subindo para a lua a uma ínfima fatia de ficar cheia. Deito entre a praia e a mata a olhando. Então, paro de pensar.

terça-feira, outubro 03, 2017

degradantes



as roupas estão espalhadas pelo furacão do corpo
a vergonha exposta como amostra grátis do julgamento
mente confinada no confinamento parte da contravenção
sem flagrante quando o degradante ganha holofotes da televisão

carne fraca oculta na desculpa de uma excitação descontrolada
a quem servem leis raciocínios do homo sapiens se animais são as bestas que controlam a pele desabitada?
desejo latente se corta com atos coerentes da sociedade totalmente segmentada

há tantas lâminas afiadas na naturalização dos corpos cortando todos
na nudez desafiada incentivada o gume da exposição vive na indecisão se é tabu ou não

estamos sangrando até nos esvair quem estamos criando qual legado estamos deixando na população criminosa a qual juntos vamos cair?


+Rafael Belo, às 08h43, terça-feira, 03 de outubro de 2017+

segunda-feira, outubro 02, 2017

Naturalização dos corpos



por Rafael Belo

A nudez é o mais natural da natureza. Os pudores não estão nos genitais livres, nos peitos expostos e sim na criação, na moralização, na ação do ser humano na sexualização de tudo. Cabe na conduta dos pais entender o momento de expor os filhos porque a liberação geral não faz parte da vida de quem ainda esta se formando. Queimar etapas no nosso crescimento causa lapsos de total perdição no futuro imediato - fora os traumas. Quem aqui não foi proibido de ver desenhos, programas de tevê, novelas, filmes, pessoas... Porque os pais ou responsáveis consideravam impróprio ou inadequado? Nem tudo é permitido para nós adultos quem dirá para a infância e puberdade.

Liberalismo infantil não é inadequado para você? Impróprio ou próprio não cabe só aos pais porque nem todo mundo tem bom senso... Além disso, estamos em um mundo onde existe a "moda" grotesca dos ejaculadores que não fica distante dos abusos sexuais que, finalmente, começaram a ser revelados no meio da dança, por exemplo. Então, é óbvio que a naturalização dos corpos é um tema frágil, delicado quando se afirma que ela nos foi revogada quando os colonizadores chegaram catequizando, escravizando e matando os índios em todo o mundo por terra, por um pedaço de espaço. Por isso, dizer: "imagina um índio dizendo para outro: vai colocar uma roupa que está tua nudez vai provocar os tarados de plantão e você será abusado sexualmente" está distante da nossa realidade. Eles nem sabiam o que eram roupas... Coisas culturais e tal... Claro, que o comportamento sexual da falta de senso sobre praticar sexo parental e com crianças não pode mais ser considerado cultural e é outro tipo de absurdo.

Os colonizados eram libertos sexualmente, estupravam índios e semelhantes, mas os indígenas não estavam longe disso. Não havia limites para o sexo. Era traição, incesto, orgias sem fim e o problema é a nudez? A nudez será um tabu até quando? Ninguém é obrigado a tocar, a ver, a estar presente em qualquer tipo de situação onde há um corpo nu ou cenas consideradas chocantes pelo conservadorismo corrupto e seletivo da nossa sociedade.  Assim como é praticar o contrassenso pedir para uma criança tocar o órgão sexual de um adulto e dizer ser natural. Desde quando vamos onde não queremos ir? Desde quando falamos sobre o que não queremos falar (talvez este também seja o problema)? Somos Adoradores de opinião - principalmente igual a nossa - e de sair moralizando por aí quando nem cuidamos da nossa vida e da vida e do comportamento dos nossos filhos. As roupas foram inventadas para proteger nosso corpo e não para evitar vermos o corpo do outro, mas nestes tempos tão modernos até nisso há de se pensar. Escondendo o natural é que se criou a cobiça, o desejo, a curiosidade...

