terça-feira, junho 27, 2017

eu oferenda



arrepiam cicatrizes antes do sol nascer
o tempo está parado na janela sem deixar alvorecer
um mar de lágrimas chega a afogar o peito
todos os mares saem daqui de vários jeitos

no fundo do respirar se seca o rosto
temos um gosto atemporal chovendo granizo
agonizo o eu do espelho de joelhos entro em outra dimensão

mares são chamas emoção fragmentada pelo horizonte
me reconheço na nuvem bloqueando os raios do sol de fronte

defronte o destino tenho erros perfeitos e me faço oferenda para o tempo continuar.


+ Rafael Belo, às 08h44, terça-feira, 27 de junho de 2017+

segunda-feira, junho 26, 2017

Chacoalhões



por Rafael Belo

Eu gostaria de falar sobre amizade, algo essencial nesta vida onde há um laço deitado em oito nos dando um apoio e chacoalhões necessários, mas eu estou aos chacoalhões. Vivo um momento ímpar na minha vida cheia de portas e janelas escancaradas. As oportunidades pipocam diante dos meus olhos como as mensagens em grupos de whatsapp empolgados sobre algo qualquer. Não falo muito sobre isso. Até porque não é gratuito. Não é uma dádiva pura e simplesmente. Sentir-se bem é o melhor remédio desta vida, porém somos tão imperfeitos – Graças a Deus – e erramos.

Mesmo quando tentamos acertar, erramos. Uma hora acontece de dar certo. Isso, não significa deixarmos de tentar, deixar de fazer, se fechar, se isolar, pensar dar para resolver sozinho, significa reconhecer. Aí entram amigos, aí entra família, aí pode bater uma tristeza, mas não deixa entrar não. Pode apertar campanhinha, tocar o interfone, mandar mensagem, mandar whats, ligar... A gente a sente ali, beirando, tentando estragar tudo, nos cutucar, mas não deixe! Mande ela embora! Claro! A entenda primeiro porque podemos facilmente nos confundir ou manipulá-la para outros motivos outros sentidos. Mas, não há de admitir.

É possível ter uma peça quebrada em nós, uma veia obstruída no coração, no entanto, tem conserto. Somos perfeitamente capazes de nos reparar e de praticar reparações. Preparar um concerto da nossa própria sintonia com uma sinfonia com notas só capazes de soar através de quem somos é revelador. As notas mudam, os tons se alteram, somos constantes mesmo se ainda não trocamos as peças antigas, quebradas... Mudamos o tempo todo mesmo se negamos isso. É preciso parar para não machucar os outros. Para tanto, precisamos dialogar, enfrentar seja lá... Aí ir adiante. A relatividade temporal não determina estes horários.

Nosso tempo é outro. A mente funciona em uma dimensão, o corpo em outra e a alma está em toda parte, pois é atemporal. Juntar tudo isso é jogar um coquetel molotov no meio do peito. Ficamos em chamas sim e isto queima tudo vigente ao não pertencimento. Quando olhamos nosso fogo arder intensamente podemos nos satisfazer em ser nós mesmos sem subterfúgios, sem refúgios, sem esconderijos, apenas toda esta carga da nossa pele, do nosso nome... De tudo aquilo produzido por nossa mente, nossos sentimentos, nossas mãos, nossas almas e o impacto reverberando disto montado diante do espelho o qual chamamos de eu.

sexta-feira, junho 23, 2017

Uma hora eu vou chegar (miniconto)



por Rafael Belo

Acordei coberta de sangue e nenhuma ferida, então, obviamente, o sangue não era meu. A primeira coisa a vir na mente foi: de novo! Seguida de: o que eu fiz desta vez! Não sentia dor nem satisfação só vazio, igual das outras vezes, mas não me pergunte quantas, por favor! Nem venha com este seu machismo velado achando que mulher não é capaz de certas coisas. Somos sim! Eu sou capaz de tudo. Sempre gostei de aliviar minhas frustrações lutando. Desde menininha. Minha mãe me criou sozinha e não queria... Eu não deveria ter nada abusivo na minha vida. Nem você. Ninguém...!

Têm muitos fazendo hora extra a merecer muita desgraça na vida, mas não sou eu a desejar. Deus me livre! Quero paz! O problema é... Bem metade de mim quer paz e a outra guerra. Nem sempre o cotidiano ajuda a alimentar meu eu certo, sabe? Eu sei! Você sabe exatamente como é.  Controlar-se o tempo todo, fazer cara de paisagem, ignorar os assédios... Mas, eu tenho a tecla F...-.. latente. Bem no meio da minha testa só precisa saber em qual modo estou. É ótimo estar em modo de combate, mas não fica longe estar em modo “não vejo nada nem ninguém, nada me afeta”.

