quarta-feira, maio 31, 2017

quando ele se perde (miniconto)



por Rafael Belo

O inverno não veio de repente. Aos poucos o céu azul estava cinza e então chumbo. Pesado e denso como as coisas palpáveis deste tempo. Casacos e adereços de frio ainda estavam perdidos em algum lugar do guarda-roupa, portanto, seria um dia de tremer e reclamar de Campo Grande sendo Campo Grande. Mas, Eu, Dayni falo dos caldos, dos vinhos, da quantidade de roupa possível de usar nesta estação, da quantidade de casacos e cobertores arrecadados para impedir a morte por hipotermia de moradores de rua ou doenças para quem não tem como se esquentar. Até me bagunçarem toda.

Virei falsa para alguns, para outros chata, ainda têm aqueles me atacando, me questionando e eu... Bem, eu rio, gargalho, queda d’água, cascata, cachoeira, afinal não vou me preocupar, me importar, vou pelo contrário: desimportar. Aliás, é interessante como os norte-americanos traduzem esta nossa palavra: de-strees. Eu vejo bem isso: sem estresse. Ah, não. Não vou permitir inventar problemas. Não vou colaborar com ruindades e maledicências. Sou perfeitamente decente e capaz de continuar. Tenho todos os meus membros intactos e ainda posso chorar e gritar.  Mas, estou aqui toda bagunçada. Não falo da aparência e sim do meu interior ou aquele quem ele foi.

Tudo depois de um buraco. Humm... Ok! Dezenas deles. Saia de um entrava em outro, saia de um entrava em outro e assim foi até... Bem, eu ia explodir uma hora ou outra e explodi. Bem O Rappa, sabe. Mas, não consegui recolher meus pedaços todos viram e na voracidade de dizerem estarem certos sobre o julgamento sobre mim, as mãos estendidas não me alcançaram e eu cai. Senti todo o frio do inverno recém-chegado. Cada grau diminuindo furava minha pele. Minhas costas pareciam nuas e obviamente eu gritei. Como qualquer mulher faria. Não, perdoem amigas feministas. Como qualquer pessoa faria. Lembrem da minha bagunça...


Eu neguei meu orgulho, porém não só o carregava, mas o incentivava com todo ar quente sem nem perceber a altura dele. Bem, minha né?! Eu estava lá no alto cheia de falsa modéstia fingindo não reclamar das pessoas reclamando... bagunçada feito rio recebendo esgoto de toda bagunça da cidade. Aí - de verdade -  relaxei. Joguei as armas fora com aquele tilintar de aço no chão junto com minhas armaduras. Acreditem! Eu sorri! Não aqueles sorrisos irônicos, sarcásticos e falsos, mas sinceramente. Eu sorri para mim. Disse a mim mesma: Dayni, chega de acumular dores alheias e colaborar com continuidades do não fazer bem. Devo a mim mesma me sentir bem e sorrir já destrava tudo. Nem sempre funciona, mas é meu mantra capaz de me devolver o sorriso quando ele se perde. 

terça-feira, maio 30, 2017

esquecendo a memória



vem o vento curvado soprar o vazio só pelas cócegas produzidas na superfície
as tensões vão das armações para a calvície liberta da ditadura dos cabelos
pelos caem se vão com a acumulação de preocupação e reação aos padrões
senões do apego ao orgulho ao entulho da raiva de tanto não lugar a nos detestar

imã aberto atraindo alternadamente toda ferrugem dos idos e dos serás
eras caídas na vingativa forma de lidar com os acontecimentos do se virar
acaipirar tormentos no passado do futuro com o espelho obscuro colaborando com o estar

ancestral e futurista no mesmo momento mergulhado no movimento de parar
olhar para a frente e carregar ao retirar o peso tudo lá de trás para focar melhorar

oferece o minuto o agora esquecendo o absurdo da demora de sorrir desimportar.


+ às 08h40, Rafael Belo, terça-feira, 30 de maio de 2017 +

segunda-feira, maio 29, 2017

Esquecendo todos os padrões



por Rafael Belo

A gente liga a tevê, presta atenção em uma conversa, anda pelas ruas, liga o rádio, vai a algumas festas, vai estudar, vai trabalhar e o assunto sempre é o mesmo: corrupção. Pouco tempo desconectado ou sem assistir televisão e já é o suficiente para um dramático acontecimento novo e desdobramentos. Infelizmente mais do mesmo, porém é uma exposição mundial e... Não é o nosso assunto aqui porque não se trata de lado A e lado B, da Polícia Federal, dos políticos e nem da corrupção nossa de cada dia. Quero saber uma coisa e somente isso agora: há tantos atos ruins acontecendo no mundo, ao nosso redor e em nós, certo? Por que vamos colaborar?

Ah, colaboramos sim drasticamente. Não adianta negar. Negar e negar e negar é bíblico, histórico, beira ao desespero do medo de estar envolvido... E como não estar? Cada ato nosso interfere no mundo em tudo relacionado a quem tem rodeia nós mesmos, ao aceitado por nós diante de cada acontecimento e somos um imã imenso atraindo e atraindo e atraindo... É um ciclo exato onde a falta de agradecimentos e sorrisos pesa ainda mais. A vida pode estar uma merda ruim para você e, claro, xingar, desabafar, tirar toda a tensão e estresse em um saco de pancadas ou seja lá o seu alívio, ajuda, mas permanecer irritado, com aquela nuvem de tempestade formada sobre a cabeça, desejando a morte o mal para o outro só piora ainda mais as coisas, não é?