O desejo pelo outro, pelo não visto, pelo escondido, pelo proibido, pelo não conversado… De onde vem? Não seria da proibição e dos ensinamentos paternos/maternos diferenciando homens e mulheres na criação? Incentivando um a ser recatado, obediente e o outro “promíscuo” e pegar o que quer quando quer? Ou seria o modo de se vestir? Ou como se comportar? Ou seriam as músicas? Ou a televisão? Ou a arte? Para chocar, para pensar, não para agradar… Você acha que os pais ou responsáveis não deveriam ter controle sobre os filhos? Na nossa realidade social quase todos os casos de abuso infantil e de adolescentes começa no lúdico com parentes próximos, amigos íntimos utilizando o papel de autoridade manipulando a culpa junto com ser normal este abuso e quando a arte utiliza crianças para se expressar não está facilitando o papel do abusador?

Nossa hipocrisia condensa tabus criando orgias de adoração ao dinheiro, ao poder, a posse, ao esbanjar e retrai o empoderamento colocando a nudez como exposição da vergonha criando padrões de corpos “perfeitos” e imperfeitos, de coisas ideais e rejeitadas… Mas, a delicadeza da naturalização do nu não pode ser uma via de argumento para um "tio" qualquer violar toda a vida de uma criança, de um adolescente deixando marcas psicológicas indeléveis... Quem sabe se renascermos em outra religião – em outra região, outro continente - venhamos de roupa e lá possamos parar de erotizar quaisquer coisas, quaisquer atos e possamos de fato dialogar para saber a opinião desde uma criança até um septuagenário sobre o que querem e o que pensam. Porém, não podemos ser hipócritas e confundir livre-arbítrio com poder fazer tudo porque assim chegamos onde hoje estamos e olhe bem ao redor.

sexta-feira, setembro 29, 2017

Minha vida começa aqui (miniconto)





por Rafael Belo

Corri contra o tempo até o fazer correr comigo neste conflito dele ser eu. Eu sou o próprio inimigo. Minha inimiga sou eu. Então, pensar em vencer a si mesma diariamente e lutar contra o tempo tem o significado igual. Foi um achado esta reflexão. Cheguei mais rápido no fim. Vi desvios, atalhos e os ignorei. Ajeitei minhas horas minuto a minuto e fui atrás do próximo começo. Esqueço-me de outros recomeços só me importando com o agora.

No primeiro tropeço retirei a poeira e me ajeitei. Endireitei meu corpo. Encaixei-me toda. Suspirei todas as dores para irem embora de vez. Rejeitei novas histórias mal resolvidas e bem resolvida dei o primeiro passo equilibrado. Agora estou firme caminhando minhas selvagens trilhas ainda não desbravadas. Não uso o tempo mais para nada. Estou tentando coisas nuncas antes tentadas por mim.

Corro todos os dias para minha alegria. É uma liberdade fazer o vento beijar meu rosto. Vim sozinha nesta trilha arriscada intrigada em ver a vida como ela é. Estou fascinada por descobrir eu ser a maré e a lua, a praia e o mar, a pele nua eriçada para se entregar. Claro. Já dei muita cabeçada, mas com as mãos transplantadas não tenho mais dedo podre e volto a ser livre para escolher minha jornada.


Daqui de cima vejo a estrada. Valeu à pena subir até aqui. Estava lá esperando o tempo todo algo sempre vivo dentro de mim. Ainda dou minhas cabeçadas e ainda as darei, mas pulo de cabeça porque sei nadar e não vou mais me partir por coisa pouca ou muita coisa. Aprendi a sorrir por quem eu sou. Mergulho no meu néctar, me afogo na minha alma e sou minha melhor amante em todos os instantes. Giro 180 graus. Não vou descer por onde subi. Desço o outro lado da montanha. Minha vida começa aqui.

quinta-feira, setembro 28, 2017

sem parar





o tempo sentou ao meu lado no minuto marcado
fez um contratempo bateu palmas empolgado
virou meu rosto para o espelho e só havia eu

parado de joelhos eu era ele naquele olhar intenso

me ajeito penso me endireito levanto nada mais é tenso
me compenso enquanto me encaixo sou tempo espaço
um laço entrelaçado com outro no toldo rasgado imenso

ouço o vento assobiar no meu ouvido o motivo da gente passar
é que em cada lugar a gente vai mas fica como um estrela sem se apagar

jeito gentil de iluminar ajeitando quintais com o nosso diferencial somar

dois por um a gente dança sem deixar a vida parar.