Vou ser direta. Não se aproxime. Há algo em mim e ao meu redor cobrindo meus rastros. Porque, aqui entre nós, eu deveria ter sido executada. Além disso, você deveria saber de alguma forma sobre isso. Estive no oriente e quando dei por mim estava exatamente assim... Nos Estados Unidos, a mesma coisa... Na Europa... Havia um corpo em meus braços... Não quero falar disso. No entanto, na África... Deve ter sido um momento de total loucura. Eu só poderia estar alucinando. O deserto estava vermelho viscoso úmido e isso não é possível. Ainda mais gotejando de mim todo aquele deserto de sangue... Não sei se sou uma pessoa ou algo, algo, algo... Diferente!


Quero tanto a vitória da minha paz, mas é tão bom este poder fazer o meu querer com qualquer um e em qualquer lugar. Talvez este seja meu papel, meu lugar... Devo ser exatamente aquela ênfase: causa perdida. Eu sou A Causa Perdida! Ah, mas não queira me encontrar! Eu sinto sua necessidade de liberar a raiva, de descontar todas as coisas erradas em algo, em alguém, eu sou a Punidora! Não tente revidar... Aliás, tente vou gostar de um pouco de resistência. Só não vou me lembrar de você. Talvez amanhã você inexiste e seu sangue esteja na minha pele porque uma hora eu vou chegar em você.

quinta-feira, junho 22, 2017

para prosperar



a outra face estava inchada sorrindo enquanto parava de apanhar
não haveria revide o ciclo acaba de se quebrar
intactas mãos só com calos dos ralos diários revolucionários de se sentar
fluindo toda mágoa desnecessária no desarmar infinitivo do verbo participar

declamam as armas no chão os projéteis vazios um tiro rompe o silêncio
derramam desafios estéreis adubando a violência com o veneno propenso
intensos tiroteios verbais floodam as mídias sociais caem faces voltam facões para suas aches

há quem ache esta espécie de mato ser puro abandono da fachada
o beijo no rosto é retirado do espelho da autotraição disfarçada

a língua é escada interminável para seus únicos lados quando se movem os lábios para o lugar onde deveria estar e o corpo já é alma calma na pacífica forma de encontrar causas e prosperar.


 +às 11h25, Rafael Belo, quinta-feira, 22 de junho de 2017+

quarta-feira, junho 21, 2017

Inverno interno



por Rafael Belo

A única coisa além de comida no meu estômago é afetação. Sabe, às vezes, vem um golpe levando meu ar, meus pensamentos, meu raciocínio... Quando algo me afeta de tal maneira a ponto da negação piorar. Quando me dizem não ser capaz, quando me subestimam... Eu, logo eu, aquela mais zen, aquela ligando para nada... Sou um ser humano é a pior desculpa e eu a estou usando. Revidando a cada buzina, avançando a cada avanço, fechando a cada fechada... É entrei para a terra dos cegos e banguelas, velozes e furiosos das horas do rush...

Alívio imediato, mas fake. Coração acelerado, estômago pesado, mas há uma satisfação de ver o medo, o susto, a cara de arrependimento e até de bobos destes motoristas medíocres. Mas, não! Não posso alimentar esta raiva, esta violência diária gerando stress, insatisfação e infelicidade como quem distribui entrada vip com open food and drinks. Adianta? Por quanto tempo vou me sentir bem? Ser racional o tempo todo também acaba com o emocional na mesma proporção na qual ser emocional integralmente acaba como racional...

Preciso estacionar... Hoje nem dá para ver o céu. Está tudo branco e o sol é só um borrão mais claro em um canto. Neblina, névoa... Qual delas? Não enxergo nada hoje e eu me separei de mim... Estou aí neste branco indefinido. Este fenômeno fumaça branca de inverno veio para esconder o meu revide ou tudo será apagado para uma nova tentativa? Já reiniciamos tantas vezes este ano... Deixe-me descansar um pouco, ok? Pode ser? Mas... Só um... É! Eu sei! Pode piorar se eu não fizer nada... Ainda mais sabendo meu papel de despertar, de curar um a um...