Damos importância demais a uma fechada no trânsito, a um esbarrão, a provocação alheia e acumulando tanto lixo só temos o mesmo a oferecer, é isso? Não. A maioria das coisas pode ser reciclada. Somos melhores e se permitir entrar em um jogo desses, só possível de resolver com o outro, não termina bem. É preciso de mais de uma pessoa para a competição começar, mas mesmo assim escolhemos competir com nós mesmos, com um eu fadado ao passado. Estamos vivos, correto? Não é mais uma oportunidade para melhorar, se desligar das coisas ruins, se afastar daquilo a te fazer mal para tentar de uma forma diferente conquistar um novo agora?


Isso não é pirâmide, não é marketing multinível, não é ficar milionário, não é autoajuda nem sorrir o tempo todo e tentar animar sempre e todo mundo é apenas focar em si mesmo e pensar na possibilidade de fazer melhor. Ficar lamentando, acusando, enchendo de pedras no caminho, forrando de obstáculos cada nova tentativa, enrolando, sabotando e blábláblá é uma preguiça de assumir a si mesmo e dá aquele tédio diante do cotidiano a ponto de parecer não valer à pena. Vamos lá! Pensando de novo e vendo de outras formas faremos um bem maior, principalmente a nós mesmos. Hora de olhar de novo para o espelho esquecendo todos os padrões.

sexta-feira, maio 26, 2017

posse (miniconto)




por Rafael Belo

Seus sapatos Scarpim rosas estavam gastos e prestes a quebrar. Ela já havia descido do salto, mas era tarde demais. Andando em círculos no gabinete dela pela incontável vez, era possível identificar o desnível no chão daquela repetição de insegurança e nervosismo da senadora. Veranah tinha começado com um propósito desde as bases na vereança. Mas, já naquele começo se retorcia, contorcia e era isolada, porém na era da informação todo mundo tem acesso à tecnologia. Sua assessora de imprensa mantinha um celular conectado no face Ao Vivo o tempo todo. Tinha bateria de lítio capaz de gravar até 72 horas sem parar.

Veranah resistiu e trouxe o povo com ela mostrando passo a passo seu reality político. Com o tempo seu público explodiu e o mundo já a via. Havia, porém, a escala do poder nos degraus da vida dela. Pressionada pelos seus eleitores, Veranah mostrava não responder ao partido, mas não queria correr o risco de lutar contra a corrupção diretamente. Ela se mostrava transparente e leal sempre. Seus colegas a temiam e a evitavam. Ninguém queria ser exposto. Inúmeras tentativas de “sumirem” com a senadora já tinham sido inutilizadas. Nenhuma dava certo.  Sempre vazavam informações e a segurança solidária elaborada por amigos de Veranah era muito boa.

Na escalada ela já havia mudado quando prefeita. Um ranço e um ódio do cargo a revolviam por dentro. Ela se sentia chafurdando em si mesma e nas escolhas feitas. Foi deputada estadual, mas foi obrigada a se afastar para assumir uma secretária do Estado. Não aguentava mais viver cercada sobre segurança e o seu Verão não durar tanto. A cara de pau havia evoluído e nem as câmeras adiantavam mais. Mesmo assim ela era evitada e isolada. Como governadora ela pensava na medida impopular de impedir o povo de pedir. Sempre pediam emprego sem capacitação, salário sem presença, pagamento de conta de luz, água, aluguel, prestação da casa própria, o boleto do carro... Ela estava desiludida. Falar de seus colegas de “profissão” então... Era abandono total.

Mesmo assim foi em frente e depois de uma passagem pela Câmara dos Deputados, estava quase encerrando o mandato de senadora. A queriam presidente e ela se viu engessada. Não poderia fazer nada. Quem iria aprovar seus projetos de reforma? Seu limpa geral do sistema, a aposentadoria compulsória de quem estava no serviço público há tempo demais e implantação de um rodízio para os demais. Só para não sentirem o gosto do poder e se engasgarem. Sem dormir há dias, sem comer nada há quase duas semanas e sem beber água há 36 horas, sua mente alucinava. Há um mês sua assessora tinha desaparecido e há poucas horas fora encontrada sem língua e sem olhos. Nunca tinha fumado na vida e tendo perdido a única família que lhe restara, Veranah procurava um presente cheio de fluído e refil para isqueiro.

O incêndio começou na madrugada de sexta-feira e Brasília queimou como se não houvesse amanhã. A Capital política brasileira foi reconstruída alguns anos depois apenas como Capital Histórica. Agora os políticos de mandato único por lei, habitavam o novo Distrito Federal: Cariotano. Uma cidade na fronteira entre Rio de Janeiro e São Paulo, próxima à Bananal. Veranah acordou sorrindo apesar dos murros na porta do gabinete. Sonhar podia custar seu mandato e ela não iria arriscar bem no seu discurso de posse.

quinta-feira, maio 25, 2017

proteste já



abaixe esta placa e vá recolher primeiro este verbo traiçoeiro julgando quando deveria respeitar
proteste já contra si mesmo não entre em conluio com o medo tentando nos fazer acreditar
esqueça esta visão de divisão me dê a mão vamos olhar de longe e respirar
tome distância comigo solte todo o ar não há inimigos apenas se você os criar

não destrua este lar mesmo se não for sua casa
eu passo você passa e qual história vai para os livros?
estamos vivos e às vezes só basta escutar

cale-se pense diga quanto vale esta mente sem ligar os pontos raciocinar?
a gente mente para a gente invade destrói com a língua mesmo  onde a gente pinga a esmo o remédio contra o tédio

perdemos os critérios culpando tudo estamos surdos
esqueça os surtos o mundo não está falido muito menos nós
à sós nos juntamos bárbaros só para deixar tranquilo o motivo do poder ao nos esmagar

e o empurra-empurra lá nem é o nosso pior no ar
há possibilidade sempre de piorar

nossa gente torta inclui entortar eu e você
vamos enterrar a pátria morta para melhor renascer.