+às 00h23, Rafael Belo, quinta-feira, 27 de setembro de 2017+

quarta-feira, setembro 27, 2017

Quanto tempo (miniconto)






por Rafael Belo


Eu vivo esperando meu tempo chegar, mas ele não vem. Sou dessas mulheres livres, únicas tipo Elis. Mas, ando coberta pela minha própria poeira e pela sujeira espalhada por mim por aí. Minha intuição me trouxe até o Monumento do Relógio, este obelisco falso da cidade. Digo isso porque ele realmente não é o original. Este foi demolido e não passa de uma réplica. Pensando assim, assim me senti. Mera réplica de mim.

Sentada aqui me imitando, repetindo todo meu feito sem querer perceber. Não aceito, mas nem sempre noto. Quando me ajeito, saboto... Este é meu defeito... Claro, o sujeito escolhido para fazer manutenção do meu coração, também ajuda pouco.  Aí venho aqui sozinha como se fosse um rolê, mas não... Chego já bodada com vontade de ir pra casa sem perder tempo. Então, penso de novo enquanto desovo nas horas minha agonia no meio do povo passando...

Estou me adiantando, mas me sinto atrasada. Nem sei se estou presente, ajeitada... Preferia não achar nada e seguir a manada. Este deve ser o melhor efeito desta droga parecida com democracia. Seguir entorpecida sem pensar na vida... Esta quase democracia parece meu quase livre-arbítrio... Só tem nome e eu nem sei usar. Alguém aí tem manual de instrução? Aponta uma direção para eu tentar, vai? Esquece tudo. Eu não disse nada. Nem sou parecida com ninguém...


Sou eu mesma mesmo perdida no tempo até porque eu sou este tempo, não é? Alguém pode confirmar? Produção!? Não?! Estou sozinha mesmo. Cantarolando “Toda Forma de Poder”... “Se tudo passa talvez você passe por aqui e me faça esquecer tudo que eu fiz...”. Mas, agora não tenho forças para sair do talvez. Não sei se passa, se você passa... Sei da minha passagem e mesmo assim sigo em dúvida. Aqui, no Monumento do Relógio, vou esperar mais um tempo pensando em quanto tempo tenho e se tudo vai se ajeitar se eu só esperar.

terça-feira, setembro 26, 2017

Crateras



no meio do decorrer o tempo para no meio
alheio a quaisquer importâncias voando a esperança do avesso
ajeito o corpo endireito o rosto parando de inclinar no sossego
descubro que o tempo não pára paramos nós a espera

aquele círculo perfeito era imaginação não há redonda esfera
quem dera tantas feras bestiais ficassem de fora da verdadeira selva
a relva se enche de orvalho ainda assim o tempo esta seco fosco Cinderela

tantos sapatinhos de cristais em covas rasas e crateras
buracos no qual sentamos esperando nosso tempo chegar

ali parados todos os significados achados a esperar se perdem ficamos para trás neste todo breve.


+às 10h45, Rafael Belo, quinta-feira, 26 de setembro de 2017+

segunda-feira, setembro 25, 2017

Sobre o tempo e o ajeitar




por Rafael Belo

Sempre ouvi frases como “tudo ao seu tempo”, “não é hora para isso”, “com o tempo a gente aprende” e, entre inúmeras, a mais famosa: “o tempo cura tudo”. Mas, desde quando me lembro sou - não vou dizer o 'tipo’ de pessoa e colocar todo mundo em uma caixinha de rótulos devidamente etiquetada - de fazer as coisas à minha maneira e se alguém mandava - manda - eu fazer algo que já ia fazer… Eu não faço. Sobre o tempo e o ajeitar das coisas não penso diferente. O tempo não vai ajeitar as coisas pra você, pra mim nem pra ninguém.