Está frio e uma frieza mórbida gela o silêncio de olhos vidrados e tiques cortando a pele com um banho forçado na água abaixo de zero. Está tudo negativo nas temperaturas. Abaixo das indicações do tempo. Mas frio mesmo são os atos das pessoas em suas atitudes desnecessárias invocando invernos glaciais árticos lembrando: o esquecimento substituiu o aquecimento... Você lembra como era em outras vidas? Não recorda como já foi? Passou tanto tempo assim?... Há corações frios me afetando e este clima de Velho Mundo lá fora misturado ao Continente Branco, Antártida... Deixa visível minha respiração de dor e, ainda assim, não se compara às temperaturas negativas por aí nem se ampara em satisfação à coisa alguma. Estou acabada, congelada em um momento inútil e aquela Clare Solarium, conhecida como eu mesma, vai representar na hora da palestra motivacional com o aviso prévio: não posso errar mais.

terça-feira, junho 20, 2017

“No que você está pensando?”



caem corpos cauterizados calados quando precisam reagir
age a língua pelos dedos sangrando haja o houver sem partir
aliados armados sempre preparados para atirar até fogo amigo a sorrir
o perigo da paranoia da autopreservação é a extinção do outro a parir

causas perdidas aturdidas nos mimimis diários sem progredir
vários jeitos de lidar mas a palavra conciliadora não chega aos dedos
os lábios não se movem nem as pernas somos donos de um só brinquedo

sujeitos ocultos vultos avulsos de um revide
um palpite da sombra derradeira do nosso desejo

acervo escondido de etiquetas eus perdidos nas sarjetas com violentas gorjetas para comprarmos nossos venenos e justificar nos atos teimando ao respondermos “no que você está pensando?”.


+Às 08h59, Rafael Belo, terça-feira, 20 de junho de 2017+

segunda-feira, junho 19, 2017

Causas perdidas


por Rafael Belo

Doutrinados ao combate, ao enfrentamento, a disputa de espaço, a vencer o outro, a elevar uma crença em detrimento de outra a morte se espalha, o caos impera e tudo se repete como em outra era. A racionalização, ou o iluminismo grego, tinha mais camadas entre seus mitos e crenças bem além do registrado na história. O místico, o astrológico, o ilógico, o espiritual e o imaterial se misturavam no cotidiano. Havia - como hoje - perseguições político-religiosas terminando com toda uma população bebendo cicuta voluntariamente.

Por vontade própria bebemos outros venenos. Atropelamos, emboscamos, atiramos... Armamos-nos de todas as armas erradas. Procuramos um sentido para tudo, mas não tem sentido esta cegueira toda ao nosso redor e em nós. Estamos nos desmembrando paladinos da justiça, justiceiros da verdade, heróis de tantas desimportâncias acumulando pó e pesos nos curvando para o chão em uma reverência constante ao vazio. Vivemos de causas perdidas. Queremos resgatar o outro antes de nós mesmos. Queremos revidar a violência com violência criando um ciclo de justificativas e ódios sem fim. Para, enfim, continuar com dor em noites sem dormir e se alimentar sem sabor.

Perdemos tempo e vidas querendo corrigir o incorrigível. O passado é imutável. Acabou. Não deveríamos descobrir nosso papel no mundo? Descobrir como mudar algo, e nós mesmos, ao invés de tentar forçar situações, relações e mudanças de opinião? Não há respeito. Há apenas a vontade de não querer causar um rebuliço público ou, melhor escrevendo, uma exposição desastrosa nas mídias digitais. A intolerância se esconde por toda parte. Talvez por isto as conversas francas tenham bebido cicuta há tanto tempo... Esta pode ser a causa de tanta esquizofrenia comportamental desta multidão confusa difusa nas vontades instantâneas: só é possível realizar uma vez. Depois reina a paranoia.


Precisamos evoluir nosso espírito infinitamente maior. Nosso corpo não é nada além de um caiaque furado nas correntes, correntezas e cachoeiras da vida. As ideias gregas tão cultuadas desde o pré-socrático Anaxágoras de Clazômenas – meio milênio antes de Cristo – possuem tanto contexto de causas e consequências a ponto de ser impossível endossar qualquer tipo de violência vinculadas a religião ou filosofia, principalmente, o revide como solução. Ao invés de revidar e plagiar, o aprender precisa vir primeiro junto a capacidade de prever as consequências dos nossos atos para não continuarmos etiquetados como causas perdidas.

sexta-feira, junho 16, 2017

por hora seria apenas ela ( miniconto)



por Rafael Belo

O dia havia amanhecido sem o de ontem terminar. Sonolento como ela, estava de férias. Nada importava. Ela parecia mais velha, mas era adolescente. Bonita Bon ainda se infiltrou no meio dos guias e adentrou nas águas com tanta naturalidade… Todos pensavam ser uma nativa, mas ela nem sabia nadar. Entrou, mergulhou sem medo e ali se perdeu rapidamente.

Para os outros era como se estivessem invadindo a privacidade dela, por isso todos se dispersaram em silêncio. Bonita, então, submergiu completamente. Em estado de apneia sem saber, minutos se foram e ela queria afogar aquela multidão de solidões pulando nos seios dela… Foi inevitável engolir água e ela aceitou como se fosse o melhor presente do mundo, mas não era a hora dela. Ninguém iria adiantar os ponteiros do Destino.