+ às 00h55, Rafael Belo, quinta-feira, 25 de maio de 2017 +

quarta-feira, maio 24, 2017

Só não deixem virar sofrimento (miniconto)



por Rafael Belo

Havia tensão. Daquelas palpáveis secando até a boca como um deserto ao meio-dia. A fumaça estava por toda parte. Eu não enxergava nada. Tiros pipocavam de todos os lados. Um zumbido intenso no meu ouvido me enlouquecia. Eu estava fora do ar. Não houve bomba de efeito moral. Era algo mais imoral, aliás amoral. Doloroso como pisar em brasas depois de ter passado a noite em claro em diversas baladas e derramar vários tipos de bebidas alcoólicas nos próprios pés. Estava descalça. Meus pés doíam tanto, pairavam sob um estágio de dor daquele no qual pensamos: quando passar a adrenalina... Quando eu esfriar...

Então, não havia dor física. Não ainda. Mas, a psicológica era devastadora. Meu coração nem existia mais. Tinha vendido minha alma e nem imaginava ter assinado os papéis de transferência. Havia uma ausência como se eu deixasse meu corpo e tivesse sequências de pequenas premonições dos minutos seguintes. Mesmo assim andava em círculos no meio derradeiro daquela densa fumaça. Eu chorava, mas não sabia qual era o motivo. Pela Pátria partida, por apanhar sem motivo, pela agressão da inexistente esquerda e direita... Pela fumaça nos olhos. Eu me ancorava e levitava ao mesmo tempo. Eu era um peso espesso e uma pluma flutuante naquele calor fabricado.

Não foi a ideia mais sensata participar daquele protesto bem articulado e ao mesmo tempo surpresa, entende? Eu fiquei bem no meio da divisão. Eles se agrediram. Eu fui agredida. Bendita seja minha mãe por ter atraído o sofrimento com este nome dado a mim: Dolores Dores. Chamar de Dodo é quase dodói e sei lá... Não ajuda. Não ajuda, mesmo. Obrigada, mãe! Muito obrigada... Eu sem sentidos, tudo ruindo e nada de falência de ninguém. O Brasil não deveria estar igual à Grécia ou algo assim? Não acho nada merecido. O povo merece evolução, não piedade ou esta manipulação. No final, quem somos nós para julgar?


Talvez esta divisão, este “fogo amigo” nem seja uma tentativa de eliminação da pobreza pública nem a manutenção para manter o poder. Poderia dizer nem ser sequer um plano? Quem sabe nada tenha a ver com querer nos manter confusos. Pode ser totalmente patológico e esta doença não tenha cura. Um vício, uma fissura corrompendo em ambição... Ardendo em febre até fora da pele com esta fogueira das vaidades variadas onde quem queima somos nós. Dói tanto este vazio em mim e ainda assim não sinto meu corpo sendo apagado não redor desta derradeira densa fumaça. Se eu parar serei pisoteada com tantas pessoas correndo cegas ao meu redor e nenhum de nós, ninguém, chegou ao centro disso tudo, na origem...  Não vou sobreviver a isso. Não hoje. Minha sábia mãe deve ser a sua também e todos vocês devem ter Dor em si. Só não deixem virar sofrimento.

terça-feira, maio 23, 2017

Todos Um



a pátria nos pariu foragidos divididos na colonizada mente
envolvente ao sistema corrompido desde outro continente
iminente fogo da eminência na fumaça densa deturpando a visão
lacrimação virando incontinência de lágrimas na cortina da decepção

irritação por onde passa fracassa laça pelo pescoço os enforcados
atados nos elos das correntes arrastadas e assa quem disfarça os caminhos
nada mais é nu e cru quando se alastra a fogueira queimando as beiras inteiras

zoeira da zorra zumbindo nos ouvidos esculpidos avulsos dos rostos de aroeiras
chamuscados adestrados para não pegarem fogo fátuo de fato em falsos abraços

jogados dados de ninguém porém braços dados gritados amém convém manipular

há o ar a nos respirar quando nós o respiramos profundo Todos somos Um só mundo.


+ às 10h04, Rafael Belo, terça-feira, 23 de maio de 2017 + 

segunda-feira, maio 22, 2017

Pátria de Ninguém ou queimada da quimera brasileira



por Rafael Belo

Não adianta cair aos poucos porque a esperança de recuperar é pior. Caia de uma vez. Quando for piorar se jogue e encontre o fundo do poço. A queda trará liberdade e dor, mas não sofrimento se você não se tornar aliado deste. Medidas paliativas não vão resolver. Não tente manter aquilo passado, isto é o óbvio ululante de Nelson Rodrigues da vida como ela é. Isso sim é manter aquecido o sofrimento. É melhor esfriar, começar do zero, aliás, recomeçar porque sempre carregamos uma bagagem conosco. Vá! Avalie o importante e o desimportante. Esvazie. Seja menos. Vale, claro, para nosso país separado pela linha da queimada. Talvez você nem saiba o traste deste assunto, mas na queimada dois times são escolhidos e separados com o objetivo de eliminar o outro o queimando com a bola. Igual à divisão feita no Brasil.