Eu vejo pessoas há anos naquela rotina tediosa, repetitiva, exaustiva e – às vezes estão felizes – não vejo felicidade alguma naquilo, neles... Pode ser a única opção, mas não acredito nisso... Tenho o costume de voltar aos lugares onde morei, vou às empresas onde trabalhei e visito àqueles que passaram pela minha vida. Fico surpreso com muitos ainda pensarem e agirem da mesma forma, trabalharem no mesmo lugar, dizerem as mesmas coisas, morarem na casa exatamente como me lembrava… É um choque ver como o tempo só trouxe calos, rugas e experiência.

Não me entendam mal… Estou apenas querendo dizer: nada mudou. Não é o tempo responsável por ajeitar as coisas, nem nossas experiências e marcas. É como lidamos com tudo isso, nossas relações, nossas reações, nossa absorção, nossa absolvição e como usamos o conhecimento da nossa vida. Talvez você seja de reclamar, de ver só coisas negativas e achar que os outros são muito chatos, lerdos ou só atrapalham... Bem isso é um desperdício completo, mas não venha dizer estar perdendo tempo. A gente não desperdiça ou perde o tempo porque nem é possível guardá-lo quem dirá o acumular. Desperdiçamos nós mesmos.


Eu olho para o tempo passando no meu pulso, no microondas, no celular, no rádio e na televisão nenhum mostra o mesmo horário. Estão ou atrasados ou adiantados. Deveria eu os ajustar, os ajeitar porque eu faço o meu tempo. Eu lido com os meus problemas e cotidiano como escolho lidar. Eu dou as prioridades… Eu me ajeito quando eu entender como cheguei até aqui ou é tudo ilusão. Se é longe se é perto, demorado ou ligeiro se é errado ou certo depende do meu tempo e do meu jeito. O tempo não significa nada sem nós porque somos nós que damos significado ao tempo. 

sexta-feira, setembro 22, 2017

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por Rafael Belo

Meu coração já não se parte mais. As pessoas não me decepcionam mais. Se eu me apaixono e desapaixono? Claro, mas nunca desamo. Hoje, meu coração tem toda razão e é um músculo forte. Já fui do Centro, do Leste, Oeste, do Sul e do Norte... Hoje só navego. Mas, não me considero a navegante. Às vezes, nem levanto a vela... Vou pelo ondular das águas... Assim, sempre volto para o mar. Aqui estou mais uma vez. Pensando, me renovando com o coração inteiro. Não o entrego mais, apesar de ser entrega sempre.

Sabe, eu até tento me apaixonar, mas vejo ser tudo ilusão minha. Acaba logo como chama de vela pequena... Todas as minhas celas eu arranquei as barras uma por uma e estou livre, mas mesmo assim sofro da síndrome da pata presa. Sou aquele elefante cheio de memória e experiência, mas como passou a vida preso pelo tornozelo não faz ideia da força que tem, nem que esta é suficiente para derrubar a árvore. Nada é capaz de nos prender além da manipulação e do condicionamento.

O sofrimento não me pertence mais. Já fui mulher capaz de entregar o coração para o outro pensar eu ser dele. Sou só de mim mesma e olhe lá. Cada rolê que vou não tenho paz para sequer dizer não, mas o digo e não permito um sem noção nenenzão tirar minha paz. Demorei demais para conquistá-la... Às vezes a gente trava... Desculpe só posso falar por mim, não é, não? Às vezes eu travo. Isso só pode significar que eu não estou pronta... Não quero forçar nada antes de me sentir bem comigo mesma, por isso, estou aqui. Meu corpo é minha igreja e este navegar minha oração.


Não gosto de sutilezas ou jogos. Não enrolo. Sério! Só não sei ainda diferenciar gentileza de interesse, mas o fato é que não estou interessada. Sorrio sim por nada. Nada do seu interesse... Eu venho para cá em mais uma jornada em busca do novo eu. Posso ser encontrada em qualquer lugar barulhento ou não, mas quero ter esta sensação de não pertencimento, de encolhimento e imensidão diante da Natureza. Distanciamento é bom, então me deixe só agora. Respeite-me! Vá embora, afinal você precisa se encontrar também.