Bonita emergiu em paz, apesar da tosse. Totalmente leve, apesar da tosse. Preenchida, apesar da tosse, assim, por causa da tosse, e da ausência daquele vazio existencial em crise, ela chorou admirada dos peixes para frente tentarem se alimentar das lágrimas dela. A cada gota uma tentativa é um salto e aquele fenômeno pareceu ser fofocado e os peixes aumentaram na mesma proporção do fascínio de Bonita.

Não havia mais necessidade de choro. Aquelas águas refletindo tudo e transparentes no mesmo olhar, a haviam curado da dependência. Ela não dependia mais da atenção do outro.  A cura milagrosa entrou na vida de Bonita com os dois pés surpreendentes nas costas sem ser considerada covardia ou traição. Todo aquele sumiço silenciosamente repentino mudou de propósito como quem - transbordando de desejo - rasga toda a roupa para própria satisfação. Ela só era desejo e vida independente e inteligente saindo para toda parte apenas para diversão e relaxamento. Mas, por hora seria apenas ela e as águas transparentes refletindo vida e adaptação.

quinta-feira, junho 15, 2017

amadores

sem som somente solidões e solicitações de amizade
piscam na tela do celular no wifi das multidões digitais da eterna puberdade
dependendo das aceitações dos outros um smile sorrir ou outro chorar
ansiosa espera da visualização ingrata sem chegar mesmo online

afagam tristezas os olhos abismais fatais para si mesmos
borram rostos artificiais maquiados para segurar a noite
até os vazios invadirem com todo o peso do limbo do universo levando corações deixando televisores

neste nada no buraco do peito há jeito até para a morte
o purgatório do corpo leito vai virando vários paraísos sem torres e começam os odes

sorte é para amadores a não mais se conectarem sozinhos criando altares endeusando até desconhecidos vizinhos
depressivos ninhos da não aceitação onde o outro é uma sobreposição de nós.

+Rafael Belo, às 13h29, quinta-feira, 15 de junho de 2017+

quarta-feira, junho 14, 2017

Era uma intervenção (miniconto)



por Rafael Belo
Lá estava ela naqueles movimentos repetitivos sentindo um vazio dolorido a mastigando enquanto ela mesma mastiga uma bola de metal cravada de pregos enferrujados. Chuva ao invés de sentir prazer, chora. Seus olhos contém uma noite sem estrelas e na indiferença do seu parceiro tudo parece estar no mudo. Depois de satisfeito ele vai embora e ela finge dormir. Ela escuta ele procurar as roupas tentando não fazer barulho, o ouve se vestir, procurar as chaves da casa dela e ir embora como se nem tivesse ali estado.

Toda borrada, abandonada na própria casa e soluçando como se estivesse à beira da morte dentro de um abismo de escuridão a apagando, qualquer atenção já ganhava Chuva. Seu sentimento é um constante desaterro, um absoluto desamparo pressionando o peito de dentro para fora e de fora para dentro com uma mão de ferro esmagando o coração e o próprio mundo sentado nos pulmões. Onde está o ar?, pensava Chuva enquanto ia ficando roxa. Já tinham passado dois dias dos namorados e um perder de contas do tempo de solidão de Chuva.

Ela observava com sofrimentos diversas solidões de mãos dadas nas multidões e só podia imaginar cada uma ser um dos pedaços estilhaçados do espelho refletindo apenas o lugar onde estão. Mas, olhando para si mesma via: seus pensamentos não compartilhavam os sentimentos. Não estavam estragados na dependência do outro, então não realizavam aquelas dores do físico, não aceitavam ser deles nem se reconheciam mais. Era uma desconexão tão consciente e ela já ia abandonar aquelas dores quando começou a falar sobre elas ao mesmo tempo indo parando de chorar.


Chuva aumentou de tamanho de repente como uma Deusa lembrando não ser apenas humana. Ela sentou e começou a rir e cada risada aumentava. Quem passava na rua ria também e seus vizinhos já gargalhavam, mas bela como era ninguém imaginava sofrer. Nunca esteve só, porém sempre foi sozinha. Contagiando risadas só despertava nos outros a falsa ideia dela ter tudo e poder ter tudo porque bela era. No entanto, se sentia a amaldiçoada Fera. Qual o propósito?¸ se questionava se procurando no espelho. O celular tocou e Chuva atendeu sem olhar quem era. Ria e quando ouviu a voz reconhecida voltou a chorar. Minutos depois vários amigos chegavam a contragosto dela. Era uma intervenção.