Enquanto o povo debate, se bate e se mata os corruptos celebram nossa divisão. Eles se abraçam e tramam fomentando nossa guerra longe de ser civil ou civilizada. É uma guerrilha desorganizada tramada por um sistema colonizado pelas aparências. Nós somos os bichinhos de estimação da história repetida neste looping infinito. Somos corruptos e corruptíveis também! Este fato provavelmente é o mais irritante. Sermos enganados constantemente vem em segundo lugar, principalmente quando o termo Reservatório de Boa Vontade é deturpado e se transforma em fundos monetários para comprar mandatos e mandados. Ah, claro, e pessoas! Neste bombardeio vamos nos perdendo, afundando nas poças, nos afogando em dívidas do status quo e acabamos sem ar procurando o fôlego no vácuo com a corda no pescoço. Odiamos-nos e nós odiamos e por qual motivo mesmo?

Não dá tempo para conhecer o presente. A maioria está ausente até de ser. Vai nesta manipulação achando, às vezes, manipular querendo a todo custo ter razão e mais: ter Poder e manter o Poder! Não aprendemos mesmo e como cartas marcadas no jogo viciado ganha quem rouba só para dizer a terrível mentira acomodada: sempre foi assim. Ok! Pode não ser mentira... O sistema português foragido do francês napoleônico já veio com um ministro da Justiça (ouvidor- geral na época) corrupto. Pero Borges, nosso primeiro funcionário público, nosso primeiro corrupto em 1549, recebia propina de obras de um aqueduto levada na casa dele seis anos antes em Portugal. O desvio de dinheiro inviabilizou a obra, Borges foi condenado e mandado ao Brasil. Prêmio ou castigo?

A resposta é apenas uma escolha ou a forma de encarar os acontecimentos? Estamos fazendo algo de verdade? A confusão parece toda esta cortina de fumaça lacrimejando nos olhos de um holocausto previsto, mas como um tsunami da natureza: impossível de evitar. Podemos sim prevenir, ou melhor, reduzir os danos. Não estou falando de fantasia, ficção, ilusão ou ilusão. Vá ao dicionário e confirme: falo de uma combinação incongruente de elementos diversos, também conhecido como quimera. Esta quimera brasileira incrivelmente se realiza no cotidiano. São planos e mais planos, fatos e mais fatos sem qualquer obra do acaso porque às vezes gostamos de enfatizar: é óbvio ou, então, não sou obrigado! Este jogo de palavra leva a outras obviedades e ninguém ser obrigado a saber de tudo, a falar sobre este ou aquele assunto tem suas consequências, mas a paz tem seu preço.

Nós somos meros adereços enquanto não tomarmos consciência da nossa história, dos movimentos realmente adiantando para alguma coisa... Não podemos viver só em guerra, por isso, morremos tanto e dolorosamente aos poucos. Fomos divididos para facilitar e repercutimos a divisão. Só a união fortalece. Apenas braços dados e abraços aquecem mandando embora o medo e a dúvida sobre quem nos tornamos. O Brasil é uma Pátria de todos, mas para esta frase de efeito ser realidade nós precisamos procurar nossa paz e hastear a bandeira branca para eliminar os conflitos internos ou continuaremos a ser Pátria de Ninguém!

sexta-feira, maio 19, 2017

O Chefe (miniconto)



por Rafael Belo

Aconteceu a batida. Todo mundo parou. Parecia um tiro de alto calibre. As pessoas ouviram e até se jogaram no chão como se fossem comuns tiroteios na cidade. O Chefe nem imaginava ser com ele. Todos ali sabiam. Mas era somente uma batida na frente da Instituição. Os motoristas egoístas vão a toda velocidade e já era esperado o acidente, aliás, até demorou muito. O Chefe mesmo não se achava responsável nem pelos atropelamentos causados por ele. Utilizava do poder para humilhar ainda mais aqueles lesados por ele. Ninguém parava no emprego. Quando não eram demitidos se demitiam. Muitos até saiam com marcas daquelas humilhações públicas. Mas, como juíza empoderada ela revidava cada sofrimento.

Não era comum. Mas, ela era O Chefe. Não gostava de artigos femininos e não admitia o “A” na frente de seu Chefe. Então, ela começou a se incomodar com uma funcionária nova. Colocava desafios depois de desafios e A Chefe (opa) O Chefe se irritava cada vez mais. Aquel superava um depois de outro. Ignorando totalmente os ataques da Chefe. Até O Chefe perder a razão e começar a gritaria. Toda a Instituição parou e foi até a origem do furdúncio. O Chefe tinha subido na mesa nem se importando com a ausência de calcinha porque ela era sim, belíssima e nem se importava com os olhares, ela os incentivava. Quanto mais poder mais poder, certo?

