quarta-feira, maio 24, 2017

Só não deixem virar sofrimento (miniconto)



por Rafael Belo

Havia tensão. Daquelas palpáveis secando até a boca como um deserto ao meio-dia. A fumaça estava por toda parte. Eu não enxergava nada. Tiros pipocavam de todos os lados. Um zumbido intenso no meu ouvido me enlouquecia. Eu estava fora do ar. Não houve bomba de efeito moral. Era algo mais imoral, aliás amoral. Doloroso como pisar em brasas depois de ter passado a noite em claro em diversas baladas e derramar vários tipos de bebidas alcoólicas nos próprios pés. Estava descalça. Meus pés doíam tanto, pairavam sob um estágio de dor daquele no qual pensamos: quando passar a adrenalina... Quando eu esfriar...

Então, não havia dor física. Não ainda. Mas, a psicológica era devastadora. Meu coração nem existia mais. Tinha vendido minha alma e nem imaginava ter assinado os papéis de transferência. Havia uma ausência como se eu deixasse meu corpo e tivesse sequências de pequenas premonições dos minutos seguintes. Mesmo assim andava em círculos no meio derradeiro daquela densa fumaça. Eu chorava, mas não sabia qual era o motivo. Pela Pátria partida, por apanhar sem motivo, pela agressão da inexistente esquerda e direita... Pela fumaça nos olhos. Eu me ancorava e levitava ao mesmo tempo. Eu era um peso espesso e uma pluma flutuante naquele calor fabricado.

Não foi a ideia mais sensata participar daquele protesto bem articulado e ao mesmo tempo surpresa, entende? Eu fiquei bem no meio da divisão. Eles se agrediram. Eu fui agredida. Bendita seja minha mãe por ter atraído o sofrimento com este nome dado a mim: Dolores Dores. Chamar de Dodo é quase dodói e sei lá... Não ajuda. Não ajuda, mesmo. Obrigada, mãe! Muito obrigada... Eu sem sentidos, tudo ruindo e nada de falência de ninguém. O Brasil não deveria estar igual à Grécia ou algo assim? Não acho nada merecido. O povo merece evolução, não piedade ou esta manipulação. No final, quem somos nós para julgar?


Talvez esta divisão, este “fogo amigo” nem seja uma tentativa de eliminação da pobreza pública nem a manutenção para manter o poder. Poderia dizer nem ser sequer um plano? Quem sabe nada tenha a ver com querer nos manter confusos. Pode ser totalmente patológico e esta doença não tenha cura. Um vício, uma fissura corrompendo em ambição... Ardendo em febre até fora da pele com esta fogueira das vaidades variadas onde quem queima somos nós. Dói tanto este vazio em mim e ainda assim não sinto meu corpo sendo apagado não redor desta derradeira densa fumaça. Se eu parar serei pisoteada com tantas pessoas correndo cegas ao meu redor e nenhum de nós, ninguém, chegou ao centro disso tudo, na origem...  Não vou sobreviver a isso. Não hoje. Minha sábia mãe deve ser a sua também e todos vocês devem ter Dor em si. Só não deixem virar sofrimento.

Um comentário:

Maria Belo disse...

Muito bom! Atual! Pobre Brasil! Pobre de nós trabalhadores!