terça-feira, junho 13, 2017

exótico cotidiano



converso com a antropofagia devorada pelo canibalismo criterioso me olhando com a questão se ainda penso
senso de carnaval bagunçando a moral na esquizofrenia da solidões sentindo multidões
chora esse olhar contaminado no sentir exacerbado no desafinar dos exageros
mastigo significados até se irem todos os gostos
esteja disposto a não estar

presenteie primeiro pessoa presença sua deixe a lua te encher
comece se esvaziando de você antes de ir
os sabores condensam esta neblina estridente
dissipa todo o disponível a partir do seboso momento de não ver

as cordas tensas tocam todas as notas até o som ser eu e você
profanado de sagrado dedilhado na trilha sonora vista neste ouvir particular

mesmo quando falta ar é possível respirar de tantas maneiras quanto a eternidade instantânea pode imaginar nosso destino.


+Rafael Belo, às 16h52, terça-feira, 13 de junho de 2017+

segunda-feira, junho 12, 2017

primeiramente a própria presença



por Rafael Belo

Há tantas expectativas nos olhos procurando serem olhados por aí, vivendo uma necessidade de querer serem queridos tão intensamente a chegar a doer. Cultivam uma solidão, uma sombra pesada totalmente oposta a vontade acumulada, criam uma dependência do outro e um desespero exala do olhar. Há um vazio despedaçado já na superficialidade da vista fabricado pelo descontrole imposto na vida pessoal pela forma da criação de cada pessoa nunca direcionada a saber quem é, a conviver consigo mesma e só capacitada a conquistar espaços, relacionamentos, profissões, concursos e o mundo.

Não há culpa ainda mais diante das desculpas da voracidade estética do padrão social. Mas, quem está só e é constantemente devorado se perde nesta antropofagia onde há só o bestial canibalismo usando o corpo e se alimentando da alma do outro acabando por encontrar uma culpa inexistente. Então, se vai esvair em uma busca incessante de um corpo e, talvez, uma mente para preencher este vazio só possível de encher consigo mesmo. Ao invés de primeiramente a própria presença e um transbordar de si, um ideal do outro, uma miríade de expectativas, uma resposta a cobrança eterna dos amigos, família, da sociedade de ter outro alguém.

É Dia dos Namorados e disfarçadamente as brincadeiras sérias surgem de toda parte nos dias antecipados da data. “Estáveis” em seus relacionamentos reafirmam suas “posses” e “instáveis” no modo solteiro confirmam a “delícia” de não ser um casal.  Da boca para fora cada um defende seu corner e lançam a visão ao redor para não se entregarem neste mundo de pressa e instantaneidade.  É aqui onde habita a efemeridade das relações às vezes se perpetuando nos namoros seguros pelo medo da solidão sem o outro e vive-se uma solidão ecoando a solidão da parceira/o. Do lado de cá há badalação de toda parte, flertes, ficadas, rolês com a única intenção de diversão e a mesma solidão. Não somos multidões sós, somos solidões em multidões.


E nas aceitações pregadas e desaceitações viralizadas fica óbvio a necessidade em algum momento de estar com alguém. O ser humano não foi feito para ficar só. Somos tantas ideias e sentimentos necessários - não de aceitação - mas de expor aqueles para de fato existirem... Precisamos nos compartilhar, mas a partir do momento no qual sabemos quem estamos compartilhando, pois até a tal da beleza gera inseguranças de ambas as partes da mesma maneira onde a quantidade de qualidades provoca desconfiança. Aprenda a conquistar a si mesmo diariamente, não julgar e se divertir ao sair sem precisar procurar ninguém porque tudo fica mais leve e suas vontades podem chegar até você.

sexta-feira, junho 09, 2017

Nem tudo precisa ser dito (miniconto)



por Rafael Belo

Não é premonição. É atenção aos fatos, aos arredores. De fato olhei a previsão do tempo e não há precisão. Tudo sempre é impreciso. Mas sabia do esfriar repentino. Bem, começa o tempo ficando chumbo, avermelhado, aí a água despenca do céu sem parar enquanto vai esfriando até esfriar de vez. Nada repentino... Foi feito. Assim aconteceu e está acontecendo assim. Mas qual o motivo de durar só dois dias? Como prolongar a previsão? Não sei a resposta nem minha insistência em desviar do assunto, mas é algo me modificando sem me pertencer.

Tenho a sensação de já estar à espera deste frio há tempos. Irei eu namorar, finalmente? Não, eu não estou procurando só porque estamos a três dias do dia dos namorados... Sinceramente estou bem comigo mesma, só tenho alguns aprendizados básicos, por exemplo: como ficar calada ao invés de falas desnecessárias, ou é possível ser menos sincera? Ou ainda, como ignorar quando se metem na tua vida? Métodos práticos, língua preta e fala ácida... Ou voltando no tempo: como desimportar? Não sei se está frio assim ou eu estou fria neste ponto. Talvez o mundo e eu tenhamos agora a mesma temperatura. Estamos intensos...