Tinha a voz potente de uma sopraníssima. As pessoas nas ruas pararam para descobrir de onde vinha aquela voz irritada e com aquele alcance invejável. Ela chegou a agudos e todo vidro, espelho... Tremiam. Vibravam como se a ansiedade deste holocausto político-financeiro brasileiro estivesse concentrado ali. Claro, aquela Instituição política estava envolvida - de acordo com as citações/delações – vazadas por aí. Além de tudo O Chefe era dona do lugar. Centralizadora, megalomaníaca nunca aceitou concorrência e distribuía dinheiro para os bagaços das licitações até chegar às laranjas, enfim... Voltando... A frequência vocal atingiu o cume e tudo de vidro e reflexo se quebrou.

Não foi o suficiente para ela parar. Mais cedo, antes da gota d’água cair, O Chefe tinha recebido um whats de seu informante bem pago da Polícia Federal. Para ser franco, naquele exato momento a população acumulada nas ruas - já protestando contra a Instituição e O Chefe - abria espaço para os policiais entrarem. Com a gritaria ninguém ouvia dela. Eles ovacionaram quando a Justiça entrou e conseguiram abafar desabafos e desaforos da Chefe escoltada para o camburão. Se estivessem em silêncio teriam ouvido O Chefe se arrepender amargamente de não ter matado Aquel, a agente infiltrada. Aquel tinha vazado todos os vídeos, áudios e documentos já floodando em todas as redes digitais do mundo.

quinta-feira, maio 18, 2017

poder próprio



há rígidos dígitos das colunas expostas à gravidade
a idade nada tem a ver com o tempo na pluralidade singular
apontar o dedo destruir o verbo corromper a palavra
assediar quem depende das horas escravas

sobe o tom mudam as tonalidades as identidades nem existem mais
o som perde a noção entrega a alteração
humilhação tem a escuridão como a cor mais forte da humanidade

perde-se o norte a direção está na moeda da sorte
reboque todo este Ibope em decadência onde a influência morre

torre seu score o status quo corre para destruir seu ser não dê poder a ninguém além de você.


+ às 09h38, Rafael Belo, quinta-feira, 18 de maio de 2017 +

quarta-feira, maio 17, 2017

O assediador (miniconto)





por Rafael Belo

Eu sou cinéfila. Sempre me imagino participando de um filme com a trilha sonora do Paralamas do Sucesso. Sabe aquela música, Ska? “ A vida não é um filme você não entendeu...” Então, Eu, Cineli Film, sou fã das ironias da vida. Adoro um paradoxo e vivo dizendo ser uma contradição ambulante. Aí me questionam: não é metamorfose ambulante? . Véi! De boa mesmo! Não corrige o que você não sabe. Eu gosto do Raulzito, mas estou falando da minha vida. Eu prefiro ser uma contradição ambulante. Aliás, os filmes me levaram a leitura. Sabe? Queria saber de onde vinham as inspirações e tal.

Mergulhei de vez neste mundo e não, eu não espero fidelidade cinematográfica a tudo literário. São universos totalmente diferentes. Tudo isso me ocasionou esta mesclagem linguística. Eu adapto minha língua a qualquer tribo. Gosto, claro, de passear por bocas... Esta ficando muito íntimo isso... Comecei a escrever para dizer não ao Um Dia de Fúria. Sabe? Aquele clássico do cinema? Enfim, assista. Voltando... Eu não vou permitir ninguém interferir na minha paz. Não mesmo! Nem pensar! Pode ser o patrão, o chefe, o dono... O Batman com capa e tudo. Não venha gritar comigo.

Foi meu pensamento imediato quando aquele stalker frustrado começou a dar like e encher de smiles minhas fotos nas redes digitais. Fiquei puta. Aí comecei a pensar melhor. Cara! Não! Sai fora! Me deixa! Fica na sua! Quando ele segurou o meu pulso e me levou para frente do escritório falando absurdos e desaforos eu imediatamente peguei meu celular e liguei a câmera. Olhei para todos os lados em busca de apoio físico ou até uma palavra e nada. Mas eu levantei meu celular junto com a luz do flash para não perder nenhum detalhe. Apontei para meu pulso onde ele segurava e ele hesitou.


Olhou ao redor e todos agora faziam como eu. Ele passou a gritar ensandecidamente: demissão! Estão todos demitidos se não baixarem estes celulares e apagarem este vídeo! Agora! Vocês têm três segundos... 1... 2... 3... Ah, não vão, né?!  Ele não tinha largado meu pulso. Agora tentava tirar meu celular de mim. Começou a me arrastar para tentar tirar o celular do funcionário mais próximo. Eu estava fazendo uma Live no Facebook. A transmissão atingiu muita gente. Nunca tinha visto nada viralizar ao vivo... Quando ele apertou mais meu pulso e eu sentia o latejar das minhas veias... Véi! Não pensei duas vezes! Girei o pulso e com todo meu peso tirei meu braço e acertei... Bem... Digamos... Ele não terá mais filhos. Em instantes a polícia chegou e levou o assediador.  Eu pedi demissão.  Não ia ficar em um lugar capaz de contratar pessoas perturbadas daquele jeito.

terça-feira, maio 16, 2017

domando



os joelhos roçam o chão mas o tempo da humilhação já se foi
cedem em quedas diretas os corpos curvados de tanto peso carregar
no ar dedilha uma música o profundo respirar onde alguém se impôs
suspiram silêncios sussurrados no ambiente o estado impaciente para de gritar

nem oi nem bom dia o olhar desafiador inspira um desprecisar
vacas e bois pastam na avenida ruminando os restos urbanos das capitais
terminais líderes de nada se apoderam da manada para descarregar

choca o choque intermitentemente está ausente quem era para ali está
há cores no verde abaixo da janela onde nenhum cinza vai apagar

flores ao invés de espinhos ajuda a retirar o lixo para a Alma a carne domar.


+Às 08h29, Rafael Belo, terça-feira, 16 de maio de 2017 +

segunda-feira, maio 15, 2017

Assédios



por Rafael Belo

Você escuta aquela gritaria desnecessária e olha para o lado. Lá está alguém de cargo superior humilhando o subalterno e todos os empregados em silêncio com medo da sobra. Esta cena já deve ter acontecido com todo mundo em algum momento ou vai acontecer. Aquele erro alheio ou a acusação gratuita para impor o poder te traz inúmeras perguntas, inclusive, por que fiquei quieto? Por que estou neste trabalho? Ter um cargo acima do meu inclui se sentir superior? Isto é ser patrão? Líder com certeza não é! Mas, nossas necessidades e responsabilidades nos confundem para a anulação.

É um dos motivos da depressão ser o mal do século. O assédio no trabalho e a omissão dentro do narcisismo individualismo nos faz sentir mal, claro, nos torna ratinhos ou ogros, acumuladores de raivas ou impacientes enlouquecidos rumo a um abismo com tanta escuridão a ponto da cegueira substituir toda a razão. Não é possível oferecer rosas se só têm espinhos, afinal temos várias camadas de ignorância algumas mais grossas outras mais gentis todas precisando ser retiradas. Uma a uma vamos procurando esta nudez em nós, mas em nossos tropeços mal amamos mal amados parecemos gostar de agir de formas horríveis rotulados rotulamos e descarregamos nossas frustrações em qualquer pessoa ou lugar.

Nesta hora a iniciativa falha, a expectativa aumenta e dificilmente alguém se envolve. O silêncio de todos terem parado e mesmo assim fingirem fazer algo esperando o próximo ato do assédio pesa ainda mais. Quantos conflitos o abuso de poder gera? Uma provável fragmentação de uma comunidade já esquizofrênica entra em mitose e meiose na indefinição de quem é para a divisão celular. Essa multiplicação chega a uma imitação desta biologia na cadeia alimentar e você vai se por no seu lugar? Onde é o seu lugar? Estamos dispostos a perder a dignidade, o emprego pelo considerado certo?


Errado! Tome um banho de água fria, mais gelada ainda... Além da imaginação glacial. Vá em frente. Vai doer mais, ultrapasse a dor da humilhação. Esta, aliás, só acontece pelo poder imenso dado de bandeja ao outro sobre nós. Esse constante encher do ego com o hélio dos elogios. Esqueça isso. Só você tem poder sobre você e ponto. As coisas seguem naturalmente, independentes de nós. A nós sempre cabe o livre-arbítrio. Precisamos evoluir para reagir da melhor forma. Isto vem com o tempo, vem com o observar o erro do outro também. Porém, acima de tudo, vem com a forma de receber aquilo dado pelo momento. No caso da aberração perpétua do assédio quem sabe uma denúncia, a indiferença, a maneira como o assediador vive ou simplesmente exercitar enxergar o positivo em tudo isso. Encarar de outra forma muda toda a perspectiva da evolução espiritual para limpar nosso lixo acumulado. 

sexta-feira, maio 12, 2017

Na praia cinzenta (miniconto)




por Rafael Belo

Estava pinicando. Começava a coçar. Havia algo minúsculo... Aliás, vários “algos” caminhando no meu corpo. Mas, não era ruim... Tinha um cheiro de orvalho e tantas estrelas intensas naquele céu me impactando no instante do abrir dos meus olhos. Era um gramado gracioso. Fiz um anjo de grama. Pode rir. Não sei como é fazer de neve e não sei se teria coragem de congelar minhas costas e todo meu corpo. Brrrrr. Fiquei lá tentando me lembrar da noite épica responsável por me deixar sozinha lá e não consegui. Estava só e assim fiquei. Não conseguia encontrar uma forma de parar de olhar para aquele cosmos magnífico. Sorria por isso.

Eu via tudo cinzento e nebuloso, sabe? Como em certos sonhos de premonição ou de interação com... Com... Sei lá. Com quem já morreu... Sinistro falar assim. Acaba com qualquer rolê dos medrosos de plantão. Ao mesmo tempo eu pensava quem não sonha colorido? Eu, pelo visto...! Se bem... Não era de lembrar dos meus sonhos mesmo. Não posso afirmar nada, no entanto eu me arrepiava conforme ia tomando consciência de tudo ao meu redor, mas ainda assim não tirava os olhos das estrelas e tinha outro motivo além da beleza. Eu precisava sair deste transe.

Com muito pesar na alma e um peso incompreensível no coração, me sentei. Percebi uma praia focando bem perto. Esfreguei meus olhos até as lágrimas escorrerem. Não adiantou as gotículas marítimas estavam suspensas no ar como pequenas pausas entre o som das ondas indo e vindo em contradição. Meu nome estava na areia e pegadas o cercavam. Só havia pegadas ali... Estava tudo estranho de qualquer maneira, então fui até lá e meu nome virou meu apelido e as pegadas seguiram de par em par apagando seus rastros até a maré. Lali Láctea...