Depois daquele frio intenso eu precisava me abrigar.  Estava tudo vazio e o assobio do vento me assustava. Eu, Dalivine Coragem, pois era assim a forma dos meus antepassados desejaram nosso enfrentamento perante tudo na vida: com Coragem. Vesti o clichê da cara e da coragem e bati naquela cabana parecendo tão aconchegante. Eu sentia o calor irradiar lá de dentro. Fui batendo cada vez mais forte porque agora já não lembrava mais como havia chegado ali. Como? Só pensei e caminhei e... Está aí minha resposta. Agora já batia e gritava: - Tem alguém aí? Por favor, abra!!


Ao virar de costas, pois já muito assustada tudo em mim gritava perigo, corra, senti alguém se aproximar. Parecia uma multidão marchando. Sei! Era impossível. Não poderiam ter... Viva alma... Por aqui e... Viva? Alma? Pam! Tum!... Foi uma música dentro da minha cabeça responsável pelo meu despertar. Não havia ninguém por perto. Verdadeiro deserto da deserta highway engenhosamente composta por Humberto Gessinger. Não havia nenhum som. Não tinha com quem dizer sim nem não. Então, acordei do sonho acordado. Eu estava imaginando um mundo sem filtro com as pessoas como estão... Não, eu não sobrei sinceramente sozinha, eu só fiquei na ótica de uma sinceridade sem limites porque o silêncio sabe ser sincero também. Nem tudo precisa ser dito.

quinta-feira, junho 08, 2017

preferências



joguei pela janela do carro minha coleção de dores insinceras
não fico a espera de alvos em ações de dissabores sendo plateia
sou novo todo dia na minha estreia infinita esticando a língua
extinta de quaisquer doses de venenos e apelos respirando na pele

fere só o permitido assistido pela culpa inexistente mordendo a gente
estridente como o grito da noite quando dormimos cheios da mente
e quem mente para si deve parar de cavar este buraco sem fim

volta a si volte ao pronome obliquo tônico mim conjuga-me
toma-me como aquela água inundando o manto dos elos me cobrindo

saio do canto como raio caído caindo ao contrário sincero do destino páreo

prefiro me ter ao meu lado vazio e cheio de nada a molestar a ostentação freguesa da incerteza de uma relação bugada.


+ às 10h24, Rafael Belo, quarta-feira, 08 de maio de 2017 +

quarta-feira, junho 07, 2017

Bendita picada! (miniconto)



por Rafael Belo

Eu dei um grito. Simplesmente na maior naturalidade e parecia sem fim. Gente desconhecida chegou até mim e imediatamente percebi a mudança. Sempre evitei dizer qualquer coisa. Não queria conflitos nem nada. Apenas me afastava e achava ser assim mesmo. Mas, depois da dor, do grito e das minhas palavras: senti-me leve. Tão leve a ponto de fazer algo difícil: sorrir. Aprendi a sorrir de verdade. Antes era só um entortar enviesado dos lábios um pouco irônico um tanto de “acaba logo”, um monte de “tudo bem”, mas sem mostrar os dentes, sem destravar realmente. Não sei ainda o motivo da dor. Um inseto ou aracnídeo talvez? Uma cobra provavelmente...

Sei da dor e da mudança iniciada de baixo porque foi de lá a picada/mordida. Minha bota está pendurada como lembrança na parede de entrada da minha casa. Foi minha experiência quase morte. Não voltei deixando vestígios do outro lado nem nada disso. Não despertei tanto meu espírito assim e continuo achando ser carne e pele com cada sensação nela. Sou teimosa. Sei o seguinte: seja animal, inseto ou aracnídeo o veneno foi o suficiente para me matar. Aquela antiga eu ficou ali apodrecendo até virar ossos. Eu já vinha sentindo meu cheiro de putrefação, mas como saberia estar morrendo? Eu era o real clichê morrendo por dentro.

Não vou dizer as palavras rudes e até os palavrões, mas não me arrependo. Percebi pelo olhar chocado das pessoas tentando me ajudar e eu rechaçando começando com “não me toque” e chegando ao sexismo de coisas não ditas.  Aí me diziam você é mulher e blábláblá e eu tipo Po...! Fo..-..! Só me deixem com minha dor. Se ela não passar eu passo com ela. Não meço palavras mais. É simples: ou digo ou não digo. Mas, jamais deixo mais quaisquer coisas abertas para diversas interpretações. Sou clara como meu nome e mais porque sou Claraluz tudo junto mesmo.