Estava meio-dia e meia-noite, mas pôr do sol e todas as estrelas dividiam o espaço. O céu era uma raridade. Quando um estalo na minha cabeça clareou minha visão e a névoa toda se dissipou carregando o som agudo da minha mente com ela. Estrelas e gotas eram meus sonhos. Lembrei-me astronauta. Eu fui a primeira. Um sonho recorrente sempre me impulsionando a novos planetas. Este é meu mundo... Quando sonhei, despertei para este sonho adormecido. Fechei os olhos e voltei a dormir. Precisava me encontrar novamente naquela praia cinzenta.

quinta-feira, maio 11, 2017

temporalizar



selam seus sorrisos meus lábios com olhares sonhados em ondas
vão e vêm me carregar nas brumas do distante mar da minha lua cheia
recheia o invisível com confiança na esperança da tua revelação nas sombras
tombas o sonho de infância da satisfação da plenitude de ser atitude para levantar

salga as rondas dos descalços pés nas nuvens perguntando onde não caminhar
sem saber passa por toda parte e contas os sonhos a saltitar a me espreitar
quero dormir para te ver selar meu sorriso solidificado imaginando sonhar

sem atropelo só no descanso manso do gauchês despacito
pacito em pequenos pasitos no slow motion do conectar


neste temporalizar as línguas se misturam no meu sonhar sei me Amar Amo quem chegar.

+ às 09h36, Rafael Belo, quinta-feira, 11 de maio de 2017 +

quarta-feira, maio 10, 2017

Não se contenha (miniconto)



por Rafael Belo

Ela acordou sorrindo com uma vibração no corpo, a sensação de ter deixado ele ali e ter vivido toda a intensidade da alma durante inenarráveis vidas, mas foi só uma noite. O corpo de Soli Dazi dançava. Uma alegria matutina capaz de sorrir até as mais oxidadas carrancas e os mais deteriorados maus humores irradiava suavemente dela invadindo casas e vidas aos arredores. Havia um contraste de doçura habitando ali com uma brutalidade incapaz de gentileza. Toda essa energia metia o pé e arrombava portas e quaisquer tipos de defesas tentadas pelos isolados.

Foi um sonho interrompido. Sonho sonhava com Soli. Ele havia tirado ela para dançar quando o estágio do sono já beirava o profundo. Ele a esperava na beira do abismo sem fim da liberação espiritual do físico sorrindo. Demorou para ele despertar do próprio sono. Sonho havia sido deixado ali quando uma adolescente Soli foi desiludida. Ela não estava preparada para deixar seus sonhos de lado e Sonho foi escolhido para representar todos os outros.  Não conseguiu despertar Soli para a grandeza dela ao criá-lo tanto tempo antes...

Quando Soli foi tocada por antigos amigos com as possibilidades a reatando com aqueles não mortos, aqueles capazes de a levitarem, a fazerem voar tão alto quanto o impossível... Ela chorou. Um pranto de alegria se misturando ao sorriso e absorvido pela pele até ser bombeado pelo coração para a substância profunda da alma... Essa mistura, sorriso com lágrimas felizes, é ingrediente principal para os milagres cotidianos. Uma questão de fé. Ela havia esquecido qual era seu sonho e, assim, quem era ela.


Foi uma noite de libertação. Soli caiu de amores por ela mesma e de um vagalume nas sombras virou um eterno sol. Quando seu corpo exausto do dia não aguentava mais as comemorações da recuperação dos sonhos e de si, a redescoberta, Soli foi dormir. Sonho voltou a incorporar em Soli. Soli era Sonho. Sonho era Soli. Agora ela despertava sonhos perdidos, mas ainda vivos aos arredores. Onde ela chegava começavam as pessoas a irem também. O corpo incapaz de conter tanta completude só podia dançar. Para onde se olhava agora, todos dançavam sem mais se conterem. 

terça-feira, maio 09, 2017

pequenas pausas



sonhos são seguidos com o sonhar conosco
enrosco a divagar pelo tempo devagar disposto
aberto calabouço das fantasias da magia irradiando rostos
posto toda a chama criança cantando alegrias abrindo espirituais vias

fia nossa linha contínua chama criança conosco aos poucos a concentrar

sonhadores não se escondem sonhos não morrem movem sombras
abertas conchas  da esperança para nos refrescar em pequenas pausas
causas sem pressa sequer de chegar preferem o querer do caminho criado

aliado ao brilho do nosso olhar sem qualquer tamanho a identificar
sintonizar ser eu espalhado lado a lado no conglomerado sonhado

não estamos atados somos o sonho dos sonhos realizados.


+ Às 10h23, Rafael Belo, terça-feira, 09 de maio de 2017 +

segunda-feira, maio 08, 2017

Os sonhos não morrem



por Rafael Belo

Devagar as coisas acontecem. Não tenha pressa. Dias desses eu estava em um lugar totalmente diferente e nem pensava mais nas coisas pessoais, em publicar as inspirações internas em mim. Então, você volta a acreditar quando em reviravoltas a gente levanta a cabeça, sorri e continua... As coisas mais incríveis acontecem. É fácil desacreditar. Difícil é continuar acreditando e ser seu melhor, apesar de tudo a tentar impedir. Há um crescer e um evoluir, mas não queremos cair. Nossa canção só melhora quando ouvimos, caímos , ressurgimos. Não permito a morte dos meus sonhos e nem o assassinato por encomenda deles. Não mais.