Sabe, eu fiquei inchada, delirando e mesmo desta forma sai cambaleando pelo luar daquele desterro. Como fui desaforada ninguém veio atrás de mim. Quando cai não sei quanto tempo fiquei ali, mas pelo menos um dia foi. Ainda bem... Não foi em lugar aberto porque era bem possível eu estar com câncer agora. É! Isso não foi nada inteligente, mas gente!! Me entendam!! Não foi a picada, a quase morte responsável por eu adquirir sinceridade... Foi eu ter ganhado um tempo para pensar. Bom... Eu... Eu confesso! Como muitos eu pulava de um “amor” para um desamor e ocupava meu tempo só para não ficar comigo mesma. Mas a libertação da sinceridade cria relacionamentos de verdades e como é bom saber ser leve e completamente eu. Bendita picada! 

terça-feira, junho 06, 2017

desengolir



juntando os pedaços perdidos a busca não tem mais encaixe
uma vez já fui da Terra agora sou de toda parte não vista de Marte
então me deixo por aí por não ser mais eu - não caibo mais na minha imperfeição
e remontar é não ter mais peças sobressalentes para odiar quando precisar e deixar passar

odeie-me em cada detalhe imperfeito ou me ame só tenho medo do desamor e da perfeição
desamor é total ausência perfeição é uma deficiência onde não há mais para onde ir
preciso seguir e eu vou sempre continuar não quero parar e esperar a rua me atropelar

não tem sentido procurar sentidos prefiro ir sentindo línguas calientes e ferinas
dilatar as pupilas por toda sinceridade envolvida atropelar a vida até a amassar

vou respirar fundo desengolir um sorriso para perpetuar a minha extinção com a eternidade deixando minha Alma falar.


+ às 10h26, Rafael Belo, terça-feira, 06 de junho de 2017 +

segunda-feira, junho 05, 2017

estamos perdendo



por Rafael Belo

Não sei qual o problema da sinceridade, mas ela realmente está em falta e quando comparece vem distorcida. Há um medo de dizer o sentimento, o pensamento e são lamentáveis as abordagens, principalmente, às mulheres, mas enfim... O rodear, a falta de conversa, o vazio absoluto criam obstáculos e um padrão totalmente desconfortável e descrente nas pessoas quando se trata de relacionamentos. Aliás, todos precisamos de tratamento. Vivemos resquícios psicológicos de relações mortas e enterradas... Bem, desenterradas... Basta olhar os olhos de mágoas em um choro interno e com uma dor necessitada de espaço para se dissipar, mas no fundo só ganha mais aperto em outras dores para colecionar.

Também colecionamos contatos e pessoas durante uma semana, um mês, um ano e... Não há oportunidade de saber quem são de fato antes de as descartarmos sumariamente. A velocidade não serve para nada a não ser para precipitações. Ah, como somos precipitados. Somos ótimos em um julgamento recheado de nossa raiva... Dois problemas em um. Julgar com qual base? Não temos esta competência perante um erro, um deslize e mesmo diante de um ato arquitetado porque não cabe a nós. Já toda raiva é gratuita porque só serve para nos envenenar. Hoje somos o veneno do mundo acelerando nosso processo de morte. Criamos uma ansiedade crônica responsável por dores de cabeça inexplicáveis, gastrites intermináveis e depressões desdenhadas misturando tanta coisa capaz de deixar todo ar respirável poluído. Onde está a clareza e a objetividade?

Objetivos? Só posso rir quando vejo tantos disfarces nomeados como objetivos... Muito menos somos claros. Não estamos nem perto de sermos claros... Somos difusos, confusos, irregulares porque pedra pode ser papel no mesmo significado falado e vamos criando paralelos, paradoxos e linhas temporais alternativas responsáveis por tanta solidão. Contradizemos gestos, falas, certezas e expressão corporal e os sinais universais ficam ali precisando de legenda. Tudo pode ser mal interpretado porque falta boa vontade... “Está certo”. Levamos tanto na cabeça, perdemos muitos dentes no chão e embrutecemos. Temos de nos preservar, claro. Mas, até quando vamos deixar de fazer algo, de viver coisas grandiosas, de reforçar apenas o negativo de relacionamentos e situações vividas, de nos dar oportunidades novas para nos preservar?