Descobri. Os sonhos não morrem de verdade. Eles adormecem e nos aquecem quando pensamos terem chegado ao fim. Não é assim. Nós podemos abandoná-los, mas eles não nos abandonam. Podemos fingir não ligar e até acreditar nisso, mas ligamos, principalmente quando realmente descobrimos quantas pessoas acreditam e torcem por nós também. No entanto, imprescindível mesmo é acreditarmos no nosso eu. Se assim for, só há interferência na nossa caminhada se permitirmos. Assim perguntamos a nós mesmos: qual é o nosso querer?

Queremos acontecer, mas distorcermos este querer no atropelo do não entender do tempo porque nossa vontade é de já. Não temos tempo a perder, porém, nossa visão do tempo também destoa à passagem do mesmo. É peculiar a cada um de nós os momentos e só ao percebermos tal fato vemos a importância de não correr, da descontribuição do depressa, da desconstrução da amizade e de relações amorosas levando ao patamar romântico já de um beijo ou/e da prática do sexo em si sem sequer permitir conhecer o outro. Como os sonhos, as relações se constroem com confiança, presença e fé.


Como sonhar, se relacionar acontece em um constante encontro antigo. Você não precisa pegar na mão no primeiro encontro. Não precisa beijar rapidamente. Deixe o coração falar, o sorriso vibrar os dias virem. Nascem as mais belas coisas desta maneira. Não tenha pressa. Se apaixone por si mesmo, caia de amores por si e depois se deixe em queda por outra pessoa. Não deixe de ser assim. Se não for capaz de desejar o bem, apenas ignore o outro, não deixe portas abertas para lhe desejarem mal. Sonhar é Amar a si mesmo em primeiro lugar e, desta forma, aberto a quem é somos capazes de Amar o outro, de nos libertar e realizar.

sexta-feira, maio 05, 2017

Quantos? (miniconto)




por Rafael Belo

Todos se foram. Deixaram-me aqui no fim do jogo. Eles pararam de jogar. Eu não queria ter começado, mas me viciei neste lance de experimentar. Não ficar presa a uma relação e poder entrar em todas as paranoias destes homens no fundo sempre querendo controlar, se dar bem... Em algum momento há a queda, não há quem fique para sempre em pé. O jogo sempre foi assim, mas bem na minha vez mudaram as regras... Nunca aceitaram mulheres jogarem também, porém fomos nós as criadoras do jogo e enquanto os homens se achavam artilheiros pegadores, nós colecionávamos os troféus. Quantos aqui sairão reabilitados? Quantos vão se acostumar à monogamia de verdade?

Queria minha liberdade e acabei em mais uma prisão. Certo! Eu tenho a percepção deste jogo também ser um ciclo de correntes. Digo isso alto e entre dentes... Acabo com raiva de mim. Claro! Seria mais fácil pegar um carinha qualquer e sair do foco das fotos, dos boatos, das fofocas, mas só o começo vai bem depois desanda a mesmice, aos mesmos comportamentos com variação e personalidades criativas para desculpas... Eu quero ser o sol, principalmente quando nasce e se põe, mas assim me sinto escondida e agora... Abilie Ariete na clínica Seja Sincero? Não, não, não, nãonãonão... Sempre fui sincera e honesta. Só não dizia nada além do necessário... Falando assim... É... Admitir é um dos passos!

Faço meu querer meu foco. Toco os matches querendo se apegar quando diziam não. Os testes só provam o contrário: eles querem exibir um mulherão. Depois se enciumam dos olhares, das invasivas cantadas, das abusadas investidas... Inventam absurdos quando os rejeitamos. Ok, vamos! Não somos santinhas, também inventamos. Também queremos ter aquele coringa para voltar quando nos sentimos mais sozinhas, mais vulneráveis, quando choramos... Somos instáveis, bom digo por mim, no entanto eles são ainda mais... Estátuas de sais, mas nem nós nem eles somos vitais. Nenhum de nós, não mais...


Se for admitir, só somos essenciais quando nos damos importância e damos importância para alguém. Exagerei muitas vezes, normal... Não é? Admita também...! Vai! Quem não quer ter o poder de escolher? Se há problema com rejeição... Trabalho para não ser rejeitada, mas às vezes falha e dói... Como dói! Quantas pessoas estão aqui nesta clínica? Meu Deus! Vão embora! Não podem me obrigar a sair do meu quarto. Não vou interagir com mais ninguém. Só tem homens aqui! Onde estão as mulheres? Onde?! Só me digam!! Ei! Ei! Ei! Mas, não me deixem só! Não precisa disso! Quantos dias terei de ficar aqui? Quantos? Quantos? Alguém me responda, por favor... QUANTOS!??

quinta-feira, maio 04, 2017

Matches



quanto mais caminho menos canso desfaço o ranço
desmancho meu Sancho vou só de Dom Quixote
no meu próprio rock sonhado dia-a-dia sento na trilha
meu olhar se esvazia nos moinhos de vento soprando meu coração

são como um manicômio desativado inteiro solidão é companhia em fragmentação
sou todos os meus pedaços compartilhados de imediato no contato do momento
movimento sem intenção espontânea ligação sem orgulho agora é o futuro todo

não há jogo na vontade com o volume da intensidade nos agitados corações
emoções onipresentes incondicionais vitais na flexibilidade do vento

sento no cavalo branco lança em punho sem testes luto ao lado da imaginária amazona em franca zona de matches.


+ às 09h37, Rafael Belo, quinta-feira, 04 de abril de 2017 +