Não estamos à beira da extinção nem para nos preservar. Estamos levando à extinção tantas outras coisas, espécies e sentimentos por nos preservar. Chega de recolhermos nossa capacidade de arriscar, de acreditar e acabar nos desacreditando. Começamos a avançar e permitimos o festival de interrogações pipocar na tela da mente como mensagens de bom dia no whatsapp do grupo da família só mudando para a pergunta “será?”. Podemos questionar à vontade, mas em voz alta, por favor, e para quem quer que seja porque somos sim medrosos, covardes e idealistas. Assim, ficamos insistindo em criar ideais de pessoas, relacionamentos e nem sequer chegamos a conhecê-las e torná-los plenos. Relacionamo-nos com nós mesmos em espelhos distorcidos iguais à sala dos espelhos dos circos. Estamos perdendo de saber o quanto somos incríveis e, sim, há pessoas incríveis por aí. 

sexta-feira, junho 02, 2017

peças feitas para não encaixar (miniconto)



por Rafael Belo
Estava toda desmontada. Não era Drag, puta, louca, normal, boneca... Não era nada além dela. Isso já era muito. Era demais ser Beliza. Bom, mas não vou falar de mim na terceira pessoa. Eu acabei com os meus vestígios do passado. Minhas pistas não existem mais. Desimportei-me quando escutei o silêncio chegar querendo me reinventar. No meio do tiroteio, só vinham balas de um lado. A minha perdida foi de raspão. Foram duas na verdade e se tivessem mirado nas minhas orelhas não teriam acertado. Não sei se é diferente ver as coisas acontecendo, as bocas mexendo e ignorar por opção como se não houvesse som e este momento.

Falo de poucos minutos do futuro daquele tiroteio. Agora já terminou. Ainda não escuto nada nem aquele ruído agudo de fora do ar, de censura... Será possível Alguma Entidade Superior ter me silenciado? Os tiros vinham só de um lado. Não sei se quem morreu era polícia ou ladrão. Era uma pessoa. Podia ser eu. Podia ser você... Nem podia ser a vez dele... É possível furar a fila da morte? Qual música estaria tocando agora se um filme fosse capaz de reproduzir tantas reviravoltas em tão pouco tempo? Algo mais sentido e teatral como Ney Matogrosso, Linneker ou Jhonny Hooker... É! J imagino a canção!

Não sou colecionadora de decepções, não mais. Caminho apesar das tentativas dos socorristas me levarem para o carro de emergência. Não devem estar dizendo nada diferente de: você está em choque. Precisa sentar. Precisamos ver como você está. Venha! Tudo bem? Mas, não os culpo. Eles seguem o procedimento, o padrão, o planejamento... Não podem me obrigar! Eu continuo andando e pela primeira vez mentalizo algo. Apago todo o resto, desfoco aquilo difícil de apagar e foco naquela montanha adiante. Minha audição está voltando, mas aprendi algo novo quando lidei com o medo da morte. Aprendi a diminuir o volume das coisas volúveis, fúteis e não me preocupar. Agora o silêncio vem realmente, agora na minha possibilidade de escutar.


Preciso parar diversas vezes. Não é cansaço. É espaço. Preciso de espaço. Há conhecidos me seguindo, ligando para minha família e para meus amigos. Então, me volto para eles sem dizer nenhuma palavra. Apenas olho nos olhos para mostra minha (in)sanidade recém-nascida e balançar a cabeça da esquerda para a direita de forma firme e lenta por pelo menos três vezes. Olha só! Eu sorrio! Gente! Eu sorri! Não sabia da existência destes músculos. Começo a cantar uma canção desconhecida enquanto corro para despistar. Peguei uma trilha não usada há tanto tempo. Espero... Bom, ninguém vai se lembrar dela. Agora cheguei! Tudo isso esteve me esperando e eu me achando grande. Sou uma criança nova balançando os pés no assovio deste vento. Agora sim posso dizer: me desmonto. Neste leve remontar há peças feitas para não mais encaixar.

quinta-feira, junho 01, 2017

seriedade de brinquedo



inverno toca nuca arrepiando como nunca o dia
sopra  frio formando as nuvens malucas sem ser sutil
mordisca tempo aquele alimento chamado sentimento azia
pura descortesia da fatia vazia do nosso constante movimento servil

curvados aos desdobramentos das pequenas coisas trava o sorrir sem padrão
existir passa para perdida transparência perguntando sobre a essência
qual a aparência de deixar para lá quaisquer incômodos sem solução?

direção equivocada da falta de paz esquecendo os sinais e cai
vai esquecendo a memória nas doses de tédio da ideia ilusória do espelho ideal

surreal tolice do palpite de inventar tanta babaquice para se coçar na inércia real de brincar com a seriedade das tempestades desconstruir a Verdade para gargalhar do brinquedo feito sujeito do faz de conta de se importar com o reflexo de reclamar da inexistência esperando o silêncio nos reinventar.


+ às 08h21, Rafael Belo, quinta-feira, 1º de junho de 2017 +